Um conto (diferente) de Natal

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Como sucedia todos os anos, Consumereville fervilhava à espera do Natal. Não havia, assim, um só recanto que não tivesse sido decorado com esmero, fosse com luzes cintilantes, com enfeites primorosos, ou com gravuras do Bom Velhinho.

Seus habitantes seguiam rigorosamente as tradições. Assim, os corais encantavam nas calçadas, as árvores enfeitadas embelezavam as salas das residências, as meias coloridas já estavam penduradas nas lareiras, e as cartinhas rabiscadas pelas crianças já haviam sido enviadas para Papai Noel. E como sempre nevasse, as crianças brincavam de trenó, construíam bonecos e batalhavam com bolas improvisadas.

No entanto, algo de muito estranho estava prestes a acontecer...

Na noite de 23 de dezembro, quando a cidade dormia, os presentes de Natal, tanto os que já haviam sido comprados, como os que estavam nos mostruários das lojas ou nos estoques, todos eles simplesmente desapareceram!

É claro que os comerciantes foram os primeiros a arregalar os olhos – e a gritar –, tão logo reabriram os seus estabelecimentos e os encontraram vazios. Mas nem por isso foram os únicos a congestionarem as linhas telefônicas do único posto de polícia, pois, minuto a minuto, mais e mais famílias descobriam que tinham sido furtadas, e tentavam, alucinadas, ligar para pedir socorro.

Em pouco tempo, os meios de comunicação já noticiavam o que acontecia, mesmo que sem a real dimensão do problema.

No entanto, como o dia seguisse, e a hora da ceia aproximava-se, era preciso contornar, ou no mínimo minorar os sofrimentos por que as crianças fatalmente passariam. Daí que muitos pais saíram desesperados buscando recomprar os presentes que seus filhos haviam pedido.

E como não encontrassem sequer substitutos, a balbúrdia tomou conta da cidade, e toda a imprensa acabou conhecendo a situação crítica que passavam a enfrentar.

Como é difícil expressar com palavras a emoção singular que se abateu sobre os cidadãos... No entanto, tentemos imaginar o fato de não mais haver um só artigo, produto, brinquedo, garrafa de vinho, qualquer coisa, enfim, que pudesse ser embrulhada e chamada de presente! Nada para comprar, trocar ou descobrir esquecido em um canto remoto de uma casa ou de um distante comércio, incluindo aqui – e para que não haja dúvidas – até os supermercados!

E já que começamos a tatear essa “realidade inimaginável”, pensemos na sensação que experimentaria uma família numerosa que combinara cear na residência do patriarca. É provável que os adultos soubessem como lidar com esses constrangimentos, o de chegar de mãos vazias e o de ser recebido da mesma forma. Mas as crianças, ah!... essas nenhuma canção, teatrinho de fantoches ou comilanças natalinas teriam força bastante para refrear o choro que explodiria no momento em que a verdade lhes fosse revelada!

E nos lares em que se estabelecera presentear só no dia seguinte? Ora, muitas criancinhas iam dormir tão logo a ceia terminasse, justamente para não embaraçar a descida de Noel pelas chaminés. Daí que, nas primeiras horas do dia seguinte, elas levantavam e corriam, serelepes, à procura dos seus mimos. Mas as meias estariam vazias, e nada achariam nos sopés das árvores de Natal.

Houve quem sugerisse esconder ovos cozidos e de cascas pintadas, como a atenuar a frustração que se aproximava. No entanto, mais frustrados ficaram quando constataram que também os ovos tinham sumido.

A polícia, os bombeiros, a defesa civil, a prefeitura, todos estavam atordoados, sentindo-se completamente impotentes, incapazes de tomar qualquer decisão. E o pior é que no ano seguinte haveria eleições municipais...

Muitos pais, então, resolveram contar a verdade para seus filhos, e o fizeram com a solene promessa de que, passadas as Festas, ganhariam em dobro os presentes que pediram. A grande maioria, porém, permaneceu calada, uns, à espera que os órgãos competentes solucionassem o mistério, outros, rogando e aguardando um milagre.

Neste transcorrer, uma sensação de medo inundou o espírito do povo. E se perguntavam: Só mesmo alguém – ou alguma coisa – com um poder além da imaginação poderia, em poucas horas de uma única noite, surrupiar todos os presentes de uma cidade inteira, e isso sem deixar um só rastro por que pudesse ser caçado, nem um único estalido por que fosse percebido!

Ao depois, um sentimento de revolta começou a impregnar os corações consumereanos, pois, se eram pagantes dos seus impostos, e cônscios dos seus deveres, como os agentes públicos que eles mesmos elegeram, e que por força de lei tinham a obrigação de protegê-los, de governá-los, conseguiram ser tão incompetentes, tão inúteis ao ponto de não terem impedido ao menos um único furto?!

Patética foi uma entrevista em que um repórter sensacionalista fez com uma mãe e sua filha de nove anos de idade, que, plantadas do lado de fora de uma loja de brinquedos, recusavam-se a acreditar que tudo havia evaporado. Lá pelas tantas, e por conselho desse mesmo profissional, a criancinha, muito chorosa, passou a implorar a Papai Noel para que não a abandonasse, e que lhe trouxesse a boneca que tanto pedira, a coisa mais importante deste Natal. E, como arremate, o repórter sugeria à pequenina que pedisse a todas as crianças da cidade para que se juntassem a ela em oração, e que cada uma suplicasse por seu presente.

Pronto! as redes sociais bombaram em segundos, e milhares de crianças passaram às rogativas.

Dizem que os pensamentos, quando voltados para o mesmo fim, ganham força, irradiação. E dizem também que os das crianças são mais fortes, porque são puras.

Pois se não dizem, afirmo, visto que foram reverberar lá nos confins da Lapônia!

Enganaram-se, contudo, os que acharam que Papai Noel compadeceu-se dos aflitos, e, de um fôlego, voou por sobre a cidade em seu trenó, e precipitou milhares de pacotes nas chaminés, como aconteceria ao lugar-comum de um desenho ou filme natalinos.

A resposta aos pedidos infantis aconteceria, sim, mas de uma maneira um tanto diferente...

À meia-noite em ponto, estrépitos fizeram-se ouvir em todas as casas de Consumereville, bem nos lugares onde as famílias costumeiramente punham os seus presentes.

E é óbvio que os familiares para lá se viraram...

Por mágica – a mesma que fizera sumir os cobiçados tesouros –, surgira um envelope de bom tamanho e que arregalava os olhos, pois fluorescia.

A pouco e pouco, os mais ousados levantaram-se. E à medida que deles se aproximavam, sua luz diminuía. Até que se apagou por completo, de modo a não mais incutir medo.

Os envelopes foram, um a um, abertos e lidos, como se houvera uma força superior a impor e a coordenar essa atitude aos cidadãos.

A missiva apresentou-se nestes termos:

“Queridas crianças, amantíssimos pais, diletos moradores da cidade do consumismo.

Nada, absolutamente nada contra o gesto de presentear. Se feito de coração, reflete amor.

No entanto, alguém se lembra do real motivo por que se comemora o Natal? Ou, em outras palavras, sou eu quem faz aniversário?

Quanto aos presentes, só no ano que vem. E mesmo assim, só se vocês se comportarem como realmente se deve.

Noel

P.S.: Ho! Ho! Ho!”

A esmagadora maioria da população teve que ir ao Google para se inteirar das respostas. E deram de ombros.

Mas houve quem dEle se lembrasse. E prometeram fazer a diferença, a bem de si, de seus filhos e de toda a cidade.

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Published at : 06-12-2016
Category : Short story