Murmurinho

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A gente de lá chamava o lugar de praia do murmurinho, pois quando escurecia o céu, e o som da noite deitava no som do vento e mergulhavam os dois no som do mar, parecia que um rumor de choro, tristeza, vinha de todos os cantos, uma coisa lamentosa que até fazia apagar as fogueiras de quem tentasse festejar com violão e carne quente. Contava quinze anos quando mudara pra cidadezinha de lá, mar nunca tinha visto e não cansava mais de ver. De noite, na ausência dos banhistas, era quando mais gostava de vagar na areia fria, pé descalço, olho longe, pra além do futuro. Sua mãe que não gostava dessas andanças, e dizia:

- Céu de lua e praia vazia não faz bom lugar de garoto na sua idade caminhar não, meu filho, tem uns assombros de mulher que gostam de penar por essas horas, atraindo menino virgem pra tirar deles o que há de puro, de modo a fazer buliço com o povo de Deus. Vá lá não, meu garoto!

Mas por mais batizado que fosse, não acreditava nas coisas santas, e bem pouco nas diabólicas. E que certeza tinha a mãe da virgindade do filho? Coitada. Por isso mesmo não dizia de Juliana, moça que andava com ele nas noitanças da praia, sem nenhuma malícia que talvez pensassem. Andavam sempre a um braço de distância, braço que as vezes se encolhia, mas nunca arriava. Falavam pouco, e se olhavam mais que tudo. Tinha vez que o mar até vinha com onda forte, orgulhosa, pra chamar atenção, e nada. As vezes sorriam, corriam, davam piruetas na areia e mergulhos no mar. Além de seu nome, ela só disse o que era.

- Ora, é mulher, não é? - Perguntou o menino.

- Mais que isso, sou Alamoa.

- Não sei o que é, só sei que é bom.

- Não é não. Sou coisa sem corpo, alma que de tão errada e errante, inventou nome pra ser chamada, mas nem com isso o céu me abriu porta ou o diabo abriu chão. Fantasma de beira de praia, que não sei por que pecado teima ainda em amar quem não deve, só pra acumular morte e saudade, morte e saudade, morte e saudade.

- Já não rezo em missa mesmo, não tenho problema em gostar de você, mas qual o problema de gostar de mim?

- Já viu folha despendurar do arvoredo e ficar voando sem nunca cair no chão? Não tem como, que nem amar sem tocar, não dá. E se você relar a boca na minha, se eu deitar a cabeça no teu peito, ou mesmo se a gente juntar as mãos debaixo d'água, eu continuo aqui, Alamoa maldita, e você vai sumir do agora pra sempre! Não vai haver memória que te lembre, voz que te chame, mãe que te chore, e vai virar coisa fria feito pedra, como se descriado por Deus.

Ficaram quietos, e não havia murmúrio algum na praia. De repente ele riu, riu da ironia de pensar que Deus além de criar mal criado, às vezes, também descriava. Foi uma risada boa dela ouvir, tão boa que esqueceu o quanto a paixão emburrece menino virgem. Quando amanheceu, encontraram um corpo desconhecido estirado na beira-mar, corpo nu, duro e frio feito pedra, mais com um sorriso no canto de fazer inveja em quem tivesse vivo. Riso de quem se quis descriado por Deus. Veio a noite, e um rumor de choro e tristeza vinha com força de todos os cantos.

Published at : 23-09-2016
Category : Short story