E bastou Machado...

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Bentinho já dissera em Dom Casmurro: “... que um lenço bastou a acender os ciúmes de Otelo e compor a mais sublime tragédia deste mundo.” O mouro de Veneza não havia. Havia Patrícia, esposa emotiva, leitora voraz e escritora em ascensão, e que teimara em arrumar as malas do marido recém-chegado do Sul. O lenço? Lá estava, assinado a batom, exalando perfume barato, e esquecido por entre as camisas. Os ciúmes não vieram. Irromperam, porém, a tristeza e os soluços. Quanto à tragédia...

Era domingo. Fernando, que já tomara o seu banho, e, por isso, refizera-se da viagem, passava dos sorrisos espontâneos a uma camuflada contrariedade. Afinal, nada como chegar ao próprio lar, podre de cansaço e querendo tranquilidade, e ser informado de que a “sogra do coração” fora convidada para o almoço.

Durante a refeição, Fernando achou que sua mulher comportava-se de modo estranho. A alegria que lhe era costumeira parecia, agora, forçada; tanto que lacônicos foram os seus comentários acerca do congresso de que participara. Mesmo assim, preferiu contemporizar, deixando os questionamentos para quando estivessem a sós. D. Rita, por sua vez, mãe que era, concluiu que algo de ruim acontecera à filha, tão logo lhe notara os olhos esfregados.

Terminado o almoço, e como quisesse ter um particular com Patrícia, D. Rita foi logo passando um cafezinho, a fim de entreter o “genro predileto”, pois lhe conhecia o hábito salutar de após as refeições.

Saíram as duas para o jardim. Patrícia mantinha-se calada; D. Rita continha a aflição.

O começo da conversa foi um natural alisamento, sendo a beleza das flores o assunto a que primeiro se entregaram. Até que Patrícia desatou a chorar. A desvelada mãe não precisou de muito tato para perceber que o problema era conjugal. Surpreendeu-se, porém, com o acontecido, uma vez que Fernando sempre demonstrou um amor desmesurado para com a esposa, e um senso de família irrepreensível. Aliás, mesmo estando casados há apenas três anos, era ele quem mais sonhava com um filho. Mesmo assim, dia a dia tinha que engolir a seco o tempo que Patrícia impusera à maternidade, visando à sua ascensão profissional.

Seria esse, então, o problema? A carreira de Patrícia estaria atrapalhando o casamento? Mas daí a ter Fernando uma compensação extraconjugal só pelo fato de querer ter um filho, seria um impensável contrassenso, indo de encontro a tudo o que já demonstrara até então.

A experiente senhora mais ouvia que falava. E não deixaremos, aqui, de apontar a sua honradez, pois, mesmo sendo notório que sogra e genro não se bicavam, D. Rita não se aproveitava desse infortúnio para tentar destruir o casamento da filha. Ao contrário, tudo fazia para que uma justificativa plausível fosse encontrada. Mas, convenhamos, a prova da traição era cabal. Não havia, portanto, o que justificar.

Patrícia, que se esforçava para não tornar ao pranto, pediu para ficar só. Sua mãe concordou, se bem que de coração contrito. E lá ficaria a filha, martirizando-se até a hora do jantar, não fosse uma cena que acontecia à sua esquerda, sobre uma linda rosa desabrochada: um casal de louva-a-deus iniciava o acasalamento. De início, Patrícia quis chorar, pois aquela visão reavivava todos os momentos sublimes a que se entregaram os amantes nesses poucos anos de casados. Mas, como se sabe, faz parte do instinto dessa espécie de insetos que a fêmea – que é bem maior e muito mais forte que o macho –, tão logo se inicie a cópula, agarra a cabeça do parceiro e passa a devorá-la. O subjugado não tem nem tempo nem vontade de reagir. E quando termina a acasalação, o que resta é apenas um cadáver acéfalo.

Por mais repugnante que fosse, todo esse devorar foi presenciado por Patrícia. Súbito, sua feição transformava-se... A amargura desfazia-se, e dava lugar a um semblante que beirava ao sinistro. Sem dúvida, a natureza, e não sua mãe, fora quem de fato lhe dera o mais ousado dos conselhos, o único que aplacaria a sua honra maculada e traria paz ao seu espírito atormentado.

No entanto, um arrepio perpassou-lhe a espinha. Afinal, uma coisa é imaginar a desforra, embebida pela fugacidade que o ódio impõe. Outra, e bem diferente, é decidir-se pelo ato extremo, planejá-lo com os detalhes necessários, e executá-lo com a determinação dos profissionais. E como não fosse experiente nesses assuntos, é óbvio que o medo veio interrogá-la. Teria ela, realmente, coragem de se vingar, ou será que o divórcio não lhe bastaria? Mas, e sua dignidade, como a recomporia? Ao que parecia, a fidelidade que juraram no altar, só a da noiva proviera do coração.

Mas a lembrança do maldito lenço que encontrara, a visão nauseante do marido deitado com uma zinha, a suprema humilhação a que estaria sujeita caso alguém viesse a saber da traição, tudo, enfim, só fazia crescer a sede de vingança. E Patrícia passou a sorrir...

E como não quisesse perder a coragem de que se imbuía, voltava para dentro de casa resolvida a acabar com Fernando neste mesmo dia. Para isso, ouvira do próprio Bentinho a sugestão do café envenenado.

Patrícia entrou na cozinha a passo e passo. Fixou a cafeteira, a xícara em que o marido bebera o cafezinho, mas não se lembrou se um dia comprara arsênico. Neste exato momento, percebeu que Fernando e sua mãe cochichavam na sala de estar. Aproximou-se da porta, afinou a escuta, e quase desmaiou ao ouvir do esposo que o lenço que esquecera na mala fora um presente de sua prima Débora. – aos olhos de Patrícia, Débora sempre tivera uma quedinha pelo primo.

Conhecido o nome da cúmplice, restava saber há quanto tempo era enganada. Teve ganas de entrar na sala e partir para o desagravo, mas era impedida por uma mão que se lhe pousava no ombro. Voltou-se assustada, e se deparou com ninguém menos que Oscar Wilde, que sorria com um quê de sarcasmo. O escritor estendeu a mão e ofereceu um bilhete. Patrícia, como que desnorteada, pegou o papel e leu a seguinte mensagem: “Para que se descabelar se 'A vida imita a arte muito mais do que a arte imita a vida.'?”

Patrícia amassou furiosa a carta e a jogou no rosto do autor, que desapareceu. Ao que tudo indicava, ela enlouquecia! E contorcia-se, e mais e mais suava frio.

De inopino, a pobre moça correu para o jardim; queria fugir, abandonar a família, e tudo o mais que a lembrasse que um dia existira.

Quando, depois de ter pulado o muro de sua casa – e ela não compreendia como o conseguira, pois tinha quase dois metros de altura! –, Patrícia já alcançava o terceiro quarteirão, deteve-se diante de um velho conhecido. Era Werther, um dos diletos filhos de Goethe.

O olhar com que fitava Patrícia era pura tristeza. Seu aspecto? Digno de compaixão. E não obstante o seu silêncio, Patrícia não deixou de apreender-lhe o derradeiro ato que a si mesmo impusera. E gritou:

- Não! Jamais!

O crânio estourado do jovem suicida foi fundamental para que Patrícia afastasse de si a ideia tresloucada.

E ela continuou a correr, a correr sem um norte, sem a esperança de ver-se acudida.

Quis o destino, diriam uns, preferiu a sorte, opinariam outros, que Patrícia caísse exaurida sobre alguns latas vazias empilhadas à porta de uma casa muito simples. A casa era alugada. O locador era Júlio Diniz; o locatário, o Padre Antônio, chamado Sr. Reitor. E como este acabara de fechar a porta depois que entraram as suas duas pupilas, o barulho de um corpo caindo sobre latas foi suficiente para que o bondoso Padre se assustasse e fosse averiguar o que tinha acontecido.

Patrícia não se preocupou em perguntar por quanto tempo ficou desacordada. A desgraça por que passava, essa, sim, a absorvia por completo. Mas como recebesse do Sr. Reitor, de Clara e de Margarida um aconchego nunca antes sentido, a infortunada mulher não se fez de rogada e se pôs ao desabafo, entremeando-o, porém, com um choro angustiante.

Nesse meio tempo, genro e sogra já haviam notado a ausência de Patrícia. Daí a concluírem que fugira, pouco tempo transcorreu. E como D. Rita se desesperasse, pois supunha e temia pelo pior, a consciência de Fernando, que até o momento não o acusava, acordava de repente, constrangendo-o a um inexplicável arrependimento e obrigando-o a que fosse procurá-la.

Mas como não soubesse por onde começar, achou por bem pegar o carro e dar algumas voltas pelo quarteirão, na esperança de avistar a esposa que, sabia, nunca fora amiga das longas caminhadas. D. Rita, por seu turno, voltou para a sala e se pôs a rezar.

Patrícia acalmava-se. Sua razão aos poucos se sobrepunha ao descontrole. Aliás, um prato cheio para que o propósito inicial da vingança fosse retomado. Mas isso não ocorreu. Os conselhos que lhe passava o Sr. Reitor eram repletos de sabedoria, e isso muito a ajudava a que repensasse as atitudes. Ora, matar o marido não lhe traria nada de bom. Muito pelo contrário! pois amargaria uns vinte anos na cadeia. Portanto, concluía, o melhor que deveria fazer seria retornar à própria casa, arrumar uma boa desculpa que justificasse a ausência momentânea, agir como se nada houvera, e esperar o melhor momento para entrar com uma ação de divórcio, o que aconteceria assim que reunisse outras provas do adultério, pois, pensava, a uma hora dessas, o malfadado lenço já teria ido latrina adentro.

No entanto, também não foi isso o que aconteceu. Patrícia resolveu retornar pelos fundos, como se jamais tivera saído do quintal. Só que ao pular o muro novamente – e já não mais se impressionou com tamanha altura –, um outro conhecido apareceu. Era seu velho pai, morto há quase dez anos. Patrícia estremeceu! Mas antes que pudesse ensaiar uma ou outra sílaba, seu Armando adiantava-se e, com bastante cinismo, lhe passava este conselho:

- Filha, faz como te ensinei, perdoa não sete, mas setenta vezes sete.

- Você não me ensinou nada! Foi Jesus quem disse isso! Aliás, que moral você tem pra me dar conselhos? Por acaso já se arrependeu de ter traído minha mamãe?

O espectro desapareceu. Patrícia, então, suspirou profundamente; reuniu as últimas forças com que ainda contava; e se foi para dentro de casa.

D. Rita correu a abraçar a filha. Fernando ainda demorou a chegar.

Quando o marido voltou, já passava das dezenove horas. E como sentisse a filha mais calma, D. Rita preferiu ir embora e deixar que ambos conversassem. Não saía, porém, sem a promessa de Fernando de que tudo aconteceria na maior civilidade.

Com efeito, o diálogo iniciou-se com a cortesia possível. Passados alguns minutos, contudo, Patrícia começou a surtar. E esbravejava, e batia-se, e arrancava os cabelos... Até que, não aguentando mais a prória infelicidade, atirou-se em direção ao pescoço do marido com a cólera dos alucinados!

Fernando acordou assustadíssimo, pois sentiu as mãos da esposa a tentar estrangulá-lo. Patrícia, logo em seguida, empurrada que foi pela reação do marido.

Passados os segundos necessários a que ambos se recompusessem, e o casal achou melhor conversar francamente. Ao final, Patrícia confessou ser por vezes influenciável, e, por causa disso, conluiu que o melhor era não ler mais antes de dormir. Fernando sentiu-se aliviado, pois se lembrara de que o próximo livro que a esposa leria seria O cão dos Baskervilles! Ele só não percebera que a promessa fora feita com o indicador e o médio cruzados.

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Category : Short story