Notice (8): Undefined index: HTTP_ACCEPT_LANGUAGE [APP/Controller/AppController.php, line 55]
-  Indesejável Encontro

 Indesejável Encontro

(Prologo Do E-mail De Um Ex-Funcionário)

Font Size:

 

                                                                                                                    

                -O que é que há? Você está aí com essa cara e sem dizer nada, desde que saímos do cinema.  Nem precisa me responder, pois já sei do que, ou melhor, de quem se trata: Gonçalo.

                -Esse sujeito seria a última pessoa que, em vida ou em outra encarnação, eu gostaria de encontrar, no entanto o destino terminou me pregando uma peça. E o pior, você nem imagina: ele viu a gente.

-E daí?

- O Gonçalo viu nós dois, Rodolfo!

- E daí? A gente, por acaso, deve alguma satisfação a ele?

-De jeito nenhum.

-Então? E quer saber do que mais? Você está se preocupando à toa e acho pouco provável ele ter percebido alguma coisa, pois o Gonçalo é uma besta quadrada!

-Não contaria com isso, se fosse você, Rodolfo. Também pensava assim até cair do cavalo.

-Nunca vou me esquecer do modo como o fuzilou com os olhos, após haver feito aquela brincadeira com o diretor-presidente. Uma vez que você pega bronca de alguém, é caixão. O Irã que o diga. A sua antipatia por esse manifestou-se desde o início, tal qual aconteceu com o Gonçalo. E, na primeira oportunidade que teve, você nem pensou duas vezes em dar as contas dele.

- O Irã era um tiro no saco e muito relapso.

-E o Gonçalo também não era relapso?

-Era, mas o Gonçalo, por incrível que pareça, sempre foi pontual, nunca faltou ao trabalho e, acima de tudo, jamais criou empecilho com qualquer serviço que eu o encarregava de fazer. Essa persistência dele muito me admirava.  

- Você não poupou o Gonçalo de suas represálias, mesmo assim. Tudo era motivo para pegar no pé dele, como na vez em que ele pediu ao vigia para ajudá-lo com as compras. Isso até me fez lembrar um episódio envolvendo o Irã: voltávamos de um almoço e esse atirou pela janela do carro o papel de um bombom e a primeira coisa que você fez, quando chegamos à firma, foi recriminá-lo por tal atitude. O Irã e o Gonçalo poderiam ser pessoas diferentes, mas a sua apatia por ambos era similar No caso do Irã, você tratou rapidinho de resolver, assim como havia feito com o Jardel e a Ana Luiza. 

- Ali eram duas cobras! O Jardel, desde sempre, manifestou interesse pelo meu cargo, por isso resolveu indispor o pessoal da firma contra mim. Se eu não agisse logo, teria puxado o meu tapete. E a Ana Luiza entrou na dele, fazendo fofoca de mim dentro da nossa equipe!

-E quanto ao Gonçalo?

- As inúmeras não conformidades que ele recebeu, durante a auditoria, seriam a chance que eu tanto buscava para vê-lo fora da firma e, sobretudo, longe das minhas vistas, se não fosse aquele maldito feedback! Na hora de me avaliar, o miserável não perdeu tempo: “De cada cinco palavras que você diz, quatro são de baixo calão. Há de convir que uma postura dessa, dentro de um ambiente de trabalho, não é digna de um profissional, especialmente de quem exerce um cargo de chefia.”.

-O Gonçalo falou isso?

- Sim. E tomou como exemplo a vez em que eu mandei um funcionário ir tomar... Descrevendo tudo nos mínimos detalhes. Eu me defendi dizendo que não falei aquilo na presença dele, mas o infeliz rebateu: “Suponhamos que eu tivesse dito isso e usasse essa sua justificativa? O problema não foi para quem você disse, mas sim o que disse.”.

- Eu só estou acreditando, porque é você quem está me contando.

- Nem você, Rodolfo, me diria isso, tão pouco o Jardel, aquele filho da...

-Se fosse o Jardel, eu até entenderia, mas o Gonçalo!

           - E você pensa que parou por aí? Esse filho de uma égua ainda falou desse meu temperamento genioso e acrescentou: “Uma vez que você perde a paciência, a equipe se fragiliza e ninguém produz. O gestor tem que passar confiança aos seus subordinados.”. Não perdi tempo e expliquei que a minha função exigia muita responsabilidade. Logo o miserável falou: “Assim como você, todos que ocupam um cargo de gestor também sofrem pressão.”.  

-Se eu te conheço, você não iria deixar barato.

-Não ia mesmo, mas mudei a minha estratégia: em vez de mandá-lo embora, ele é quem sairia “por vontade própria”.

-Como assim?

-Não se lembra de que, certa vez, eu chamei a atenção dele na sua frente ameaçando transferir para você as atividades dele, caso não trabalhasse direito?

-Lembro.

-Até deixei bem claro: “Se isso acontecer, Gonçalo, não haverá mais trabalho para você dentro dessa equipe.”. Nem que fosse um reles vacilo, faria questão de cumprir essa jura a qualquer custo. E tinha a absoluta certeza de que não tardaria muito para isso acontecer.

-Pudera, a pilha que você vinha botando nele: “Gonçalo, olha só o que você fez! Eu não sei mais o que faço com você!”.

-Nada me faria voltar atrás, nem mesmo o excelente desempenho que obteve na segunda auditoria. Eis que a tão aguardada oportunidade chegou, mas você pensa que o Gonçalo desistiu? Para a minha surpresa, o filho da mãe continuou desempenhando a função da qual eu o havia “dispensado”.

-Como assim?

-O Gonçalo não entregou os pontos.

-Mas você não havia prometido?

-Prometi, mas não cumpri.

-Por quê?

-Porque eu estava crente de que, em meio dessa pressão, o imbecil pularia do barco.

-É, mas ele não pulou.

-Sabendo que, dentro de uma semana, o Gonçalo sairia de férias, resolvi antecipá-las. Então, naquela sexta-feira, chaguei mais cedo e o Gonçalo veio em seguida. Esperei alguns minutos até chamá-lo para conversar na sala de reuniões. Sem mais delongas, disse que estava desligando-o, porque o considerava “incompatível com a função que desempenhava.”. A gerente do RH estava conosco e o informou dos direitos que ele tinha para receber. Em seguida, o Gonçalo me perguntou: “Posso ir embora?” e eu respondi que sim. Ele voltou à sala dele para pegar suas coisas e saiu sem dar satisfação a ninguém. Até nisso ele conseguiu me surpreender!

 

Published at : invalid
Category : Short story