Adorei a sugestão!

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Amanhã minha mãe fará oitenta e dois anos! Mas qual o presente que se dá a uma senhora que alcançou tal idade, e que, em tese, já ganhou de tudo um pouco?

Seja como for, há exatos nove anos repetia para mim essa mesma pergunta, dias antes dela enviuvar. Por óbvio que a comemoração do aniversário foi esquecida. Entretanto, uma outra questão se alevantava, e muito mais importante:

- Cuidar da mãe é uma bênção! – respondeu ao meu olhar minha esposa. E sorri, e a beijei com ternura.

Nossa ideia, contudo, foi logo recusada, pois, como dizem as mães, ela não queria dar trabalho. Insistimos com a espontaneidade de nossos corações. Mesmo assim ela relutava; afinal, tínhamos a nossa privacidade... Ora, como não nos déssemos por vencidos, tivemos que apelar. E que avó resistiria a um pedido carinhoso dos dois únicos netos? E D. Araci deu-se por vencida.

Realocamos os meninos, que ficaram no quarto do mais velho, e acomodamos minha mãe com a maioria dos seus móveis, tudo para que ela se sentisse o mais à vontade possível.

Faltaria com a verdade se dissesse que no período de adaptação não houve pequenos incidentes. Afinal, por mais que nos conhecêssemos, e convivêssemos com regularidade, ela não deixava de trazer hábitos e gostos particulares. No entanto, a só fortuna de poder tê-la ao nosso lado, quando tantos esquecem os seus às paredes frias dos asilos, a tudo se sobrepunha, enchendo-nos de alegria, reconforto e de sinceros agradecimentos a Deus.

E como a vida se reaprumasse, as bênçãos assomavam. A propósito, lembro-me de uma vez em que os garotos resolveram se estranhar por causa de um brinquedo. Eu me trancara no escritório buscando o máximo de concentração – tinha que terminar uma crônica; o prazo era fatal – e minha esposa convalescia na cama de uma gripe que a derrubara. Pois não é que D. Araci, com aquela paciência que só os corações avoengos souberam conquistar, tratou de amansá-los com um cativante conto de fadas?

De outra feita, calhou que eu e minha mulher chegássemos amuados do trabalho. Ela, porque perdera um paciente terminal; eu, porque soubera que um grande amigo fora demitido. Ora, como percebesse, à custa da lucidez com que os anos a brindaram, que ambos estávamos mal, minha mãe tratou de driblar as saudades dos netos o quanto pôde, a fim de que pudéssemos conversar a sós, se o quiséssemos. Em seguida, deu o jantar às crianças e habilmente os convenceu a que fossem dormir, mas não sem antes ganharem de nós um sempre beijo de boa noite. Depois que adormeceram, D. Araci não se foi deitar nem se fez de rogada, mas ficou sentada no sofá, tricotando, à espera do primeiro que lhe fosse desabafar, como se soubesse, de antemão, que a conversa que tivéramos carecia ainda de mais um ouvinte. Pois não é que Júlia foi a primeira da fila?

Não por isso que um dia desses, quando me barbeava, fixei-me no espelho e revi, de relance, muitas das bênçãos com que fora agraciado. Foram o zelo, a boa educação e o apoio que me deram meus pais, e que, malgrado as suas limitações, nunca me faltaram; as promessas feitas no altar, e que, apesar dos desafios que o casamento impõe, vinham todas se cumprindo; o nascimento dos nossos filhos, que até hoje muito mais alegrias nos deram do que dissabores; as realizações profissionais, tanto minhas quanto as da minha cara-metade... E tirei duas conclusões: a primeira, que teria sido impossível construir uma maturidade equilibrada sem a indispensável presença dos pais na infância e na adolescência; a segunda, que sendo a vida uma alternância entre tempestades e bonanças, jamais teria conseguido vencer os maus momentos sem a ajuda de uma âncora, de uma bússola, da companheira de jornada com quem escolhi dividir minha existência. E não é que depois que me sequei ainda fui contemplado com um doce beijo de bom dia?

Ah, já ia me esquecendo, o que é mesmo que minha mãe gostaria de ganhar?... Bem, como sei que essa dúvida não me é exclusiva, fico receptivo às sugestões, que sei virão por meio de benévolos pensamentos. E como estes voam mais rápido que a luz, já estou captando uma excelente imagem... Pois assim o farei!

Tratei de correr a um desses empórios requintados e comprei várias iguarias. Umas, que sabia as preferidas de minha mãe, coloquei em uma linda cesta de vime e pedi que caprichassem no embrulho; outras, que tinha a certeza de que a todos agradariam, renderam duas sacolas recicláveis e um duplo sorriso de satisfação. Na verdade, seriam não um, mas, sim, dois presentes.

Voltei para casa, torcendo para que o dia seguinte fosse como idealizara – ensolarado, céu azul e sem nuvens. E parece que ouviram nossas súplicas, pois o domingo amanhecera simplesmente divino!

E sem que minha mãe suspeitasse, improvisamos uma mesa sob o caramanchão de primaveras lilases; estendemos a toalha mais alva que encontramos; arrumamos com esmero toda a faiança, sem olvidar do samovar que herdara de minha avó; dispusemos as guloseimas de maneira o mais atraente possível; e depositamos sobre o assento de honra o outro presente, a cesta de manjares. A alegria que partiu do semblante de D. Araci, assim que nos viu a surpresa, não posso reproduzir nessas poucas linhas. Só sei que nos entregamos à boa mesa, às boas conversações, às boas lembranças, e ao planejar do futuro, pois, afinal, ela apenas iniciara a terceira idade.

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Category : Short story