A mais antiga das virtudes.

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No seio de uma mesma família, é comum ocorrerm brigas entre os irmãos,  sobretudo se forem pequenos. Afinal, o presente do outro é sempre mais atraente.

            Passado algum tempo, porém, eles já estão brincando, e como se jamais tivessem se desentendido. A inocência infantil é a artífice dessa divina composição, a doce resultante da falta do personalismo.

            Mas quando os irmãos são adultos, e, portanto, passíveis de se entregarem ao orgulho, uma eventual disputa entre ambos pode se estender por muitos anos; e até por toda uma vida!

            E se isso ocorrer, quanta desarmonia terá sido espalhada ao derredor?

            Pois nada, absolutamente nada seria comparável ao estrago que se multiplicou quando Caos e Eros se desentenderam. A Terra poderia ter deixado de existir!

            Foi um pouco depois do início dos tempos. Nessa época imemorial, esses deuses começaram a se estranhar porque cada um achou que o seu modo de atuar é que era o correto.

            Caos, o mais velho, passou a afirmar que ao gerar o Universo por meio da separação dos elementos, só o sublime resultava. O que equivaleria dizer que alternativa não caberia ao “resto” senão a de ser suprimido.

            Eros, por sua vez, não deixava barato, e sentenciava que o soberbo só poderia ser obra da sua maneira de criar, ou seja, por meio da fusão das substâncias; o que fazia das cisões do irmão meras sobras de reações físico-químicas.

            Em um desses embates, Caos resolveu, como prova à sua tese, enaltecer a beleza que inspirava sua filha Nix, a noite. E concluiu sarcástico:

            - Foi da minha autodivisão que Nix nasceu, sabia?...

            Eros ficou mordido. Mas, retomando a calma, devolveu sobranceiro:

            - Deusa por deusa, prefiro a que simboliza o período que antecede ao nascer do sol, e que um dia será imortalizada por Homero, tanto na Ilíada quanto na Odisseia: a “Aurora de róseos dedos”!...

            Como a contenda continuava, uma espécie de linha divisória – e que transcenderia a tudo o que se poderia imaginar – era traçada no Universo, e sem que os irmãos disso se dessem conta. O tempo e o espaço como que se bipolarizavam!

 

 

 

 

 

            Em uma das bandas, a força geradora do primeiro dos deuses começava a firmar-se como absoluta.

            Na outra, o poder de Eros era o que imperava, fazendo acontecer sem nenhum empecilho.

            Tudo isso pouco ou nada importaria, não fosse o fato de ter chegado o momento de a Terra aparecer...

            E para piorar a história, o único lugar no Universo que estaria apto a receber esse novo planeta ficava exatamente “em cima” daquela linha divisória!

            Como Eros já se antecipara ao prever os épicos homéricos, achou justo reinvindicar a paternidade do planeta, e se antepôs para iniciar a fusão das substâncias.

            O orgulho de Caos, contudo, em tudo igual ao do irmão, tratou de se opor com veemência, e afirmou, em alto e bom som, que para que a Terra alcançasse beleza sem igual, apenas a força catabólica é a que reunia as condições necessárias.

            Imagine-se, portanto, e se isto for possível, os elementos do cosmo ora se juntando ora se separando, na tentativa incessante de se criar o planeta azul!

            Ora, como ambos os deuses eram igualmente poderosos, o impasse tenderia à eternidade.

            No entanto, de tempos em tempos um deles cochilava... Era o momento propício para que o outro agisse.

            Nesse sentido, é interessante mencionar, mas sem que disto se infira predileção, que foi graças a um desses cochilos que os continentes da Terra apresentam-se como hoje o conhecemos. É que ao unir os elementos, Eros formou a antiga pangeia, aquele bloco único e gigantesco. Pois bastou que dormitasse para que Caos os dividisse em cinco.

             E nesse vaivém, o orbe terrestre foi-se formando, e adiquirindo a beleza que o diferencia de todos os outros planetas do sistema solar.

            Mas por que será que Eros não pelejou por reunir os continentes, tão logo despertou e constatou o que fizera seu irmão?

            Essa pergunta, repetiu-a por milênios, mas sem que conseguisse uma resposta satisfatória.

 

 

 

 

 

            Como  o tempo seguisse,  Eros começou a perceber que algumas de suas criações

passaram a ser respeitadas pelo irmão. Caos, por exemplo, não mais se opunha a que os planetas fossem reunidos ao redor de um sol; nem que as estrelas formassem galáxias.

            Essa silenciosa e vagarosa acomodação começou a incomodar, passou a cutucar ambos os deuses; se bem que, para todos os efeitos, um e outro mantinham-se intocáveis quanto aos seus pontos de vista.

            Ora, quando, na evolução, a Terra já reunia todas as condições para que o ser humano se despisse das vestes de macaco, Caos engoliu o orgulho e chamou Eros para um bate-papo, em um canto remoto do Universo.

            Espantado, mas sem deixar transparecer, Eros acabou aceitando o convite. Afinal, o desconforto, além de visível, era recíproco.

            Como muito teria que ser dito, e como aos deuses primordiais o tempo não tem a menor importância, a conversa poderia se arrastar por outros tantos milênios.

            No entanto, o elogio espontâneo que Eros faria ao irmão acabaria por abreviá-la:

            - Você gostou, mesmo, do que fiz?!

            - Sim. Achei a disposição mais adequada. A ideia de dividir pangeia em cinco continentes será muito útil. Cada um terá a sua peculiaridade, os seus próprios desafios. Cada habitante, portanto, irá se desenvolver ao seu modo, e todos poderão ensinar e aprender uns com os outros.

            Estimulado pela sinceridade de Eros, Caos emendou:

            - Sabe de uma coisa? As constelações têm lá o seu charme... – e ambos riram, como há bilhões de anos não faziam.

            Alguns outros assuntos foram ainda levantados, mas de pouca importância para o futuro.

            O fato essencial, porém, é que a briga entre os irmãos chegava ao fim, pois mais e mais compreendiam que um não poderia existir sem o outro, que ambos sem complementavam.

            Desse dia em diante, a beleza no Universo não mais seria buscada nos extremos, mas, sim, no equilíbrio, virtude a que ambos começavam a se entregar.

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Category : Short story