A Casa

Lar é onde o amor está.

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Era uma casa muito engraçada

Não tinha teto

Não tinha nada

Ninguém podia entrar nela, não

Porque na casa não tinha chão...

Vinícius de Moraes, 1970


Quando Toquinho e Vinícius compuseram essa música, mais do que a proeza de nos fazer pensar em uma casa inexistente, eles, sem saber, descreveram à habitação de um relacionamento destrutivo. E mesmo sendo inabitável, muitos se aventuram e tentam construir essa casa onde ninguém pode entrar.

Aqueles que tem a coragem de tentar transformar essa casa em lar -por alguma razão que eu desconheço- não estão cientes que a natureza dela é autodestrutiva. Essas pessoas de coragem (ou de grande covardia) são surdas e cegas: não escutam os gritos dos amigos, da família e da intuição que dizem NÃO. E também não conseguem ler o endereço da casa: RUA DOS BOBOS, n° 0. E, assim seguem determinados a edificar a destruição.

A verdade é que não importa quanto tempo seja empenhado na construção de uma fundação de confiança ou na pintura das paredes com respeito: tudo vai desmoronar. Mais cedo ou mais tarde, uma agressão verbal vai fazer cair o telhado da dedicação, mesmo que você tenha passado dias colocando telha por telha com muito esmero. Não demora muito, uma agressão física vai emperrar as janelas que te deixam ver o mundo e impedir que a luz da vida entre. Você e a casa, com certeza, ficarão sem chão depois da primeira traição; mas é bem provável que você invista uma boa quantia de fé em porcelanato para tentar cobrir o buraco que ficou.

Porque uma casa que não-é não vai te permitir viver lá. Ela vai te expulsar sempre, mesmo que você acredite que ela ainda pode ser construída e reconstruída, e reconstruída, e reconstruída...

A casa de engraçada não tem nada para quem tenta habitá-la. Ela é bem triste. E feita para bobos mesmo morarem. Porque só pessoas bobas moram em uma casa que não abriga a alma e nem o coração, só para dizerem que tem uma casa para morar, um endereço para receber a correspondência, um status de relacionamento no Facebook. Não percebem que viver em paz e ao relento é bem melhor que a constante adrenalina da destruição. Dormir na rede de alguém que tem paredes para sustentar o seu sossego é melhor que tentar construir aquilo que nunca será. É melhor não ter casa para morar do que viver desabrigado dentro da ideia de lar.

E, por que os bobos demoram-se tanto em casas que não protegem da chuva da existência, com seus dias tempestuosos? Por qual motivo desavisados entram nessas casas que ninguém pode entrar? E, às vezes, nunca saem? Talvez, porque reconstruir aquilo que será destruído seja tão obsessivo e os mantenha tão ocupados, que eles não tenham tempo para perceber a vida que existe fora da casa. E a casa que precisa de constantes reformas se torna um esconderijo perfeito para os protegerem das infinitas possibilidades de uma existência plena.

Quem entra nessa casa, de corajoso não tem nada. Corajoso mesmo é quem encara os fatos depois que a surdez e a cegueira passam. E a hora de ir embora chega.

Parece óbvio, mas não é nada fácil abandonar a casa. É difícil largar a certeza de um relacionamento abusivo. Por pior que seja, ele é sempre certamente infeliz, e é certo que tudo terá que ser reconstruído  todos os dias. Infelizmente, somos seres de hábitos e até aquilo que é certamente horrível pode ser chamado de segurança para quem mora na rua dos bobos.

Ainda bem que, em algum momento, a porta dessa casa fica tão destruída com os chutes constantes das mentiras, que a verdade se escancara para quem quiser ver: aqui não existe um lar! E, quando isso acontece, o jeito é ir embora, e abandonar os sonhos de construir a casa que nunca foi e nunca será, mesmo que a porta ranja de dor na saída. 

A obstinação, a coragem e a força costumam ladear o caminho de quem sai da casa. Alguns milagres também costumam cruzar o caminho, soprando o vento para outras direções. 

Mas, a triste realidade é que sair da casa não é o "final-feliz". Quem a habitou acaba carregando-a por um bom tempo na alma. E vagueia pelo mundo sem chão, sem parede, sem teto, sem pinico, sem nada até se reconstruir e ter alguma estrutura para edificar um lar em outra fundação. Bem longe da rua dos bobos...

 

Published at : 06-03-2017
Category : Short story