Guarda a paciência.

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D. Francisca era a viúva mais rica da província de São Paulo. Carrancuda, desconfiada, mal-amada... via na única filha o refúgio de todo o seu recalque. Por isso mesmo, o ciúme que sentia de Marianinha era doentio. E, portanto, inadmissível que um dia o seu maior tesouro a deixasse para unir-se em matrimônio.

Ora, as amizades femininas representavam um grande perigo à eterna união entre mãe e filha, uma vez que garotas costumam falar de rapazes. Daí viver a adolescente aprisionada em seu casarão, onde apenas um preceptor idoso tinha permissão de lhe falar, e desde que o assunto não se desviasse do seu mister.

Por óbvio que se restrição havia às mulheres, impensável seria que algum filho de fazendeiro sequer assomasse à porteira da fazenda, mesmo que só para pedir um naco de pão. Aliás, a fama que corria ao feitor e aos capatazes de D. Francisca – de assassinos brutais e sádicos –, tratava de deixar a léguas de distância qualquer um que se metesse a aventureiro.

E como valeria a pena!... Marianinha era a formosura em pessoa. Cabelos volumosos, loiros e cacheados; pele alvíssima e sedosa; estatura mediana, bem talhada; boca rósea, pequenina... Mesmo assim, apenas o toucador podia desfrutar-lhe a beleza.

Alguém poderia questionar se Marianinha não se insurgia contra tamanha opressão. Bem, ela até pensava. Mas houvesse qualquer demonstração de insubmissão e a mão de ferro de D. Francisca não só tombaria impiedosa, impondo ainda mais a clausura, como também acarretaria um sofrimento maior, pois a recalcada percebera que as torturas infligidas aos escravos confrangiam o puro e compassivo coração da filha. Não havia, dessa forma, como se rebelar, e o máximo que cabia à pobre moça era chorar em silêncio.

E assim seguiram os anos, em que o apego exacerbado ombreava com a repressão e a solidão, imprimindo à herdeira um ar melancólico, digno de compaixão.

Contava, agora, Marianinha, vinte e um anos de idade, todos eles passados, mas não vividos. E toda essa apatia pouco ou nada lhe doía, quando pensava nos anos que ainda teria que viver ao lado de sua mãe.

É certo que, de vez em quando, talvez porque instigada por um ou outro romance que conseguira surrupiar da biblioteca da toda-poderosa, dois pensamentos lúgubres vinham tentar Marianinha. E não errariam os que deduzissem serem eles o matricídio e o suicídio. Mas D. Francisca, conjecturando, já se prevenira, e tratara de preservá-la desses desatinos. Daí que não só um padre vinha, religiosamente, dizer missa na capela da fazenda, como também o livro que impusera à filha como o de cabeceira era A divina comédia. Ora, as ameças sacerdotais quanto aos perigos do pecado, somadas às infernais consequências descritas por Dante eram suficientes para que tais ideias fossem afastadas.

Tão irrespirável ficou a vida de Marianinha, que seu corpo, porque bastante desvitalizado, outra alternativa não teve senão a de sucumbir à doença. E tão ruinosa foi a sua queda que mezinhas nenhumas foram capazes de reabilitá-la.

De início, D. Francisca até que gostou; afinal, pensava, quanto mais apagada ficasse, menos atraente seria, e a propriedade sobre a filha estaria garantida. Mas como percebesse que Marianinha na verdade morria – ela depauperava a olhos vistos –, a marechala entrou em desespero, e seus gritos alucinados passaram a duelar com a voz rouca do cemitério.

O feitor, que não perdia oportunidade para se manter nas boas graças da patroa, aconselhou D. Francisca que chamasse às pressas o médico da família. Caso contrário, além de viúva, ficaria órfã de companhia. Com essa sugestão, a egoísta recobrou a lucidez, e o velho Dr. Ambrósio acudiu o mais rápido que pôde.

Dr. Ambrósio examinou Marianinha conscienciosamente, como manda a boa técnica. O diagnóstico não podia ser pior: A continuar neste declive, a pobrezinha expiraria em no máximo um mês.

- Mas tem que haver um jeito, Doutor! Faze o impossível, e não deixes minha filha morrer! Eu pago o que for preciso!

Dr. Ambrósio não era, assim, um exemplo de moralidade. Finório, ambicioso, viu no sofrimento por que passavam suas clientes um pé-de-meia encantador e mais que estimulante. E como sempre soubera do sufocamente imposto à desgraçada, não precisou de muito estudo para deduzir que, mais cedo ou mais tarde, esse martírio imporia ao corpo de Marianinha um grave padecimento. Só não atentara para o tamanho do estrago! Cabia-lhe, portanto, e de começo, ministrar-lhe um remédio que a recuperasse rápido, para, depois, desenvolver com sinhá-moça um longo e dispendioso tratamento, o que lhe abarrotaria os bolsos e o dispensaria de uma vez por todas do ofício de clinicar.

Caldos calóricos, emulsões tonificantes, unguentos miraculosos, fortificantes recém-chegados da Europa, tudo passou a ser aplicado com uma disciplina teutônica e no afã de, pelo menos, soerguer a coitadinha.

- E não farás mais sangrias, Doutor? – questionou a tresloucada mãe.

- Basta uma, Sra. D. Francisca. Confia neste humilde servo. – “Mas sangrar a rapariga naquele estado é querer matá-la... Que ela tinha perdido pouco sangue, é verdade... Mas nunca se sangra ninguém em semelhante momento. Nunca, nunca!” Este desabafo, proferido por Dionísia, no epílogo de O crime do padre Amaro, de Eça de Queirós, foi suficiente para impressionar e convencer Dr. Ambrósio a nunca ir além de uma única sangria.

Depois de quase um mês desse rigoroso tratamento, Marianinha não só recuperou as forças, como ganhou peso e ficou corada. Daí ao recobrar do viço, foi coisa de uma semana e meia. Isso não só deixou D. Francisca radiante, indo desaguar toda essa alegria nas algibeiras receptivas do velho médico, como também fez crescer no espírito da ex-enferma uma gratidão desmesurada por quem a tinha curado, levando-a a confiar-lhe mais de uma frustração.

- Sra. D. Francisca, se me permites?...

- Podes falar, Doutor, sou toda ouvidos.

- Fiz o que me pediste. Reavivei sinhá-moça.

- Sim, eu bem sei. E estou contentíssima com tua dedicação.

- No entanto, como médico, sou obrigado a afirmar que apenas o problema imediato foi resolvido. O mediato não.

- Como assim? O que queres dizer?

- Sinhá-moça sofre de uma enfermidade que remédio nenhum poderá tratar. Ou seja, se não tomarmos as providências certas, ela tornará a adoecer, e, talvez, nada mais possa eu fazer para salvar-lhe a vida.

- Explica melhor.

Graças às muitas conversas que pôde travar com a convalescente, e graças aos seus estudos sobre a psique humana, Dr. Ambrósio concluíra que a causa da moléstia que acometera Marianinha ia além do simples isolamento. Sim, precisava arejar a vida, e o convívio com os de sua idade era imperioso. No entanto, o problema crucial, a razão mesma da sua dor não estava na falta de amigos, mas, sim, na tortura que experimentava o seu coração, na carência de um grande amor. A confirmação, via-a na idade que alcançara – a nupcial –, nas viagens que empreendera pelos romances lidos à socapa, e nos ais confessados que acompanhavam suas lágrimas. Era imprescindível, portanto, que ela se enamorasse, ou, pelo menos, que nutrisse esperanças de poder vir a casar, opção essa que Dr. Ambrósio achou ser mais digerível à matriarca.

- Jamais! – bradou a viúva.

- Sra. D. Francisca, não estou sugerindo que admitas um namoro. Mas que, pelo menos, deixes sinhá-moça pensar que algum mancebo possa lhe fazer a corte. Dessa forma, ganharemos tempo, e o tempo se encarregará de lhe impor resignação. Mas, juro, ou será isso, ou ela tornará a adoecer, e com certeza morrerá.

E como percebesse a afliação da ricaça, percepção essa já por ele prevista em seu consultório, à noite anterior, Dr. Ambrósio arrematava, e com ares de vanglória:

- Sei, exatamente, a maneira por que a baronesa poderá iludir sinhá-moça, perservando-lhe a saúde, e mantendo-a ao pé de si.

- Dize-me, pois! E se esta ideia funcionar, serás o homem mais rico dessas bandas.

O gatuno, então, convidou a ouvinte a que se sentasse e passou a detalhar um plano no mínimo curioso: D. Francisca deveria espalhar em toda a Província que sua filha poderia ser cortejada. No entanto, só ganharia a mão da sinhazinha aquele que, em dia previamente marcado e na presença da viúva, de Marianinha, do preceptor, do pároco e do próprio Dr. Ambrósio, conseguisse cumprir quatro condições. A primeira, verdadeira prova de amor, que o casamento só acontecesse com separação total de bens; a segunda, reflexo de um coração puro, que o aspirante a esposo afirmasse, e em voz sonora, que o bocejo de um nenê é a coisa mais gostosa, a cena mais fofinha que se pode apreciar na vida; a terceira (bipartida), mostra de cultura e eloquência, que comprovasse diploma e demonstrasse familiariedade com Eneida, de Virgílio; e a última, atestado de gourmet, que o candidato comesse, e até a última migalha, uma desconhecida iguaria chinesa – o ovo de mil anos.

É claro que D. Francisca ficou deslumbrada. Quem em todo o império reuniria essas quatro condições? Seria impossível! Assim procedendo, concluía satisfeita, veria sua filha sã e salva, mas sem precisar perdê-la para quem quer que fosse.

Num primeiro momento, Marianinha ficou radiante. Corou, é verdade, mas logo se defez do acanhamento, pois viu o seu maior sonho começar a se realizar. Quando, porém, sua mãe lhe contou as quatro condições, um certo desgosto veio acinzentar o seu semblante. No entanto, a só possibilidade – jurada por D. Francisca – de poder vir a casar para logo dissipou aquelas nuvens, e ela voltou a sorrir com um brilho inigualável.

Não foi preciso muito tempo para que a notícia se espalhasse. E para que Marianinha não duvidasse um só minuto das “boas inteções” de sua mãe, D. Francisca até a convidou para irem juntas à matriz, na missa do domingo.

Passados os dias impostos, e às dez horas da manhã já se encontravam no grande salão da casa-sede três dos mais ilustres e abastados filhos de fazendeiros dos arrabaldes, todos ávidos por se deixarem provar, sobretudo porque já se haviam embevecido com a visão dos predicados da futura herdeira, quando daquela concorridíssima missa.

É claro que outros tantos rapazolas desistiram de tentar competir assim que souberam da primeira condição. Aquele trio, contudo, porque certos de que poderiam reverter em juízo esse disparate, tão logo falecesse a instituidora, não se intimidaram, e resolveram lutar pela mais bela das sinhazinhas, e, é claro, pela maior fortuna da província de São Paulo.

Além desses genros em potencial, um quarto pretendente ali compareceu. Entrou despercebido de todos, manteve-se quieto e tratou de se postar um pouco distante do grupo. Nada tinha em comum com os outros candidatos. E se fôssemos compará-los, o atrasado, de tão humilde, estaria mais para um joão-ninguém. No entanto, uma aura de paz o envolvia, se bem que ninguém a conseguisse sentir.

D Francisca relembrou aos pretensos maridos o que lhes cabia, e perguntou qual seria o primeiro a ser testado.

Sinhozinho Augusto foi quem levantou a mão mais rápido, e, ousamos confessar, não foi o pretendente por quem mais torcia Marianinha.

Com a mão segura, o jovem ofereceu à desvairada certidão registrada em cartório comprovante de que se casaria sob o regime de bens exigido. Cumpria, assim, a primeira condição.

Ocorre, porém, que quando ia afirmar, diante de todos, que o bocejo de um nenê é a coisa mais fofinha de que um varão se pode orgulhar, sua inabalável macheza provinciana estancou-lhe a fala. Era fato, ele jamais admitiria a simples possibilidade de se passar por maricas aos olhos de todos. E como se recusasse a essa afirmação, D. Francisca não titubeou: eliminou-o do certame.

O próximo candidato passou tranquilo pelo primeiro requisito. De igual forma, cumpriu sem receios a segunda condição; afinal, o que são meras palavras?...

Quanto à primeira parte da terceira, não se intimidou e apresentou diploma de Bacharel pelo Largo de São Francisco, fato que fez levantar a sobrancelha direita de D. Francisa.

Mas quando teve que declamar e traduzir o sexto Canto do épico latino, nem o vigário se aguentou, pois que caiu na gargalhada. Só se ouviam gaguejares e latinórios! Tradução? Nem que lhe assoprassem ao ouvido!

O terceiro, sinhozinho Alencar – ousamos dizê-lo o favorito de Marianinha –, passou pelas três condições com louvor, o que deixou D. Francisa e a camarilha profundamente enervados. Na realidade, e esta coincidência punha-o à frente dos demais oponentes, não só tinha Eneida como hobby, como também sonhava tornar-se um rapsodista, um declamador profissional dos épicos homéricos.

No entanto, quando lhe apresentaram o acepipe... O aspecto, de ovo enegrecido, pútrido, já lhe causou uma considerável aversão. Mas, pensou consigo, como tudo o que comem em tese é comível, que mal poderia haver em duas ou três mastigadas, e numa rápida engolida? Pegou, então, do petisco, e o colocou na boca. Mas assim que começou a sentir o gosto, a única reação que teve foi a de vomitar as tripas e mais um pouco! bem ali, no soalho da baronesa e junto à barra de sua saia.

Só não foi escorraçado da fazenda, pois D. Francisca conhecia-lhe os pais e por eles tinha apreço.

Diante dessa cena no mínimo burlesca, o melhor que se poderia fazer seria suspender o concurso matrimonial. E foi o que aconteceu, para tristeza de Marianinha e júbilo (encoberto) de D. Francisa e de seus asseclas.

O quarto candidato, que tudo presenciara sem a menor afetação, nem ousou protestar. Sabia que sua vez chegaria; era guardar a paciência.

E saiu como entrou - calado, calmo, esperançoso.

Assim que todos se foram, D. Francisca, que percebia na filha um olhar choroso, pedinte, passou a tentar consolá-la, dizendo serem os rapazes da região medíocres, fracos, verdadeiros poltrões. Afinal, escolhera provas simples, realizáveis, mas ninguém realmente se esforçou por merecer-lhe a mão. O melhor que deveria fazer, portanto, seria resignar-se, sendo preferível passar os dias solteira a casada com um borra-botas.

Marianinha ouvia-a calada. Seus olhos, já úmidos, esforçavam-se por não se deixarem extravasar. Sua boca, já trêmula, por pouco tempo conseguiria refrear-se.

Mas antes que se entregasse aos soluços, ainda conseguiu reunir as últimas forças de que dispunha e ousou pedir que, pelo menos, alguma filha de fazendeiro pudesse ser sua amiga. Se D. Francisca concordasse, aguardaria o tempo passar, sua mãe se acostumar, e o momento mais propício para suplicar-lhe um novo concurso. Ela, porém, foi irredutível. E como quisesse cortar o mal pela raiz, tratou de estirpar toda e qualquer esperança ao coração da infeliz.

Como não visse alternativa à sua desdita, como tivesse, agora, a certeza inexorável de que continuaria só, sem amigos nem amor, o prognóstico do Dr. Ambrósio não pediu licença e instalou-se implacável no organismo de Marianinha. E tão fulminante foi esta nova derrocada, que nada adiantou sua mãe prometer-lhe um outro certame. Marianinha desistia de viver.

Mesmo assim, D. Francisca não mediu esforços para recuperar a saúde de sua filha, tendo até obrigado Dr. Ambrósio e o sacerdote a que se mudassem para o casarão, no intuito de ficarem vinte quatro horas à disposição da agonizante.

Com efeito, medicina e orações uniram-se o máximo possível, e tudo fizeram para que o fio da vida que prendia Marianinha ao corpo não se rompesse. Esse martírio durou exatos sete dias, ao término dos quais pôde a desventurada recobrar os sentidos, abrindo os olhos.

A primeira reação que teve foi a de espanto. Ora, acostumada a ver, assim que acordava, os olhos encovados de sua mãe, deparava-se, agora, com duas contas azuis, pertencentes a um rapagão sereno e sorridente. Era aquele mesmo quarto candidato do concurso anterior, o que chegara atrasado, e que só esperava a deixa para falar:

- Ganhei o segundo certame, sabias? – O verdadeiro amor de Marianinha velara-lhe o último sono, numa das alas mais lindas do paraíso.

 

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Category : Short story