Um Roteiro de Cinema 

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                                           “Tava queimando na estrada
                                           Ao sol do meio-dia
                                       E, de repente, o rádio tocou
                                     Cena de cinema.”

(Lobão, Bernardo Vilhena & Marina Lima: Cena de Cinema)

 

 

Emprestei o cartão de crédito para alguém daqui de casa que, por sua vez, delegou a outra pessoa, também aqui de casa, a tarefa de sacar o dinheiro no banco. Depois veio me pedir de volta, então perguntei:

- Mas não está com você?

-De jeito nenhum, eu te devolvi!

-Nada disso!

Por via das duvidas, fui procurá-lo nas minhas coisas, mas não encontrei. A busca frenética pelos cômodos do apartamento encerrou-se quando concluí que na falta de um responsável, o cartão “tomou Doril”.

Solicitei a segunda via que ficou de chegar a minha residência dentro de quinze á vinte dias. Estranhei o fato dele não ter vindo no décimo quinto dia. Como estava dentro do prazo, aguardei por mais quatro dias. Com freqüência, eu perguntava ao porteiro:

-Não veio nada pra mim?

-Não senhor.

 Esse interrogatório só teve fim quando resolvi ir à agência a fim de saber o que havia acontecido.

Visto que no dia seguinte os bancos entrariam em greve, saí, pontualmente, de casa rumo ao shopping, onde fica a agência. Expliquei a situação ao caixa que me sugeriu procurar os correios. Seguindo conselho dele, soube que o cartão estava numa dependência próxima a minha casa, porque o carteiro não conseguiu encontrar o numero. Lá chegando, fui informado de que ele havia sido devolvido ao banco. Nesse momento, eu quis incorporar o personagem do Michael Douglas, no filme Um dia de Fúria, e não cessava em dizer: “Quem deveria passar por isso era o filho de uma égua que perdeu o cartão!”.

Regressei ao shopping, narrei tudo ao gerente que confirmou os meus dados e detectou um erro no número da casa. Provavelmente, isso foi a causa dessa via crucis. Mesmo assim, afirmou que o cartão não estava no banco e aconselhou-me a pedir informações nos correios. Fui até lá, propenso a ter um colapso, e contei tudo à atendente que indagou:

-Se incomoda de eu resolver isso depois? É que está na hora do almoço...

-De jeito nenhum. A propósito, você não é daqui?

-Não, sou de São Paulo.

 Logo vi: loirinha, pele alva e com um jeito diferente de falar! Quando ela saiu para almoçar, eu fiz o mesmo e bati perna pelo shopping.

É incrível como um detalhe pode mudar tudo. Instantes atrás, eu me encontrava praguejando aquela situação e depois passei a enxergá-la com resiliência: “Eu tinha que perder o cartão... tinha que passar por isso! Nada é por acaso!”. E não parava de pensar nela: “Eu deveria tê-la convidado pra almoçar, mas deixa estar...”. Mesmo disposto em investir, procurava colocar os pés no chão: “Devagar homem, você não sabe se ela tem algum compromisso. Vá com calma!”.

Quando ela voltou, eu estava sentado num banco em frente do correio. Fazendo um gesto para que eu a acompanhasse, disse-me:

-Pode me aguardar um instante, por favor?

Não tardou dez minutos e ela voltou com um papel na mão dizendo:

-Seu Maurício, o seu cartão foi devolvido ao banco na sexta-feira, às 15h30min...

-Muito obrigado! Vou resolver isso agora mesmo.

-Boa sorte!

Peguei o papel e saí em disparada pensando: “Agora eu quero ver... qual será a desculpa?”. Fui em direção à mesa do gerente, mostrei as informações no papel e repeti tudo o que ela tinha me dito. Ele se levantou e, pouco tempo depois, entregou-me o cartão.

Solucionado o problema, rumei para o correio com o pretexto de agradecer a ela a atenção que teve comigo. Contei dos perrengues que atravessei com esse cartão e ela comentou:

-Você teve muita sorte, porque os bancos saem de greve amanhã.

-Eu sei disso. E veja como são as coisas, quando saí daqui você me desejou sorte e Deus te ouviu.

O diálogo foi emendado até o momento em que ela falou que veio morar em Fortaleza por causa do seu marido que é cearense.

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Category : Short story