Alegorias.

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 - Fala um pouco mais sobre essa história de estilo – insistiu o terapeuta, depois de fazer algumas anotações.

- Ah! Como deve ser glorioso ver-se reconhecido mundo afora por uma linguagem! E poder viver da arte, realizando-se, e saber que seus quadros são vendidos a um preço estratosférico!

- Glorioso, realizando-se... Entendo. Continua, por favor.

- Bem, como dizia, cada pintor tem o seu estilo e é por ele identificado. Por exemplo: ao se pensar nas figuras alongadas, de rostos ovalados, pescoços compridos, olhos puntiformes e uma lembrança de sorriso, vem logo à mente Modigliani; quando vemos flores, gatos, peixes e corações em que sobressaem a alegria e as cores vibrantes, referimos-nos, por certo, a Romero Brito; ao olharmos para as formas que retratam um mundo onírico, uma abstração lírica, dadaístas, surrealistas, em que se destacam sobre um fundo branco o amarelo, o preto e o vermelho fulgentes, bem, só Miró poderia conceber tamanhos devaneios.

- Interessante. E você ainda não encontrou o seu estilo?

- Encontrei sim, encontrei! Tanto que, não neste próximo sábado, no seguinte, será o meu primeiro vernissage.

- Ah, que bom! Meus parabéns.

- Obrigado. Aliás, gostaria muito de vê-lo na estreia.

- Mas é claro. Mas, você teve alguma dificuldade para encontrar o seu jeito de pintar?

- Algumas. Ora, justamente por querer que minha arte tivesse aqueles toques diferenciados, tal como nos gênios que citei, a toda hora me deparava com algo que ou já tinha pensado, ou se parecia com o que já tinha sido feito.

- Como assim?

- Bem, pensei em colocar nos meus quadros um nome, escamoteado por entre as paisagens.

- Interessante. E não deu certo?

- Lembrei-me que Al Hirschfeld, o famoso cartunista no New York Times, que faleceu em 2003, aos 99 anos, ele fazia isso com o nome de sua netinha.

- Mas ele não era pintor.

- Mais ou menos... “Pintava” em cartum. De qualquer forma, não achei que fosse original.

- Entendo.

- Mas, mudando da água pro vinho...

- Fala à vontade. Estou aqui para ouvi-lo.

- Nesses últimos dias, semanas, meses, um sonho muito estranho vem se repetindo.

- Estamos chegando lá.

- Pois é. Pode parecer um tanto absurdo... – e Dr. Nassif o atalhava:

- Não tenha nenhum receio de dizer qualquer coisa que lhe vier à mente. No comum das vezes, o que nos parece o mais estranho vem recheado de verdades camufladas. Ou, dizendo de outro modo, os problemas mais pungentes vêm sob formas alegóricas. O meu papel é organizá-las, aclará-las e esmiuçar o que elas querem dizer; o seu, não ter receio de contar-me tudo. – Evandro sentiu-se mais aliviado, mais acolhido.

- Bem, eu estou andando por uma estrada de terra batida; com árvores frondosas de ambos os lados, ou seriam bambuzais?... De qualquer forma, eu continuo andando; quando, de reprente, surge, o senhor pode até achar absurdo, como disse, mas aparece uma fada. Só que essa fada é toda verde, de um verde, como direi? reluzente, quase radioativo. – A sobrancelha direita do terapeuta levantou-se um pouco; pôs-se a rabiscar.

- E então?...

- Bem, daí essa fada verde me dá a mão, e me tira daquela estrada. Atravessamos uma fileira de árvores, quero dizer, saímos da estrada e passamos por entre as árvores, e chegamos a uma plantação; na verdade, me parece um parreiral, só que, creio que por causa da época, todo ele está vermelho, de um vermelho muito forte.

- Interessante. – Anotou prontamente.

- Ah, esqueci de dizer, antes de chegarmos a esse parreiral, e ainda naquela estrada, há uma placa, dessas antigas que dizem quantos habitantes há numa cidade; e nela está pintado o número 400. – Como era Junguiano, Dr. Nassif lembrou-se da importância dada pelo discípulo de Freud ao número quatro. E fez outro apontamento.

- Continua.

- Bem, nesse parreiral, há várias mulheres, trabalhando no solo, colhendo as uvas... tem um boi atrelado a uma carroça, um riacho, o sol está se pondo, mas está bem forte, luminoso; e, também de repente, uma delas levanta, vem ao meu...

- A fada sumiu?

- Hum?... Acho que não.

- Prossiga.

- Como dizia, uma delas vem ao meu encontro. E é aí que eu acordo, e bastante assustado.

- Assustado?

- Sim, e o senhor verá por quê: ela pega um desses instrumentos de lavoura, uma espécie de foice, só que muito pequena, e... – Evandro engoliu a saliva.

- Pode falar.

- E decepa a própria orelha; que, se não me falha a memória, é a direita. – Outra levantada da sobrancelha; outra nota.

- Muito interessante.

- Ah, acordo arrebentado também.

- Por óbvio. Meu caro Evandro, como já estamos no limite do horário, creio que por hoje já está bom. Peço que continue a escrever os seus sonhos, assim que acordar, e, principalmente, este que você me contou, se houver alguma modificação, algum dado a mais que o seu subconsciente resolva nos mostrar.

- Quer dizer que sou eu mesmo que?...

- Como disse, nossos problemas vêm, muitas vezes, sob formas alegóricas. Vamos continuar analisando o que elas querem nos dizer, esta bem?

Evandro concordou. Despedia-se um tanto contrariado, é verdade, pois nunca aplaudira tratamentos demorados, mas no fundo sabia que o caminho que procurava não lhe seria revelado em uma única sessão. E se torcia para que esses encontros não se protraíssem ad eternum, a eles se sujeitaria com razoável resignação, pois os pesadelos já se faziam sentir em seu dia a dia, e o cansaço e a angústia acumulavam-se. Era preciso, pois, livrar-se desse incômodo.

Ao chegar à sua casa, por volta das quinze horas, Evandro encheu-se de perguntas: será que aquele psicólogo era tão qualificado que, mesmo de pouca fala, conseguiria desvendar o que os seus sonhos quereriam dizer? E isso seria suficiente para que acabassem a canseira e a ansiedade? Não era inteligente o suficiente para perscrutar por conta própria a razão desses pesadelos? Aceitou procurar ajuda de um profissional somente par agradar à esposa ou porque admitira, de fato, sua total incapacidade para lidar com esse novo problema?

Evandro estava tão absorto em seus questionamentos que nem se dera conta do que lhe aconteceria se abrisse a porta e não tomasse as devidas precauções. Tal como acontece nos quadrinhos do Calvin, um certo “trigrezinho”, um Chow Chow marrom de três anos, sempre o esperava – e, diga-se, pacienciosamente – para enchê-lo de carinhos, e isso sem jamais perder a instintiva esperança de um dia derrubá-lo! E não é que aquele alheamento veio bem a calhar?

- Pupy! – Por sorte, não trouxera nenhuma tela consigo.

Passado o entrevero da recepção, Evandro sentou-se no sofá da sala, e abraçou Ana Paula, a esposa de todas as horas.

- Como foi a consulta?

- Bem, terminamos a anamnese e já partimos para a descrição dos sonhos.

- E ele se surpreendeu?

- Não, claro que não. Com certeza eu não fui o primeiro nem serei o último a me sintonizar com a escola de André Breton.

- Quer falar português, por favor? – Ela recebia um beijinho de desculpas.

- Eu me referia ao surrealismo.

- Ah, entendi. Quis dizer que os seus sonhos, por mais doidos, por mais voadores que sejam, são só uns a mais para aqueles ouvidos.

- Esta é minha esposa!... – Desta vez, o beijo foi um pouco mais demorado.

- Mas não chegaram a nenhuma conclusão? Ou, pelo menos, a uma luz no fim do túnel?

- Eu bem que quis perguntar. Mas a consulta estava prestes a acabar. Enfim, ficou pra próxima.

- Acho que tudo tem a ver com o vernissage.

- Como assim?

- É claro! Você está aflito com a sua primeira exposição. Toda a imprensa estará reunida e os críticos de arte estarão lá, com o garfo e a faca na mão, prontos para devorá-lo como um franguinho de leite, um galeto suculento.

- Além de seu marido, quero morrer seu amigo, sabia? Assim você me põe mais medo ainda!

- Estou brincando, amor. Mas que uma coisa só pode estar ligada à outra, ah, disso não tenho dúvidas.

- E você concluiu tudo isso, assim, em cinco segundos? De certo graças ao curso de psicologia por correspondência em que você se formou com louvor. – E graças a essa brincadeira, as risadas vieram, as almofadas lutaram e os corpos se despiram.

Os amantes adormeceram sobre a chaise-longue, em perfeita comunhão, plenos de carinho, e com Pupy a velar-lhes o sono, estirado sobre o tapete.

Evandro sonhava. Desta vez, porém, a fada verde apareceu e, antes de dar-lhe a mão, mostrou-lhe uma garrafa vazia. Não havia rótulo que identificasse a bebida; tampouco respondeu ao porquê dessa atitude. O que podia fazer senão segurar o vasilhame? Meteu-o, pois, debaixo do braço esquerdo e ofereceu a outra mão àquela estranha entidade. Esta, por sua vez, luminou-se ainda mais que nas outras aparições. Foi aí que sentiu um forte odor de álcool. O aspirante a renomado pintor, no entanto, deu de ombros e seguiu sua guia. Transpuseram a mesma fieira de Tílias e alcançaram o parreiral. Todas as camponesas continuavam o labor, mesmo com o sol no poente e brilhando forte. Evandro atentou para um homem que estava de pé e dentro do riacho. Olhou para a fada, percebeu-lhe as asas, mas, como nas outras vezes, não conseguia distinguir-lhe as feições. Notou, outrossim, que o azul predominava nas roupas das campônias, ora nas saias, ora nas camisas que, por sinal, eram todas de mangas compridas. Mas o que mais distinguia naquele capricho da imaginação era o tom avermelhado, o rubro de todas as parreiras.

Evandro arriscou uma pergunta:

- Escuta, são uvas mesmo? – O ente fantástico afirmou com a cabeça. – É estranho, não me lembro de ter visto videiras vermelhas antes. Está certo que sou ignorante no assunto, mas, para mim, elas sempre foram verdes.

A fada verdejante, então, levou o indicador direito à boca, em claro recado para que ficasse quieto. Evandro levantou as sobrancelhas e, amuado, não mais perguntou. O máximo que se atreveu a fazer foi procurar a garrafa vazia. Tranquilizou-se; seu sonho ainda não a tinha arrancado.

Neste comenos, uma a uma das camponesas foram sumindo. Até que, por fim, restou apenas uma; por certo, pensou, aquela que iria se mutilar. No entanto, esta dele se aproximou e, ao invés de se autodecepar, estendeu-lhe a mão direita fechada. Evandro começou a suar frio. A trabalhadora, então, abriu a mão e lhe mostrou apenas um único bago de uva. E começou a tremer e a chorar.

Evandro se inquietou. E tal como a campesina, passou a tiritar. Era incrível, mas parecia que o jovem artista sentia exatamente a sensação daquela pobre mulher! E acordou.

- O que foi, amor?! Teve outro pesadelo?

- Sim!... – E bufou delongadamente.

Ana Paula não lhe pôde consolar muito mais. No entanto, o amor de mulher soube bem improvisar, e a fadiga foi-lhe expurgada com o auxílio de uma reconfortante massagem.

- Que coisa estranha – comentava Ana Paula, à mesa, depois de ouvir-lhe o fato novo –, foi só o psicólogo falar pra você prestar atenção em alguma novidade que o sonho se transformou.

- É verdade. Será que ele me influenciou sem querer?

- Sei lá. Ou talvez eu mesma tenha influenciado você quando falei do seu medo da estreia.

- É possível. Mas o que eu consegui sentir mesmo naquela mulher, se é que isso é possível, é que ela estava com muito medo.

- O famoso gigante negro, como diria Mira y López.

- Humilha, humilha... – E riram mais uma vez.

Jantariam, assistiriam a um pouco de televisão e conversariam bastante abraçados no sofá. Namorariam ainda? Bem, era sexta-feira, eram jovens, e casados há apenas três anos.

Antes de dormirem, Ana Paula ainda teve o lampejo de fazer uma última pergunta:

- Por que será que aquelas trabalhadores foram reduzidas a uma só? E por que será que ela mostrou pra você apenas uma única uva?

- Não faço a menor ideia. – E se foram ao sono.

Evandro adormeceu do jeito que muitas mulheres fantasiam: com o braço direito sobre o ventre feminino. Isso lhes era comum, o que só aquentava a relação. Mas se era verdade que Ana Paula seguiria a noite, segura e embalada pelo calor do marido, Evandro, ao contrário, deixava a vigília para entregar-se ao autoquestionamento:

- Deixe-me ver... sonho com uma fada verde; ela me dá uma garrafa de bebida, que está vazia; ela me leva ao uma plantação de uvas, que são de um vermelho vivo; camponesas começam a desaparecer e sobra apenas uma; ela me mostra um único bago de uva; fica trêmula, chora, tem medo; e, do mesmo modo, foi esse medo que também senti. Mas que diabos tudo isso quer dizer?! Se é que quer dizer alguma coisa. De fato, só os psicólogos têm condições de interpretar esse monte de doidices.

- Espera um pouco!... Esse sonho, essa cena... eu já vi isso antes! Não me refiro à repetição dos sonhos, mas, sim, de onde tudo isso começou! Foi num livro, numa gravura! – Evandro saltou da cama e correu ao escritório.

- Onde está, onde está?... Aqui. – Mas quando ia retirar o último volume de uma enciclopédia sobre grandes mestres da pintura percebeu que ainda dormia, pois sua mão a transpassou com a mesma facilidade que a luz atravessa o vidro.

- Que droga! Enquanto eu não acordar não terei como confirmar minha suspeita. E o pior é que eu não sei se vou me lembrar do que ia fazer, quando acordar. Bem, pelo menos o sonho está sendo diferente. – Ledo engano. A fada verde aparecia e, sem que atinasse como, levava-o para a mesma estrada de terra batida. E o filme recomeçava.

Evandro foi o primeiro a acordar. O quarto estava a meia-luz, pois uma fresta na janela já deixava passar o olhar indiscreto do sol. E um gostoso espreguiçar foi o corolário espontâneo e incontrolável. Depois, virou-se para a esposa. Ana Paula dormia com a serenidade das amadas. Ele sorriu. Aproximou-se para beijá-la... Mas quando ia tocá-la, estancou:

- Caramba, lembrei o que ia fazer! – Ainda bem que Ana Paula dormia e nada percebeu. Caso contrário, quando a noite chegasse, alguém iria dormir no sofá, e sozinho.

Evandro levantou-se procurando não acordar a esposa. Seguiu ao escritório e lá ficou. Varreu as prateleiras e, por fim, achou a mesma enciclopédia que encontrara sonhando. Não perdeu tempo e, frenético, começou a volver os volumes.

- Onde está, onde está?... – Sentou-se na poltrona e procurou cobrir as pernas com o roupão, pois estava frio. Folheava, folheava... Depois de alguns minutos, e chegando aos mestres do século XIX, parou e se estarreceu: lá estava o quadro que ficara um dia gravado em seu subconsciente!

- Não acredito!... – E identificava naquela gravura quase todos os detalhes do seu sonho: a limítrofe fieira de árvores, o parreiral avermelhado, as camponesas vestidas de azul, o sol se pondo, o homem de pé no riacho, a carroça puxada a boi. Foi, então, ao texto explicativo:

- O Vinhedo Vermelho, de Vincent van Gogh.

Era fato, a mensagem que os repetidos sonhos lhe queriam passar tinha, necessariamente, a ver com o mestre holandês, incluindo, aí, o óbvio detalhe da trabalhadora que se autodecepava e as nuanças da entidade esverdeada e da garrafa vazia, que, na verdade, representavam a bebida alcoólica em que o célebre pintor era viciado, o Absinto, e cuja alcunha era, justamente, a de “fada verde”, face à sua peculiar coloração.

- Mas e aquela placa contendo o número de habitantes? E as camponesas que vão desaparecendo até só sobrar uma? Por que ela me mostra um único bago de uva? E por que passa a chorar? E o medo que ela e eu passamos a sentir?

Neste instante, Evandro foi tomado por uma vergonha implacável. Voltou a ler o texto como que buscando uma saída menos humilhante à sua suspeita. Mas dele só obteve a amarga confirmação: em toda a sua vida, van Gogh só conseguiu vender um único quadro, O Vinhedo Vermelho, e pelo valor de 400 francos. Era isso o que queriam dizer a camponesa que sobrava e o solitário bago de uva. O medo que ela lhe transmitia refletia, portanto, o próprio temor de se ver como um fracasso nas artes plásticas, vendendo, no máximo, uma única tela em seu vernissage.

- E não é que ela tinha razão?...

Evandro fechou o livro, levantou sem pressa e o recolocou na estante. Voltou para o quarto – Ana Paula ainda dormia –, deitou-se sem alarido no seu lado da cama e cobriu-se.

Voltaria a ter os mesmos pesadelos? Só se o medo do fracasso persistisse. Continuaria a apostar em sua arte? Nunca duvidara do estilo que desenvolvera. Contaria à esposa sobre o acerto do seu “diagnóstico”? Ela bem que merecia... Iria à próxima consulta com o psicólogo? Recusava-se a pagar para ouvir o já sabido.

No entanto, o tempo seguiria a sua marcha...

- Pode começar, Evandro, estou aqui para te ouvir. – Dr. Nassif, de caneta e caderninho em punho, dava-lhe a deixa:

- Bom, doutor, pode parecer estranho; ridículo até...

- Continua, por favor.

- Bom, eu sou o Tio Patinhas. Estou dentro da minha Caixa Forte, e morro de medo de que os Irmãos Metralha venham roubar o meu dinheiro.

- Medo de que venham roubar o seu dinheiro... – Dr. Nassif sorria face à intuição certeira que lhe vinha em auxílio – Por quanto, mesmo, que arremataram aquele seu quadro em Nova York, nesse último leilão da Christie’s?

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Published at : 26-08-2016
Category : Short story