Quanto mais me dedico, mais quês apreendo.

Font Size:

Concordo, em gênero e número, com a posição dos que consideram Machado de Assis o maior escritor do Brasil. Se bem que o prefira cronista a contista, e contista a romancista, a cada texto que devoro, delicio-me com sua criatividade e originalidade, e aprendo muito com sua técnica e invejável cunho português.

Daí ter ficado muito feliz quando li a notícia de que o dramaturgo Toni D’Agostinho iria reinventar o conhecidíssimo conto O alienista, com peça que estreou em 08 de março, no Espaço Parlapatões (Praça Roosevelt, 158, Centro), sendo estrelada por Willian Germano.

Como é sabido, o conto narra a trajetória do Dr. Simão Bacamarte, o “filho da nobreza da terra e o maior dos médicos do Brasil, de Portugal e das Espanhas”, que, buscando com avidez descobrir as causas da loucura, acaba se mudando para a então vila de Itaguaí, e nela consegue edificar a Casa Verde, um imenso asilo com cinquenta janelas verdes (daí o nome do estabelecimento) por lado, um pátio central, e vários cubículos para hóspedes, tudo para que seus futuros pacientes possam ser devidamente estudados e curados.

“- A ciência, disse ele a Sua Majestade, é o meu emprego único; Itaguaí é o meu universo.”

Aqui abro um parêntese e me solidarizo com aquele povo sofrido, pois ontem, assistindo ao noticiário na TV, vi Itaguaí amanhecer com uma fila quilométrica no primeiro dia do processo seletivo para vagas em escolas e creches, graças à escabrosa crise que ainda se abate sobre o nosso país.

Era de dar dó. A fileira de candidatos dava voltas...

Força, ó itaguaienses! que esse triste episódio da nossa história haverá de passar em breve tempo.

Retornando àquele conto, nem se precisaria dizer que quanto mais o alienista buscava a cura dos que considerava loucos, mais ele descobria patologias fora dos limites da Casa Verde. E, pasmem, acabou por internar nada menos que quatro quintos dos habitantes daquele vilarejo!

É claro que não contarei o final dessa trama... Se bem que agora me lembra (como dizia Machado) um comercial que mostrava uma fila de pagantes prestes a entrar no cinema, e que estão na maior expectativa para se deliciarem com um novo filme. No entanto, um garoto muito do estraga-prazeres passa rente e cantarola:

“ - Ele morre no final, ele morre no final...”

Antes, porém, desse deslinde, acho interessante mencionar que, justamente por me considerar machadiano até a raiz dos cabelos, quanto mais a ele me dedico, mais lhe apreendo alguns quês inusitados. Assim, venho vindo (novamente meu ídolo...) observando pormenores que talvez escapem aos leitores mais afoitos. Um deles, notei-o conforme se desenrolava O alienista.

Para se referir aos registros que embasariam os fatos acontecidos no conto, o narrador usou expressões como “dizem as crônicas...”, “as velhas crônicas...”, “acrescentam os cronistas...”, “todos os cronistas...”.

Ocorre que esses artifícios aparecem a mancheias, sendo seis vezes com a palavra crônicas (e mais uma, só que no singular), e oito, com o termo cronistas! Ora, mesmo que o conto seja longo – contém XIII capítulos –, essa repetição faz-se sentir, e ressentir, o que acaba arranhando uns e outros olhos, e ouvidos, mais investigativos.

O Bruxo do Cosme Velho teria, portanto, cometido simples deslizes ou a ideia que tentava passar seria tão hermética que não admitiria outros vocábulos?

A propósito, quando lia a crônica de 18 de março de 1894, o nosso sempre Machado falava sobre Homero e sua Ilíada, e mencionava alguns de seus principais personagens, tais como Aquiles de pés velozes, Diomedes, os dois Ájax, Ulisses de mil ardis, Pátroclo e o glorioso Heitor do elmo faiscante.

Só que ao se referir ao deus mais poderoso do Olimpo, cita Júpiter ao invés de Zeus. E quando se refere ao ferreiro dos deuses, menciona Vulcano, e não Hefesto.

O filho mais dileto do Morro do Livramento não abria mão da sua predileção quanto ao panteão romano ou também pensaríamos em uma desculpável escorregadela?

As respostas, que em verdade resumem-se a apenas uma, creio tê-la encontrado imersa em um novo conto, e que será publicado daqui a algum tempo. Até lá, que demos asas às nossas conjecturas!...

+

Published at : 13-03-2017
Category : Articles and Opinion