1º Desafio Scribe de Contos

Nem ódio nem justiça.

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       Tão logo soube que o 1º Desafio Scribe de Contos estava lançado, Fernando pensou no filho. Se André vencesse, a decolagem seria inevitável! Ora, como uma notícia desse quilate voa à velocidade da luz, a panelinha a que pertencia o quartanista de Letras por certo já lhe teria participado a novidade; e voltava a folhear o jornal.

   Interessante mencionar que nesse grupo literário havia um componente que destoava. Era Marcelo, e que bem poderia ser comparado a Luís Tinoco, o protagonista do conto Aurora sem dia, do nosso sempre Machado. Isso porque ambos achavam-se escritores e poetas, e não suspeitavam da sua total falta de talento. Assim, mesmo sentido-se realizados, o máximo que conseguiam produzir eram meros Goivos e Camélias.

     Marcelo era assíduo nos saraus que ocorriam quinzenalmente na casa de André. E como não enxergasse a própria realidade, não conseguia entender por que a sua vez de se expressar demorava a chegar, os aplausos que porventura ouvia eram sempre tímidos, e as discussões que às vezes se travavam não abandonavam o laconismo.

     Isso deixava Fernando menos constrangido que contrariado, sobretudo em relação ao filho, pois, além de André permitir que essa palhaçada continuasse, era ele quem mais aplausos recebia, inclusive do próprio Marcelo!

     Por que não dizerem a verdade ao rapaz? Num primeiro momento, isso lhe doeria muito, é fato. Mas se lhe redirecionassem a paixão pela literatura – quem sabe a crítica, quiçá a só declamação –, Marcelo poderia se encontrar, e, concluía Fernando, aposentaria de vez o papel de bufão que sequer supunha interpretar.

     É claro que André não foi o único a querer participar desse concurso. A animação entre os amigos explodiu, e o quinteto prometeu dar o melhor de si. É bem verdade que quando Marcelo, absorvido em sua criatividade, resolveu antecipar o título do seu futuro conto, as testas engelharam, os lábios se viraram, e o embaraço foi geral. Como sempre, porém, ninguém ousou palpitar, e a conversa retomou o bom ânimo.

     Em dado momento, um dos amigos teve a ideia de apresentarem no próximo sarau os textos que se tornariam concorrentes; seria uma excelente oportunidade para que todos opinassem, e se estimulassem. Não houve quem discordasse, e, enlevados, resolveram brindar o início da nova empreitada no Recanto das Musas, o bar fronteiro à Faculdade.

    Assim que chegou a casa, André correu a participar ao pai o novo certame. Fernando recebeu a notícia como se não a soubesse. Mas o entusiasmo que deveria demonstrar ao filho pouco se fazia, pois as dores que tomara de Marcelo pareciam aumentar a cada palavra que ouvia.

    E quando André disse o que fariam no próximo encontro literário, Fernando limitou-se a um sorriso amarelo. E retrucou:

       - Será uma ótima oportunidade para vocês criarem coragem.

       - Coragem pra quê?

       - Para dizerem ao Marcelo aquilo que sempre tiveram vontade.

       - Mas, pai...

   E o que era para ser uma conversa alegre e cheia de estímulo, acabou se transformando em uma discussão áspera e sem sentido.

    Clareado o horizonte, e a intervenção materna foi decisiva para que a borrasca se dissipasse, André se foi a passo firme e se trancou no quarto. Mas ao contrário do que se poderia supor, ele não estava zangado com Fernando. A bronca era consigo mesmo, pois, lá no fundo, ele sabia que seu pai tinha razão. E ter que dar o braço a torcer o premia ainda mais.

    Deixou-se cair sobre a cama, e passou a refletir: A amizade, por si só, justificaria a permanência de Marcelo na tertúlia? Ou, como dissera Fernando, o fato de todos serem amigos, não impunha à maioria o dever de abrir-lhe os olhos? Mas se lhe descortinassem a falta de dom, será que ficaria melindrado a ponto de romper com os colegas?

     Talvez fosse oportuno que André se perguntasse por que ainda toleravam Marcelo se sua contribuição era medíocre? Seria justo à confraria que seus espíritos continuassem a engolir a seco o que de pior se pode produzir? Fosse como fosse, lembrou que em mais de uma vez pensou em propor ao grupo que o afastassem; aliás, não duvidava de que essa ideia não lhe era exclusiva. Mas, então, o que os impedia de expulsá-lo? Seria uma espécie de compaixão solidária? Ou será que, na verdade, todos se divertiam, e muito, com as asneiras que ouviam, e, por isso mesmo, não abriam mão de mais um recreio? Mas as respostas, pelo menos as sinceras, não vinham à tona. E continuou com esse vaivém por mais alguns minutos, até que o sono o venceu.

    No quarto vizinho, apenas Bárbara dormia. A mãe que apaziguara o conflito cansara-se de argumentar ao marido, e o deixara na sala entregue à própria rabugice.

    Fernando, que perdera o sono, matutava em silêncio. Sabia que seu filho era o melhor entre os cinco. Desde a terceira infância já percebera o incrível potencial que se escondia por detrás dos trejeitos de moleque. O deleite que demonstrava ao ouvir contos de fadas, o gosto pela leitura e por aprender o português, a espantosa criatividade ao imaginar histórias, a desenvoltura no compor os primeiros textos, tudo lhe era inato! Não que já não tivesse conseguido um e outro prêmios literários... Na verdade, as conquistas assomavam. Mas agora, com o manancial humanístico que vinha acumulando, concluía Fernando, bastava uma simples faísca para que um escritor – e na melhor acepção da palavra – fosse descoberto e projetado de imediato.

   - É bem o meu oposto... – mesmo ligado à área de humanas (era professor de História), Fernando nunca conseguira escrever um só texto de que pudesse se orgulhar. A propósito, se fizéssemos uma comparação com as artes plásticas, diríamos que ele jamais conseguiu ir muito além daquele quadro da casinha, com a árvore e o sol, e que as crianças adoram pintar.

   Certo dia, depois que acabou a última aula e todos já saiam do campus, Marcelo chamou André para junto de si. Queria do amigo uma opinião sobre o conto que iria ler no sarau do próximo sábado. O título, André não teve a mínima dificuldade de se lembrar – A traça de véu.

     - Não é melhor você ler lá em casa? Assim todos podem... - Mas Marcelo o atalhava:

    - Não! O seu parecer é muito importante para mim. Se você disser, e com franqueza, que o meu texto é bom, estou certo de que os outros também gostarão. Neste caso, saberei que tenho plenas chances de vencer o concurso. Ora, você é meu amigo ou não é?

    André se viu num aperto. Afinal, uma coisa era sentir os efeitos de uma historieta diluirem-se por entre a plateia; parecia doer menos. Outra, bem diferente, era aguentar sozinho o baque, e, ainda por cima, ter que opinar sobre o insípido. E lembrava-se dos questionamentos que se fizera há poucos dias... Será que não se criara uma oportunidade ímpar à desilusão? Isso não pouparia Marcelo de mais um vexame acachapante? Pediu ajuda aos céus e esperou. Concluia, e a duras penas, que não era mais possível mentir. A verdade, mesmo que dolorosa, teria que ser revelada.

     Para dar mais sustentação ao que iria dizer, pois bem sabia o que o aguardava, André pegou o conto e convidou Marcelo a se sentar. Leu, com o máximo de calma possível, aqueles indigeríveis parágrafos. Quando terminou, não sabia se ria ou chorava. Inspirou profundamente, fixou o amigo, e relatou, com pormenores, tudo aquilo que seu texto lhe passara. E se fôssemos resumir, pouco ou nada se aproveitava.

     - O quê?! Ah, você está brincando... Nossa, por um momento, eu até pensei que você dizia a verdade. Mas, fala, o que lhe passa ao coração?

     Com uma paciência que jamais supusera ter, André não só confirmou as impressões que tivera, como também teve coragem para contar o que sempre quisera. Ao final, pedia que Marcelo não abandonasse os encontros noturnos em sua casa, mas que se limitasse à recitação ou à só contemplação.

    Pode-se dizer que a reação de Marcelo não foi nada compreensiva. E terminava com esta sentença:

    - Quer saber o que eu acho de verdade? o que eu sempre achei? que você, que vocês têm, sim, inveja de mim! – e saia cuspindo fogo.

    Atônito talvez seja o adjetivo que melhor qualificaria André neste exato momento. Com o passar dos minutos, porém, e como recobrasse a lucidez, o pasmo dava lugar ao alívio, se bem que de mão dada com o desgosto. Afinal, a amizade entre eles parecia ter acabado.

   Ocorre que essa cena não acontecera sem que outros olhos e ouvidos a tivessem presenciado. Fernando, que fora à Faculdade resolver uma pendência, a tudo espreitara, escondido atrás de uma coluna. E comentava para si:

    - Então é assim?... Acho que não.

  Fernando esperou que o filho fosse embora e partiu à procura de Marcelo. Avistando-o, conseguiu alcançá-lo. O susto foi grande, mas o “ultrajado” aceitou conversar.

    - Ouvi tudo o que meu filho lhe disse.

  - Na certa o senhor concorda com ele. Pois não precisa se dar ao trabalho... - e Fernando o interrompia:

    - Não concordo em nada com André. Sobretudo com sua arrogância, sua empáfia... E conheço bem a dor daqueles a quem Deus permitiu o desejo, a busca da realização por meio da literatura, mas lhes negou o necessário, a arte, o escrever espontâneo, que brota da alma. – Marcelo enfurecia-se.

    - Calma, que o que tenho a propor será muito vantajoso para você.

    - Como assim?

   - Antes de responder, eu gostaria de perguntar se você já ouviu falar do Réquiem em Ré menor, de Mozart?

   - Já o ouvi, e mais de uma vez. Mas o que isso tem a ver?...

   - Sendo assim, talvez saiba também da lenda romântica que se formou ao redor dele?

   - Não. – Marcelo já perdia a paciência.

  - Bem, um nobre muito rico adorava dar concertos em seu palácio. Mas como lhe faltasse o dom celeste, costumava encomendar peças musicais a compositores renomados, mas sem que estes soubessem com quem contratavam; no mais puro anonimato. Daí ele as apresentava em seu palácio como se fossem de sua autoria, e ficava com toda a glória, com todos os créditos.

   - E esse nobre teria feito a mesma coisa com Mozart e o Réquiem?

   - Exato.

   - Mas, e daí? Não estou entendendo.

  - É simples: Use do mesmo expediente a que se entregava aquele nobre. E dinheiro não é problema; deixa que eu pago o que for preciso.

   - Como?!

  - Ora, você não gostaria que mudassem de opinião quanto ao seu valor como escritor? Pois, então, faça desta maneira: Primeiro, esqueça aquele Desafio. Segundo, descobri na Internet um ghost writer que diz criar verdadeiras obras-primas; o site dele é cativante! Ora, eu o contrato e você começa a publicar os textos em revistas, em jornais, etc. Com o passar do tempo, você alcançará o sucesso, e todos, sobretudo André, passarão a respeitá-lo, a admirá-lo. E com a fama garantida, você poderá voltar a escrever do seu jeito à hora que bem quiser, e se quiser. O que me diz?

   Passados alguns segundos, os suficientes para que Marcelo recobrasse o juízo, e Fernando ouviu a seguinte pergunta, que o fez bambear:

    - Deus que me perdoe pelo que vou dizer, mas, o que o senhor sente por seu filho é ódio?

     - Nunca! Quero apenas fazer... justiça.

   Marcelo prometeu pensar a respeito e disse que daria a resposta o mais breve possível. E antes mesmo do jantar, o pai de André recebia um singelo WhatsApp: “A literatura corrompe-se na mesma medida da corrupção dos homens.” (Goethe).

    A Fernando, que vociferava em pensamento, só cabia deletar a mensagem e aguardar o resultado do grande Desafio. Participaria da eleição? Sim, e com uma única certeza: sabia em qual Scriber não votaria.

 

Dias Campos

 

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Category : Short story