Por São Paulo, até os mortos!

IN,Literarte Celebra São Paulo,lançada em 31/08, na Bienal Internacional do Livro de São Paulo

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Dizem que mais de uma coincidência é o prenúncio do inusitado. Bem, se não dizem, digo agora, porque depois dos acontecimentos de que tomei parte, só mesmo aceitando essa frase como uma lei da natureza para conseguir justificar o que se passou comigo na noite de ontem, e na manhã do dia seguinte!

Por um deslize – na verdade, um rabo de saia –, perdi o último trem para Jaçanã, o que saía às onze em ponto. Se Adoniran estivesse ao meu lado, provavelmente riria à solta.

Eu não ri. E fiquei ainda mais revoltado quando percebi que perdera a carteira.

A garoa já incomodava, o que me fez sair à procura de um lugar que me abrigasse.

Como andava muito, a revolta deu lugar ao assobio; o assobio, ao trauteio; e não é que cantarolava Sampa no exato momento em que cruzava a Ipiranga com a São João?!

Esses fatos curiosos continuaram madrugada adentro. Até que, exausto e tiritando, encontrei um recanto sob uma marquise, e lá me encolhi.

Acordei de susto, com uma mão pousada sobre o meu ombro esquerdo.

Eram, na verdade, dois senhores, e que logo me tranquilizaram, afirmando que não estavam com más intenções.

Um era calvo e usava óculos; o outro, cabeludo e tinha os dentes da frente um pouco separados. Apresentaram-se como Mário e Oswald, respectivamente, e garantiram não serem irmãos, mesmo tendo o mesmo sobrenome – de Andrade.

Como a fome e o frio me fizessem engolir qualquer prevenção, não me fiz de rogado e aceitei uma barra de chocolate que Mário oferecera, e um convite para um pingado sugerido por Oswald.

Conversa vai, conversa vem, e ambos deixaram escapar que moraram em São Paulo há muito tempo atrás, e que agora regressavam porque pretendiam participar de uma importante homenagem.

Antes, porém, gostariam de passear um pouco pela cidade, pois, ao contrário de Oswald, Mário ainda custava a crer que a sua Paulicéia tivesse abandonado o desvario, que tivesse deixado do seu provincianismo.

Nem se precisaria dizer que fiquei ressabiado. Mas como precisava matar a fome e a sede, retornar para minha casa, e pagar algumas dívidas, acabei confessando que conhecia muito bem a capital, assim que me ofereceram uma quantia encorajadora para que lhes servisse de guia turístico. Combinamos que os levaria para ver a night, e a alguns outros lugares no dia seguinte.

De começo, pensei em levá-los para verem os prédios e as luzes da Paulista. Afinal, é um dos cartões-postais mais conhecidos.

Aceitaram com alegria. E não é que fizeram questão de percorrer a avenida de ponta a ponta?!

Mário estava tão impressionado que o vi puxar de um lenço e limpar as lentes dos óculos só para melhor apreciar.

Oswald era mais sorrisos que palavras, e não poupava interjeições a cada quarteirão que vencíamos.

Ambos, contudo, tiveram um quê de saudosismo, pois comentaram sobre outros tantos casarões que havia no passado, conversa que, confesso, me deixou com a pulga atrás da orelha.

Sugeri, então, que fôssemos conhecer uma das muitas baladas da metrópole. Mas assim que expliquei que nesses lugares além de dançar pode-se ficar, Oswald torceu o nariz à tentação e achou melhor não arriscar. Disse que estava muito bem com sua esposa, Tarsila do Amaral, e que não arriscaria a paz conjugal, afirmação essa a que Mário aderiu prontamente.

Como a noite avançava, e a fome já me consumia, propus que nos entregássemos à famosa e variadíssima gastronomia de São Paulo, arriscando que meus “clientes” não me deixariam do lado de fora.

E não é que eles aceitaram?!

Foi a primeira, e creio que a última vez que entrei no Terraço Itália!...

Quando estávamos entre o cafezinho e a dolorosa, comentei sobre a quantidade de Shoppings que havia na capital. É claro que ficaram bem mais interessados depois que expliquei do que se tratava... O interesse, no entanto, transbordou quando mencionei as gigantescas livrarias que se estabeleceram em alguns deles, esse novo conceito que une ao hábito de ler o prazer de comer, beber, ouvir histórias, etc.

Foi o suficiente para que fosse intimado a levá-los à livraria do Shopping mais próximo, e o mais rápido possível.

Com efeito, ambos ficaram maravilhados! Andaram de lá para cá, como duas crianças a brincar em um parque de diversões. E só pararam quando acharam a sessão de literatura brasileira.

Por coincidência – Ah! mais uma... –, comemorava-se a Semana de 1922, e os autores modernistas estavam em destaque.

E como disse no início deste relato, fiquei boquiaberto – na verdade, foi quase uma síncope – quando, aproximando-me da dupla, comecei a notar a grande semelhança que havia entre as gravuras dos escritores nas capas dos livros e as fisionomias dos meus novos amigos...

Como Mário e Oswald de Andrade percebessem que petrificava, ajudaram-me a caminhar até a uma poltrona, onde estatelei, e passaram a se explicar.

Souberam que uma coletânea de contos em homenagem a São Paulo estava sendo preparada. E, como legítimos representantes de sua História literária, candidataram-se e obtiveram a permissão para descerem do empíreo e com ela contribuírem.

Na manhã do dia seguinte, eu os levaria ainda ao bairro da Liberdade, onde se deliciariam com as comidas típicas japonesas, ao Obelisco, onde renderiam graças ao MMDC, ao parque do Ibirapuera, onde alugariam bicicletas, dariam de comer aos cisnes negros e tomariam água de coco, e ao Teatro Municipal, onde matariam as saudades daquela memorável Semana.

Creio que concordarão comigo: Foi ou não foi uma experiência inusitada?

Ah! já ia me esquecendo, o meu papel nesta história ainda não acabou. Na verdade, além de querer desabafar sobre o que se passou comigo, quis aguçar a curiosidade dos leitores quanto aos textos que Mário e Oswald de Andrade já estão escrevendo. É que eles também me contrataram para fazer propaganda antecipada...

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Published at : 07-11-2016
Category : Short story