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- Toda Família Tem...

Toda Família Tem...

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                                                                     “Pode ir armando o coreto
                                                                  E preparando aquele feijão preto
                                                                          Eu tô voltando
                                                                    Põe meia dúzia de Brahma pra gelar
                                                                                Muda a roupa de cama
                                                                                             Eu tô voltando.”

                                      (Tô Voltando: Maurício Tapajós e Paulo César Pinheiro)

 

Pasmas ficaram, quando o viram chegar:

 – Já? – Perguntou a filha.

– Eu fiquei gripado e o clima de lá não era tão agradável.

– Pai, abre o jogo: sua irmã te botou pra correr.

– Que conversa é essa?

– É pai, ninguém te suporta.

– Nada disso...

Visto que ele não daria o braço a torcer, a sua filha e esposa aceitaram a sua versão, sabendo que, um dia, a verdade viria à tona.

Colocado o telefone no gancho, comunicou aos seus familiares, marido e filhos, que o seu irmão viria, em fevereiro, para passar um mês com eles. Seu esposo comentou:

– Até que enfim, vou conhecer o meu cunhado!

– É. – Dizia ela de uma maneira murcha.

Sem entender, os seus filhos questionaram:

– Mãe, a senhora parece não estar feliz?

A expressão de descontentamento era visível em seu semblante e, com o passar dos meses, tornou-se crescente, percebendo que o seu irmão estava decidido a vir, não lhe restou outra saída, se não recebê-lo em sua casa.  O quarto dele já estava preparado, quando ele disse que preferia dormir na sala. Mesmo achando estranho, ninguém o contrariou.

No terceiro dia, todo mundo estava pedindo a Deus para que fosse embora.  Ninguém mais, naquela casa, tinha liberdade, porque ele havia monopolizado a televisão, o computador e o telefone. Sentava-se no sofá como se estivesse em sua própria moradia, espalhava as roupas pelos cômodos, falava alto, intrometia-se nas conversas alheias e mastigava de boca aberta, deixando a sua irmã horrorizada:

– Até parece que não fomos educados da mesma maneira, porque você não tem um pingo de modos!

Pra completar, era chegado numa “branquinha”. Fosse qualquer hora do dia, lá estava ele no boteco, próximo de casa, tomando umas e outras. Há dez anos trabalhando para aquela família, a diarista desabafou com a sua patroa:

– Se o seu irmão continuar, mais uns dias, aqui em casa, eu peço as minhas contas.

Sorte a dele, naquela sexta-feira, não estar presente, pois quando a sua irmã viu o colchão onde ele dormia todo mijado, teve vontade de matá-lo. Perto do meio dia, ele chegou encachaçado e deitou-se no sofá. A sua irmã foi enérgica:

– Levanta daí e trate de ir tomar um banho, agora!

Dirigiu-se, cambaleante, para o banheiro, quando a sua irmã deu-lhe um ultimato:

– E faça o favor de, hoje mesmo, antecipar a sua viagem!

De banho tomado, arrumou a mala e foi embora sem se despedir de ninguém. Enquanto isso, a sua mulher e filha desfrutavam das férias que haviam tirado dele.

 

 

 

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Category : Short story