Antes do Réquiem

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Sentiu-se triste, e pensando em que ação empreender para sentir algo mais haver com o sol que amanhecia, ou com seu sorriso de infância, notou que sua tristeza era um querer, uma necessidade.

– Eu preciso de gente.

Essa coisa de conversar um bocado sobre coisas insignificantes, e rir delas. De fazer projetos e marcar encontros, dar poemas e receber outros, de brincar, e claro, partilhar os sonhos e as angústias. Percebeu-se numa sociedade que instaura solidões agudas, ainda que andemos em multidão. Mundo em que vendemos nosso tempo, e o que resta é para amar, ver cinema e dormir. Mas amor, cinema e sono precisam de mais.

– Eu preciso de tempo.

Sentiu-se num corpo economizado, cujas forças são alienadas e movidas mais para ser lucro do que pra ser gente. Sentia-se com uma imensa reserva e um tremendo cansaço.

– Eu preciso de corpo.

Notou-se imerso nesse hábito generalizado de gastar-se com ambições de um futuro que independe de todos os planos, que é contingente e de existência duvidosa.

– Eu preciso do agora.

E com sorte, antes que a visse, lembrou-se da morte.

– Eu preciso viver.

Published at : 20-09-2016
Category : Short story