Notice (8): Undefined index: HTTP_ACCEPT_LANGUAGE [APP/Controller/AppController.php, line 55]
- O suicidário

O suicidário

Font Size:

Aos aquários os animais aquáticos. Aos partidários somente os animais humanos, ou melhor, os animalescos repartidos. E assim por diante. Este sufixo é um lugar associado com algo específico. Um lugar onde ser posto para ser visto exposto na vitrine. E, como é óbvio, a utilidade ou a inutilidade desta exposição varia conforme a perspectiva interior ou exterior ao lugar. No fundo, é uma diversão; não só de manobra, mas também de felicidade (e a muitas dimensões).

Poderão dizer que é uma selvajaria aprisionar e privar qualquer tipo de ser-vivo da selvagem vida que tinha anteriormente, mas o facto é que muitos gostam da atenção que lhes é dada. E ainda que alguma prisão seja fruto da índole que lhes foi redigida na auto-criação dos seres que são, a cela escolhida é a couraça perfeita para um espécimen sem a musculatura da liberdade. Ou então, é a célula do terrorismo dos argumentos que possuem, que alimento-vivo lhes dá até à obesidade maniqueísta.

Todos os bichos são reconhecíveis dentro destes lugares. São morfologicamente exactos aos que deambulam livres na Natureza. O que pode haver, devido à falta de espaço, é talvez algum encolhimento de um ou outro apêndice intelectual; tal e qual como a barbatana que se dobra sobre o dorso de uma orca dentro de uma piscina.

Para quem vê a bicharada em exibição, toda esta preguiça aparente tudo lhes pode parecer: talvez ciência, entretenimento, ou mesmo repulsa. E do espectáculo podem resultar aplausos, apupos, a conservação das espécies, ou mesmo o activismo pelo fim da escravidão animal. Não interessa, são pluralidades acarinhadas pela demagogia dos lugares que se cruzam, interessadamente.

Era bom que se conjugasse tudo num só projecto, onde protagonistas e visitantes fossem colocados em extrema interacção suicida: dois a dois de cada vez, para ver quem primeiro se mata de tédio. Seria, portanto, um projecto de duelo-inverso, mas livre de vidros, cercas ou arames; e numa floresta que tivesse entrada e que escondesse a saída. Na realidade, seria um documentário de presas e predadores de igual força; e onde o mito do escorpião e do anel de fogo fosse posto em prática.

Mas o lugar de projecção do auto-extermínio não teria que ser mortífero. Só teria que apagar, do mapa da privacidade, todas as cúpulas protectoras, todos os arcos e todos os "ários" (inclusive, os imaginários). Este lugar teria que desprezar qualquer tipo de lugar de exposição ao público a favor de um suicidário secreto. E tudo num espaço de abrigo natural, onde todos seriam naturais no processo natural de acabar com a própria vida que dá vida à morte-viva.

No suicidário habitaria a casta aversa aos sintomas falsos da auto-estima. Seriam misantropos de pensamento os habitantes, mas também simultaneamente acolhedores de quem pensa sem as travas da bondade esperta. Nesta casta, ninguém teria que aturar a ridícula importância que cada um a sí se dá por detrás dos limites em que se encerra. O suicidário deixaria que todos fossem desiguais, desagrupados e sem purezas de carrossel. Na falta de mirones, neste complexo, todos baixariam as asas de pinguim, porque o plano seria planar sem ser ao sabor das correntes. E, por último, ainda que a morte tenha lugar em qualquer lugar, o suicidário seria sempre o lugar onde os suicidas não morrem; vivem.

Published at : 31-01-2017
Category : Short story