Dar-me, dar-se

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Primeiro pensou em dar um poema, algum desses que escrevia quando o vento das ideias batia contra o lajedo do peito. Mas não, seu poema era tão inseguro quanto ele, repetitivo, amétrico, despolitizado, seco, raso, sem identidade. Nada parecido com os poemas barbados e anarquistas dos saraus. Precisava de algo mais, algo melhor. Pensou em dar um beijo. Mas não, seu beijo não sabia definir-se entre a voracidade inflamada das bocas libertárias, e a bitoca insossa dos amores tímidos. Tão sem estilo quanto o poema, tão vago quanto, tão velho quanto. Que mais? Só um olhar, talvez, desses que dizem por si e assumem tudo de uma vez. O olhar puro e seguro, sem voltas, tremores ou gaguejos. Dar um olhar é dar-se inteiro, dar-se em tudo. Mas não, um olhar só funciona se é olhado, se tem de volta o que deu, e se não, enche d'água e se contorce na direção do passado, quer apagar o inapagável, e esparrama borrões. Se não houvesse retorno? Se parecesse assédio? Se fosse? Não. Melhor não. E de tantas recusas frias e empilhadas do umbigo a garganta, sentiu que precisava, antes de dar-se a alguém, apenas dar-se. Dar um poema a si mesmo, um beijo, um olhar para os fundões de dentro, e tudo era lindo, tudo era bom e tudo bastava.

Published at : 18-01-2017
Category : Short story