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Pisando Em Ovos

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                                                                      “Falo assim sem saudade,
                                                                       Falo assim por saber
                                                                  Se muito vale o já feito,
                                                                 Mais vale o que será.”

 (Milton Nascimento & Fernando Brandt: O que foi Feito Devera)

 

 

Olhava-me com ojeriza e a sua repulsa emergia, conforme eu a encarava. Afastei-me da coordenadora, desconhecendo o real motivo daquele comportamento com a minha pessoa. Talvez eu soubesse: sete dias atrás, ela me surpreendeu chamando-a de velha. Voltei à sala, logo que o recreio terminou e a coordenadora apareceu soltando fogo pelas narinas. Mostrando um papel com os nomes dos alunos que estavam dando trabalho,  dizia que era preciso tomar sérias providências. Alguém atrás de mim tocou no meu ombro dizendo que o meu nome estava entre os primeiros.

Tornei a vivenciar, em sonho, a cena do recreio, muitos anos depois. Um amigo meu disse, quando lhe contei, que eu tinha me impressionado, então retruquei:

-Mas não entendo, depois de catorze anos... nem me lembrava mais desse episódio...

-Não mesmo?

-Sim. E tem mais, nunca desejei o mal pra ela...

- Desencana. Depois de você, vieram outros....

Uma nuvem negra pairou sobre a minha cabeça nos dois anos em que estudei nesse colégio. É certo que as punições que sofri decorreram de minhas reinações, mas havia necessidade para tanto terrorismo? O gabinete da vice-diretora igualava-se às salas de interrogatório a que assistimos nos filmes policiais; Não me espantaria se um parque de diversões requisitasse os serviços dessa “instituição educacional” para a sua casa de horrores.

Ano novo, colégio novo e vida nova! A minha classe era constituída por novatos e, em pouco tempo, as “panelinhas” já estavam formadas: os playboys, as patricinhas, a turma do fundão.Quanto a mim, pode-se dizer que eu fosse, mais ou menos, o protagonista de Memórias do Cárcere: não era nada.

Por um dado momento, os resquícios da minha antiga escola me acompanharam. Eu me tremia todo só de ouvir as palavras: suspensão, advertência, expulsão, carimbo na agenda, coordenação, diretoria. Não me sentia bem ver alguém sofrendo represália, mesmo que houvesse motivo, como da vez em que o auxiliar do coordenador apareceu, no meio da aula, trazendo consigo um aluno de outra turma. Pedindo licença ao professor, fez um gesto para que ele fosse ao pedestal e falou para a classe:

- Ele veio aqui fazer um showzinho pra vocês. Se não gostarem, podem vaiar. Comece.

Acabrunhado, levantou o polegar direito e, imediatamente, foi vaiado. Noutra ocasião, estava de saída, uma vez que a aula tinha terminado, e passando perto da coordenação, alguém falou:

- Duvido que escapem.

       Indaguei a razão daquele comentário e a resposta veio em forma de pergunta:

       - Você não viu?

 Percebendo a minha incompreensão, falou-me do caso do tênis: aproveitando o vacilo de um aluno que tirou os sapatos para dormir, durante a aula, pegaram um dos pares e ficaram jogando para um e para o outro até o auxiliar do coordenador aparecer e acabar com a festa. No total, foram sete alunos para a coordenação, inclusive um que levou uma sapatada na cabeça. O coordenador foi categórico:

- Suspensão, por cinco dias.

Todos divergiram e ele se convenceu em deixar passar, na condição de não vê-los mais em sua sala. Até hoje, eu não sei de quem foi a iniciativa de pegar o tênis do rapaz. Seja quem for, merecia uma condecoração por bravura, visto que a fama de bad boy do portador dos sapatos corria solta pela escola. Também não entendo como não presenciei essa cena. É provável que eu estivesse atento à aula, porque me sentava na frente e como a confusão se deu lá no fundão...

Era incrível como um seleto grupo de garotas dominava aquele território em meio à predominância masculina: Alcione era uma figura muito popular e a sua parceira raramente comparecia às aulas. Comumente mudava a tintura de cabelo e quem não a conhecesse direito julgava-a como antipática por causa da sua fisionomia circunspecta. A dupla ganhou hegemonia com a chegada de duas novatas: Janis Joplin e uma patricinha, ás avessas, que se tornou a cabeça do grupo.

Em matéria de “levar sabão” e exclusão sala, elas eram recordistas. Não era qualquer um que tinha peito para, toda hora, “visitar” o coordenador. Apesar da baixa estatura, ele sabia impor respeito: sempre que chegava à sala, ninguém ousava dar um pio, a não ser o ventilador no teto. A minha prioridade, naquele momento, era não me meter em encrenca e no que dependesse de mim, essa meta seria cumprida a rigor.

O primeiro semestre estava chegando ao fim e o auxiliar do coordenador apareceu para avisar que se algum aluno fosse suspenso durante as provas, não teria direito à segunda chamada. Terminado o seu trivial sermão, ele mudou alguns grupinhos de lugar. Sentando-se ao meu lado, uma moça cheia de fricotes resmungou: “Vou me sentar perto desse...”, não me contive em mandá-la... e quando fui me dar conta do que disse, o auxiliar ordenou que eu fosse pra coordenação.

Hoje, recordando esse fato, associo-o com as palavras do personagem principal do livro O Estrangeiro, após assassinar o árabe: “Compreendi que destruíra o equilíbrio do dia, o silêncio excepcional de uma praia onde havia sido feliz.”. Certamente, isso foi o que pensei quando me dirigi para a sala do coordenador. Graças a Deus, não fui suspenso e não sofri nenhuma represália, mas ele me deu grandes conselhos:

-Não é do dia para a noite que se muda. Todo mundo comete erros... acontecem.

Do modo como falava, parecia que ele tinha conhecimento da minha vida pregressa.

O colégio promoveu um concurso de teatro e a minha classe demonstrou interesse em participar, mas não dispunham de uma peça escrita. De acordo com o regulamento: a peça deveria ser inédita. Eu possuía uma vaga ideia de elaborar uma história, ambientada na década de 50, e os meus colegas aprovaram a sugestão. Sem nenhuma experiência literária, redigi a peça em um dia. Durante os ensaios, percebi que a partir dali comecei a me entrosar com a classe.

No meio da aula, a professora saiu e voltou acompanhada do auxiliar da coordenação, segurando uma camisinha com liquid paper ele disse:

- Há tempos que isso vem acontecendo... além de ser uma brincadeira de puro mau gosto, é uma falta de respeito com a professora.

Avisando que, cedo ou tarde, descobriria o responsável, saiu da sala e todos se entreolharam. Como a peça seria encenada à tarde, minha preocupação era que não fosse ninguém do teatro. Faltando dez minutos para o recreio, a bolsa da professora sumiu. O auxiliar voltou e disse:

- Assim já é demais! Ninguém sai enquanto a bolsa não aparecer.

 A bolsa não apareceu e fomos liberados, mas o auxiliar reforçou na promessa em desvendar aquele mistério.

Não se falava noutra coisa durante o recreio. Comentei com o meu amigo, que também fazia parte da peça sobre a minha preocupação de que alguém do teatro estivesse envolvido nessa confusão, quando o coordenador se aproximou de nós e perguntou:

- Resolvido o problema da professora?

- O da camisinha ou da bolsa?_Questionei eu.

-Camisinha?

       Antes que eu pensasse em dizer algo do tipo “nada não”, o meu amigo deu com a língua nos dentes. Agradecendo as informações, despediu-se de nós e avisou que, logo mais, “visitaria” a nossa turma. Assim que ele saiu, eu falei:

-Ele não estava sabendo de nada, e agora?!

 -Agora o circo vai pegar fogo!

 -Vai pegar fogo e muita gente vai se queimar. Só de pensar quando ele descobrir o responsável, eu tenho pena do infeliz... e você contou tudo!

 -Ele ia ficar sabendo de qualquer jeito.

–Eu não quero me sujar com a galera... Desde que eu vim estudar aqui, jurei pra mim mesmo que não me meteria em confusão

-Relaxa.

Cinco minutos após regressarmos à sala, ele apareceu informando que a professora esqueceu a bolsa na sala dele e falou:

- Mas isso foi por causa de um fato anterior que eu tomei conhecimento, durante o recreio, através de dois rapazes desta sala.

Receei que ele desse nome aos bois, mas alguém, lá de trás, tomou à dianteira e mencionou, em alto e bom som, o meu nome e o do meu amigo. Então, constatei:

- Estamos perdidos!

Também ficamos sabendo que a professora não poderia, de forma alguma, levar sustos, porque se encontrava nos primeiros meses de gestação. Ele ainda falou que o responsável por aquela brincadeira também estaria por trás da história dos moldes que colocaram no birô de outra professora e prosseguiu:

-Eu vou dar um prazo de dois dias para que o responsável se apresente e confesse. Do contrário, vou descobrir e darei transferência. E eu descubro mesmo! Já descobri, uma vez, quem roubou minha carteira... e se eu descobrir que estão dando cobertura... também receberá transferência.

E foi embora.

Não demorou muito para que o quarteto fantástico se apresentasse à coordenação e confessasse tudo até a travessura dos moldes. Como castigo, foram suspensas por dois dias. E, para o meu alívio, não foi ninguém do teatro. Apesar de todo o nosso empenho para montar a peça, não nos classificamos. Tudo isso pode ser definido numa única frase: “Jogara a viola no mundo, mas fui lá no fundo buscar.”. 

 

 

 

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Category : Short story