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- E-Mail De Um Ex-Funcionário 

E-Mail De Um Ex-Funcionário 

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                                                                                          "Não se ocupa com nada

                                                             além de um certo interesse pessoal, a saber, vingar-se

                                                                               da angustia que lhe causo e evitar

                                                             a angustia que posso vir a lhe impor no futuro."

                                                                (Franz Kafka: Uma Pequena Mulher)

 

 

 

Olá!

 

 

Fiquei surpreso, quando o Rodolfo me telefonou, no dia seguinte, querendo saber se, porventura, comentei com alguém que vi vocês no cinema. Na época em que fomos colegas de trabalho, ele nunca me havia telefonado, nem mesmo quando saí da firma. É claro que tal iniciativa não partiu do Rodolfo, pois sei que é do seu feitio encarregá-lo da “tarefa” de transmitir os seus recados. Vejo-me, portanto, agora no direito de colocar tudo em pratos limpos. Primeiramente, quero informar-lhe que, no período em que trabalhei nesta empresa, jamais me interessei em saber da vida particular sua ou de qualquer outro colaborador. Prova disso: a orientação sexual de um membro da nossa equipe que só tomei conhecimento, através de você, quando essa pessoa não mais integrava os quadros da instituição. É incrível como ainda hoje você consegue me enxergar como uma pedra no sapato! Atribuo ao meu primeiro dia de trabalho esta sua aversão à minha pessoa, quando fui apresentado ao diretor-presidente e esse brincou comigo dizendo que todo baixinho era ruim, porque tem a alma pequena.  A fim de agradar-lhe, disse-lhe que a história confirmava a tese dele e citei exemplos como: Hitler, Napoleão, Getúlio Vargas e Castello Branco. Ele entrou no embalo, fazendo um gesto nazista e colocou a mão sobre o estômago, igual ao imperador da França. Mas você pediu ao Rodolfo para conversar comigo, uma semana depois desse ocorrido. Pelo jeito, a brincadeira que fiz com o diretor-presidente mexeu muito com você, não foi? Os treinamentos e os cursos, conforme prometido, quando me contratou, nunca aconteceram. Tamanho foi o seu descontentamento, que você me isolou da equipe, restringiu a minha participação nas reuniões e me colocou para desempenhar serviços de continuo, coisa que não condizia com o meu currículo profissional. Caso eu cometesse um erro, não hesitava em repreender-me diante dos demais. Lembra-se do dia em que você me solicitou para acompanhar a Vanessa ao supermercado e comprar uns donativos?  Como eu vinha carregando muita coisa, pedi auxilio ao porteiro e você fez questão de falar para todos da sua insatisfação com aquela minha atitude. E narrou, pela enésima vez, a atitude do meu antecessor que não conseguiu colocar um prego na parede, referindo-se a ele como se fosse um débil mental. Aliás, todo mundo para você, naquela empresa, era um retardado: a Neusa, a Graça, o Isaias, aquela estagiária que vivia com os fones no ouvido! Meu Deus! E quando você falou para mim que achava a secretária do Resende uma burra, lembra disso? Pois eu lembro perfeitamente e digo mais, por um triz você não ouviu de mim cobras e lagartos. Achei sensato não falar e, quando estava de saída, adivinha quem eu encontrei? Dei carona a ela, mas não abri minha boca. O que eu ganharia com isso? Os meus dias nessa firma já estavam contados e além disso, iria de criar uma intriga à toa, ficando com a pecha de fuxiqueiro. Não me surpreenderia se você me considerasse um imbecil, no entanto essa sua concepção, provavelmente, mudou a partir daquele feedback. Feitas as suas considerações quanto ao meu desempenho profissional, você disse:

- Agora, é a sua vez de me avaliar. Então, acha que tenho que melhorar em alguma coisa, Gonçalo?

Fiquei meio reticente, mas você insistiu, argumentando que aquilo era necessário, porque se tratava de uma norma da instituição. Nestas condições, vi-me no direito de falar do seu constante “hábito” em fazer uso de palavras de baixo calão, durante o expediente, lembrando, inclusive, da vez em que você mandou um funcionário ir tomar... Esse termo, diga-se de passagem, era dito, com frequência, por você, sempre que algo não correspondia às suas expectativas. Para se defender, você alegou que não havia dito isso diretamente ao rapaz e, então, eu respondi:

       - Independente de ter sido dito na presença dele ou não, você disse. Já pensou se eu, por acaso, falasse isso?

Comentei ainda desse seu comportamento estressante, mostrando que isso acarretava a insegurança e desestabilidade da equipe. Quero deixar bem claro que procurei agir como um profissional sem imaginar que, lá na frente, isso me custaria muito caro. A sua marcação comigo dobrou, ao ponto de ameaçar transferir as minhas funções ao Rodolfo, caso não trabalhasse direito. E você fez questão de cumprir o que prometeu, logo que cometi uma rata:

- Gonçalo, o que pretende fazer, quando o Rodolfo assumir as suas funções, visto que não haverá mais serviço para você aqui na empresa?

Três vezes, num único dia, você me fez essa pergunta, intencionando que eu pedisse as contas ou perdesse a razão para me demitir por justa causa, certo? Evidentemente que a minha vida pessoal não lhe convém, mas fique sabendo que, na mesma semana em que você me fez essa pressão, eu tinha acabado de me separar da minha mulher. Sorte a minha, meses antes, ter começado a fazer análise. Estava propenso a ter um enfarte, um derrame ou uma úlcera. Diariamente, eu saía para o trabalho, pensando: “Qual vai ser a bronca de hoje?”. Contudo esse suplício terminou no dia em que você comunicou o meu aviso prévio, dando os meus direitos trabalhistas. Oh glória!  

Copiei o Rodolfo neste e-mail, porque é bom que ele saiba que eu o acho bem grandinho para exercer a função de moleque de recados. Saibam também que no momento em que estiverem lendo essa mensagem, existem coisas que para mim são muito mais relevantes do que a vida pessoal de vocês.

 

Atenciosamente,

 

                               Gonçalo Dias.

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Category : Short story