Os Verdadeiros Solitários

Confissões sobre minhas relações com outros humanos

Font Size:

Olá, você que me lê.

Antes de dizer qualquer coisa que eu queira dizer, quero iluminar o caminho em que estamos pisando agora juntos. Esta é a primeira publicação de uma série de confissões, diários, observações solitárias e outras formas de pensar, pessoais, que eu projetei na minha cabeça, como já fiz várias outras vezes aliás, e não dei continuidade. Espero que algo diferente aconteça por aqui. Não sei por que aconteceria, francamente, mas, se estou investido na empreitada mais uma vez, agora em outra plataforma, alguma esperança deve haver na busca desse objetivo também um tanto obscuro - coisa de que quero muito tratar nesta possível série. Adianto que há uma espécie de vaidade, uma vontade de superar o limite desse vazio maravilhoso que eu encontro dentro de mim mesmo quando começo a me procurar anonimamente. Eu queria poder estar livre de tudo nos meus relacionamentos pra poder me relacionar de uma forma diferente, uma forma genuína, que me fizesse sentir estar falando comigo mesmo quando estivesse falando com outro, de modo que as distâncias físicas não passassem de um acaso, pois a mente estaria produzindo essa linguagem que produz, espontaneamente, de pergunta em pergunta, de inquirição em inquirição, sozinha, exatamente como faz agora, aqui, nestas palavras, só, dentro de mim. A propósito, é disso mesmo que eu quero tratar. Então a isso.

A primeira coisa que fiz por aqui foi comentar o texto de alguém que, por alguma conveniência, apareceu no início da minha experiência com Scribe, a plataforma online em que este texto foi compartilhado (nota particular). Eu não poderia tê-lo ignorado. Estava escrito bem grande "Eternidade". Havia algo religioso envolvido, no sentido dogmático, menções a uma tradição específica. Mas tratava do eterno. Tratava desse assunto tão estimulante e tão pouco estimulado.

Eu sei por que não é estimulado. As pessoas não se interessam por isso. Das muitas que se interessam, uma grande parte está confusa, e parte desses confusos tornou o assunto extremamente chato. Esse texto que eu li no Scribe, no entanto, parecia falar de algo real. Não sei se eu estava apenas de bom humor.

O fato é que esse assunto é produto de alguma coisa, e a coisa que o produz deve existir, seja apenas mais um brinquedo humano ou algo além e muito sério. Deve existir, ou seu produto não existiria. De uma forma ou de outra, porém, o caminho à resposta é uma estrada pra solitários. No regresso da viagem, os viajantes contam do que viram, e quem também viu sorri apenas por reconhecer algo das descrições do paraíso, mas sabe que não se pode ver pelos olhos do outro, nem ouvir pelos ouvidos do outro. A solidão é irremediável. Não por uma fatalidade, mas por perfeição.

Assim, não parece ser possível ter certeza se na relação há nós e impedimentos. Não estou seguro disso, pra ser sincero. Fico então com a pergunta: é possível estar seguro de que um relacionamento está livre e desimpedido de tudo? É difícil responder por também ser muito difícil encontrar pessoas honestas.

Tratemos de alguns pormenores, pra que não fique sombras de arrogância. Suponha que você tenha explorado um caminho sinuoso e obscuro pra dentro do seu coração, aos cantos inóspitos da sua consciência. Ali você encontrou todas as suas mentiras e segredos, todos os seus fingimentos e ilusões. Viu com clareza as sombras da própria vida, e isso foi justamente o que lhe permitiu ver uma luz intensa de algo verdadeiro, além do arcabouço da sua identidade. Não há mais farsas. Que haja ignorância, mas não farsas. Tudo sobre você é confessável, e não há mais medo de vergonhas, nem temores de condenação. O personagem está morto, e agora só o que vive é o ser atuante. Se você verdadeiramente já se explorou assim, sequer precisa supor.

Com isso em mente, note com clareza o fato: é muito difícil encontrar pessoas honestas.

Encontrar pessoas honestas vale a vida inteira. O simples encontro vale ter nascido. Porque as verdades que se revelam nesse encontro iluminam a mente. Primeiro se alcança isso sozinho, e depois se compartilha isso com outras pessoas. Falar do que há por dentro é mágico, requer um alto nível de vitalidade, e isso caracteriza a honestidade de que falo.

Eu quero que leiam estas palavras. Assim que eu terminar de escrever isso tudo, a vontade passa logo, porque eu esqueço, mas, embora eu escreva pra mim mesmo e leia sozinho minha própria mente, há coisas que eu queria que lessem, como estas palavras. Não por mera vaidade, mas porque aqui há algo daquilo que eu gostaria de ver por aí.

Às vezes eu caço outros solitários apenas pra assistir seu pensar, tão encantador. Talvez, depois disso, buscar algum contato, pra compartilhar a jornada e notar que é a mesma, falar do caminho e das passagem, das paisagens e das delícias, por prazer, porque é bom, por haver amor nisso. Mas é muito difícil encontrar pessoas honestas, e quando se as encontram, elas se escondem quando se vai tentar falar com elas. Subitamente elas se tornam muito iguais às que encontramos no ponto de ônibus, ocupadas demais pra assistirem formigas carregando folhas, por exemplo.

Eu sei que há as desculpas, as justificativas - não falo com cinismo, são todas justas mesmo, e realmente DESculpam -, mas o que estamos fazendo? O que estamos fazendo sozinhos enquanto fingimos não estarmos? Olhar pra isso, simplesmente olhar, meramente observar este ser que se envenena que nós somos, a pura observação disso é tão maravilhosa!

Eu busco com sede esses buscadores. Só porque é bom, porque é gostoso vê-los. Eles tornam até a minha vida mais leve com a leveza do seu próprio caminhar.

Eu gosto de escrever cartas anônimas. Escrevo e as deixo por aí, nos ônibus, nas mesas de restaurantes, nos buracos de tijolos nas construções mal acabadas de casas da periferia de São Paulo. Isso liberta essa relação e a transforma em algo novo, íntegro. Torna-a pura como eu gostaria de transformar todas as minhas relações. Quem não tem meu nome, minha identidade, só a coisa que vive, está só, completamente só, e eu posso assistir essa solidão, participar dela, porque eu sou só mais um, outro humano, solitário e anônimo. É isso que me liberta. Estou sempre buscando que possa querer disso que eu quero.

Published at : 05-03-2017
Category : Articles and Opinion