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- Preparado para a despreparação?

Preparado para a despreparação?

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A gabarolice de estar preparado, na sua génese, é uma acção de inteligência e de interesse próprio, e o que pretende é somente o escudo contra a agressão da perda, o acumular das posses, a feitura do pé-de-meia, e o cumprimento regrado de uma vida e, quem sabe, de uma dieta milagrosa; é, portanto, a aposta egoísta, sobre os demais, na garantia de uma longevidade abastada, salubre e feliz.

Estar preparado, quando bem propagandeado, é um lugar de status, um destoar no meio dos ignorantes impreparados, e o derradeiro exemplo a seguir, que de tão superior e brilhante, ninguém consegue realmente seguir; somente assistir. Só que a força intrínseca de estar preparado reside, ironicamente, na força etérea que ela encerra. Na verdade, trata-se da mestria de uma força auto-sugestiva convincente, e que funciona "placebicamente" como se fosse uma fé activa, física e com fenótipo. Contudo, não deixa de ser uma forma de preparo alguém achar-se preparado, ainda que não esteja de facto preparado; porque a preparação idealizada e trabalhada, seja rude ou sofisticada, não existe. E o que anula a existência de um verdadeiro preparo, é a infinita cartilha de hipóteses de como um simples acontecimento, comum e esperado, pode acontecer no terreno das eventualidades. Nuances, variáveis e constantes fazem o modelo possível e a tendência esperada, mas nunca a perfeita possibilidade e, muito menos, a previsão da realidade. Além disso, dentro dos brilharetes e das concordâncias que a preparação pode encontrar quando é posta à prova, quantas vezes já foi esperado o melhor para que afinal as expectativas fossem ultrapassadas? Ou quantas vezes já foi esperado o pior para que afinal fosse péssimo o desfecho? Daí que as constantes, mesmo que certas e lúcidas, são variáveis, na medida em que também podem variar de posição dentro da própria fórmula do preparo. Ou seja, modelar a preparação com a certeza é a mais absoluta perda de tempo.

Por outro lado, estar preparado, no seu antagonismo e na sua visceralidade, é também uma acção suicida e de objectivo perdido. Neste caso, estar preparado é estar enfiado até ao pescoço dentro do risco, e é ter uma dimensão de influência - assustadora para o influente e inspiradora para o influenciado -, que é uma forma inesperada de grandeza humana. Quanto mais inspiradora for a importância do que é criado, mais terá sido arriscada a despreparação que levou ao risco, que, por sua vez, levou à preparação que não-foi-sentida; mas que resultou. Assim sendo, o acontecimento que sucede imediatamente a suposta preparação é a coisa mais inconsistente que pode existir. Isto para não falar da inutilidade que uma preparação, que se convence de sí própria, revela na criatividade ou, por outro extremo, na inanição-contemplativa; que por exclusão de partes, são as duas únicas formas de naturalidade possiveis e, por conseguinte, de se estar preparado para a despreparação.

Published at : 31-12-2016
Category : Articles and Opinion