O crochê e a poesia

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O crochê e a poesia

Uma malha vermelha de crochê está sendo engendrada pelas mãos de dona Clotilde, que espera uma consulta médica. Ela é de um vermelho vivo, feito sangue, como se as entranhas da mulher saíssem para fora, livrando-a da ansiedade da espera; em lugar de permanecerem dentro e criar uma úlcera...Dona Clô, como é chamada, sentada, e com pés fincados no chão, tece-o indefinidamente. Move rapidamente uma mão, auxiliada pela outra que apoia o tecido; não tira os olhos de sua malha que cresce, cresce, jä está no Gilberto uma ponta e a outra já quase chega ao Pontão. Dona Clotilde acha que vai ficar bonito o seu trabalho - ele já enche as ruas, os carros enredam -se na rede e buzinam furiosos. Isso não é poesia e dona Clotilde está preocupada com o pulôver que fazia para sua neta e virou esta imensa teia que foi avançando e cobrindo a cidade. - Ah, o vermelho! O vermelho me fere com a violência da paixão e, ao mesmo tempo, me constrói; que furor interno o dessas vísceras que me saem e hão de retornar com a satisfação do crochê pronto. Já o vejo em Frederica! Dona Clô chega a ficar fissurada ao imaginar a peça sobre uma legging branca, vestindo a moça, com cabelos de modelo, açoitados pelo vento. Um indizível frisson!

Mas o tecido se estende e dona Clotilde intui seus passos meticulosamente. Foi indo de cabeça atrás dele, que nem era justo deixá-lo sozinho seguir seu caminho. Logo a cidade estava enredada nessa trama, pronta para ser "despachada" ou simplesmente aprisionada em seus meandros, as pessoas tomadas desprevenidas, um pássaro que pousava sobre fio da rede elétrica e lá ficou...Quanta delicadeza nesse nesse habitante urbano, agora observado por um casal de jovens que já esquecera sua irritação, presos na malha- até lembraram o leão...mas era o passarinho de peito amarelo, o bem-te-vi, pousado leve, como só ele pode, sem se queimar, bailando na linha infinita, se comparada à proporção de sua estatura. Um pio mais agoniado e ele se esquivaria da rede, sob as palmas dos dois, que na faina diária, nunca se aperceberam dessa riqueza, tantas vezes disponível...a cidade muitas vezes esconde belezas só descobertas por olhos sensíveis; e dona Clô ganhou ponto com essa malha espichada, e agora flutuante, que também chamou a atenção do casal. Debaixo dela, numerosas pessoas atravessavam apressadas uma faixa de pedestres, umas indo, outras vindo: a simetria e o movimento regular dos ângulos formados pelas calças compridas era quase uma dança.

Esses jovens que antes se desentendiam, agora estavam estupefatos diante dessa estranheza. Tensos, à véspera de um concurso, um acusava o outro de banalidades descabidas ; e, súbito, uma rede se arrastava, subia encaçapando pessoas, carros, árvores, ou flutuava...seria um mau presságio, prenúncio do fim do mundo, ou apenas uma desvairada instalação de algum artista, embalando a cidade? Mudos e parados no trânsito, era melhor relaxar; suas diferenças sucumbiram diante desse impasse... então as sutilezas da rua se apresentavam e eles as curtiram...puderam reparar no pipoqueiro e seu carrinho, no ciclista e sua bicicleta... na poesia surgindo com a singeleza de seus desenhos, na roda pequena e rude, ou nas grandes, modernas, com seus aros brilhantes e ofuscantes no giro rápido; na tradição do simples pipocar o milho servido na hora. Eis o milagre operado. Dona Clotilde fez o favor de selecionar coisas com sua malha para acalmar esses meninos atordoados com a prova do dia seguinte: exibindo um poder mágico, levantava de vez em quando a rede, e assim eles podiam visualizar com mais nitidez o ciclista pedalando suas rodas, de invenção preciosa e definitiva para a humanidade; um pequeno bago de cereal aquecido, tomando forma e gosto tão originais...levemente tocado, e desabrochado: atos poéticos, a percepção desses momentos especiais.

Agora sim, conseguiram, como o pássaro, se desvencilhar da aracnídea flutuante e rumar para casa, embora em vários pontos do percurso seus tentáculos os apanhasse. E já estavam mais atentos para o que, num ato de benevolência, a trama lhes pinçava. Assim, puderam ver, bem distantes, inebriados por uma visão de encantamento, os carros deslizando velozes nas pistas. Aquilo parecia um brinquedo de autorama, em proporções gigantescas, com uma profusão de luzes, piscando no escuro da noite. Quando não se espera, a poesia surge. Agora, mais lúdicos, depois de apreciarem a hora mais requintada do sol, ao descer, sem ainda se pôr: os grandes raios de luz morna cortando as árvores pelo tronco e as partes mais baixas dos prédios revestidos de pedra polida. Hora de beleza indecifrável- frágil instante - se não retido na memória, logo se desfaz... Chegando em casa assistiram ao espetáculo diário do ocaso, pela mesma tela de desenho rendado, extraído dos dedos de dona Clô. O céu, banhado por suavidades rosas e azuis, estava permeado pelo reflexo avermelhado da rede, que, aliás, nesse momento, Dona Clô recolhia, ao ouvir seu nome, chamado pela secretária.

Ela juntou a extensa malha, que coube na sacola de plástico, junto com o novelo de linha e a agulha. Apressou os passos e, enquanto entrava no consultório, pensou na felicidade da neta, recebendo, de surpresa, um novo pulôver.


Published at : 25-01-2017
Category : Short story