O montês e o diabinho das escadas

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Ele sobe todos os dias as escadas até ao último andar. Duas vezes por dia: uma antes do almoço e outra antes do jantar. Durante o exercício físico tem cuidado com a respiração e respira "yogamente". Inspira pelo nariz e expira pela boca, sincronizadamente. A cada degrau olha para o chão e, como quem olha para as nuvens, ele aqui também vê imagens no padrão caótico da tijoleira. Diz ele que ajuda na concentração do objectivo, que é subir sem interrupções e cumprir o dever.

Para que a subida seja perfeita é necessário que ele se abstraia de tudo o resto: dos burburinhos que ultrapassam o interior dos apartamentos desalmados, e dos passos que fogem, devagar ou depressa, para os elevadores ou para as portas.

A finalidade é simples e está memorizada: é subir, chegar ao cume e descer até casa.

Contudo, pouco antes de chegar ao terraço, há algo que o acompanha desde que deu início a este movimento repetitivo e entedioso, mas que é saudável. É algo que está desenhado no chão numa peça de cerâmica esverdeada. É a cabeça de um diabinho amarelo-torrado, narigudo, sisudo e sem chifres. Segundo parece, a coisa resulta do cérebro, que tem a mania de pregar estas partidas para que tudo tenha sentido. Um pingo de tinta, que caiu durante a última pintura do interior do prédio, foi o suficiente para que os neurónios fizessem de um rabisco um diabinho.

O diabinho foi condenado ao abandono, ali, a escassos metros do último piso, entre o sexto e o sétimo céu. Vive sozinho e está aprisionado numa pintura abstracta; pelo menos, até que alguém resolva, sobre a sinistra figura, jogar diluente. À noite vive na escuridão, porque ali há pouca gente que acenda a luz. E de dia encandeia-se com o brilho do Sol, que é intenso, através de uma janela exagerada.

No Verão, para massajar os dedos dos pés castigados pelo frio do Inverno, o escalador escala descalço o vulcão de declive recto; e sente que a superfície amorna à medida que sobe. Fica bem morna e confortável no lugar onde fica o pequeno inferno, e onde jaz o pequeno diabo. É claro que a quentura é da altura, e não dos calores do centro da Terra. Ao contrário do Monte Everest, que é mais frio no pico, aqui não estamos a mais de oito quilómetros acima do nível do mar, e os raios da nossa estrela sabem bater directamente na parede mais exposta.

Mesmo assim, seja qual for a temperatura, sempre que passa pelo território guardado, o montês - aquele que sobe duas vezes todos os dias a montanha - evita pisar o diabinho-guardião. Tem medo que o malvado se enfureça. Quer dizer, não tem medo. O que ele tem são tiques irracionais espontâneos, como quase toda a gente. Aliás, ele é agnóstico, mas foi tramado pelo perfeccionismo letárgico e pela soma dos insucessos; ou seja, por quase tudo aquilo que transforma um descrente num crente ocasional. Afinal, quem não acredita, pontualmente, numa injustiça espiritual para além dos parâmetros da razão? E ele, como não é excepção nem lei, não vende a alma, mas também não pisa no diabinho.

Published at : 09-01-2017
Category : Short story