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- Tudo a seu tempo.

Tudo a seu tempo.

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Tudo a seu tempo.

Pode parecer absurdo o que vou contar, mas eu, varginhense de nascença e coração, e, portanto, acostumado com histórias de alienígenas, tive que dar o braço a torcer e acabei reconsiderando todas as minhas prevenções depois que passei o feriado de Corpus Christi em Monte Alegre do Sul, no interior do Estado de São Paulo.

Mas, calma! ao contrário do que se deduz à primeira vista, não se trata, aqui, de mais um conto sobre óvnis cabeçudos ou sobre abduções traumáticas. Refiro-me à descoberta do pequeno Seamus Ó Conaill...

Sempre fui apaixonado por períodos de descanso. Aliás, faço questão de repetir, se um dia tivesse um casal de cães, o macho chamaria Feriado, e a cadela, Férias. É claro que se animais tivesse, preso a eles ficaria, e, em princípio, não mais poderia conjugar o verbo mais prazeroso da vida: viajar. Portanto, essa condicional jamais alcançará o patamar da promessa.

Seja como for, e porque sigo conhecendo novas estâncias hidrominerais visando a um catálogo, o acaso, ou o destino, me levou àquela charmosa e pacata cidade.

Como sou chefe de mim mesmo, solteiro e não tenho filhos, enforquei a quarta-feira e peguei a estrada quando o sol nascia. E como dirigisse sem a mínima pressa, cheguei na Cidade Presépio lá pelo entardecer; e fui direto à pousada em que tinha feito a reserva.

Estava cansado por dirigir muitas horas, é verdade, mas entusiasmado o suficiente para não ir dormir. Um banho, não o neguei antes de jantar; e estava famélico!

Um passeio despreocupado foi, sem dúvida, a melhor escolha que tive depois que sorvi o cafezinho, pois a noite estava agradável e não prometia chuva, o perfume dos resedás brancos e rosas brigavam entre si pela supremacia, e o pequenino e charmoso centro em tudo revelava aconchego e respeito ao patrimônio histórico.

E como relembrasse o aroma da cachaça, parei em um boteco que teimara em não fechar. Degustei da branquinha, recusei os petiscos porque saciado, e me entreguei às inteirações. A lagoa, com seu chafariz, seus gansos, patos, peixes e tartarugas, a fonte de água potável que lhe é adjacente, e, além, o balneário recém-reformado seriam, por certo, e por dever de compilador, as minhas primeiras visitas. É claro que, como de costume, deixaria os banhos para o período da tarde, quando já estafado de uma longa caminhada. Mas, coisa curiosa, a Fonte da Índia foi a sugestão que mais me cutucou.

No dia seguinte, depois de me deliciar com um belo café da manhã, parti sem demora rumo ou meu destino, onde, garantiu-me o zeloso gerente da pousada, o prazer de alimentar os animais contagiava até os mais insensíveis. Para tanto, foi logo me aprovisionando de meia dúzia de pães adormecidos, três maços de alface, couve e azedinha, e uma generosa porção de quirera.

É claro que não seria a primeira vez que daria de comer aos insaciáveis habitantes de um pequeno lago numa cidade do interior, e, portanto, este ritual carecia, e muito, da deliciosa excitação que a novidade proporciona. No entanto, a solicitude que me foi dispensada por aquele senhor tocou-me fundo ao coração, e foi suficiente para que, de muito bom grado, fosse eu contribuir para suavizar o apetite do reino animal.

Depois de distribuídas as provisões – e, sou obrigado a confessar, sorri tanto ou mais que uma família de cariocas que se divertia da mesma maneira –, uma como coceira aguçava a minha curiosidade. E decidi ir até a Fonte da Índia.

De onde estava até a estrada de terra batida que me levaria àquela fonte, poucos eram os quarteirões. E como andasse um tanto ansioso, logo a alcancei.

Não era o único a desfrutar desse passeio, pois esse hábito já se enraizara em muitos dos turistas e moradores, mas isso em nada me incomodava, porquanto trocar um e outro bons-dias, mesmo que por mera educação, sempre gratifica e é preferível à malfadada sisudez.

No trajeto, não pude deixar de me impressionar com um instituto de pesquisa batizado como Fazenda da Estação Experimental, um conjunto de edificações composto, na maioria, por casas térreas muito bem conservadas e cuja arquitetura, depois confirmei, remonta à década de 1940.

E não é que, por agradável surpresa, um casal de seriemas também assomou àquela paisagem, presenteando os caminhantes com o seu famoso “dueto de gargalhadas”? Depois que se calaram, e se esconderam, continuei andando.

Ao chegar àquela nascente, compreendi o porquê de seu nome. Um esplêndido painel azulejado representava uma belíssima índia vestida com uma tanguinha de penas e com os seis nus, e que, dirigindo o seu olhar para o alto, chorava copiosamente e implorava ajuda de braços erguidos. O motivo, a placa no frontispício esclarecia: “Desditosa no seu grande amor, Obirici suplicou aos céus que perpetuasse na Terra a memória de sua dor. Condoído, Tupã deu à humanidade o bálsamo das lágrimas e do pranto que pela primeira vez brotou dos olhos de Obirici, originando-se as fontes cristalinas e murmurantes...”

E bebi de uma água límpida, gélida, deliciosa! Matada a sede, e fulo de raiva por ter esquecido o cantil sobre a cama, passei a admirar, no outro lado da rua, a última casa daquele instituto e que, pelo extremo da conservação, deduzi que se destinava à chefia.

Quando me preparava para voltar, aquela mesma coceira que me estimulara na lagoa ressurgia de inopino, e fez com que me reaproximasse da fonte. No entanto, minha curiosidade desdenhou do previsível, desviando-se da beleza da indígena e ignorando a vertedura da água, e foi pairar atrás do painel.

É verdade que me achei um tanto tolo, sobretudo quando minha bisbilhotice foi interrompida por duas senhoras que ali chegaram. E que me perdoem a brincadeira, mas, pela expressão que me lançaram, tenho certeza de que pensaram que vertia água.

Mantendo-me firme à minha inocência, saí detrás da fonte. Só que antes de fincar os pés na estrada, pensei ter visto algo que para mim inexistia: um trevo de quatro folhas. Não que desse a isso uma importância excepcional... Afinal, nunca fui supersticioso. Mas como sempre levei comigo uma recordação dos lugares que visitei, nada melhor do que trocar o habitual ímã de geladeira por uma lembrança que diria exótica.

No entanto, por ter me movido muito rápido, e como para qualquer canteiro que se olho lá estão os trevos de três folhas a crescerem incontroláveis – uma praga que, ao que parece, só não desabrocha na Lua –, achei que tivesse me enganado, e, dando de ombros, guardei minha inclinação para suvenires.

Fosse como fosse, o desconforto causado pelos olhares repreensivos daquelas senhoras me encheu de saudade daquele cantil, e foi a deixa para retornar à pousada.

A manhã passou veloz, e o almoço veio na hora certa. E que repasto! Creio que nababesco seria o adjetivo que mais o qualificaria. Por isso, tratei de equacionar o tempo necessário a uma bela comilança, o imprescindível a uma boa digestão, o indispensável a um banho de imersão e a uma ducha escocesa, e o que me sobraria até as termas fecharem as portas. E como a solução me fosse favorável, comi feito Epicuro e bebi como Baco.

Quando saí do balneário, sentia-me outra pessoa, revigorado! E como a classificação se dá pelo conjunto – acomodações, maquinário, higiene, características da água, educação e vestuário dos funcionários, preços, etc. –, a nota que lhe atribuiria em meu catálogo não poderia ser outra: cinco estrelas douradas.

De par com essa satisfação, e aqui comecei a ficar preocupado, uma outra comichão de curiosidade irrompeu no exato momento em que dava o primeiro passo em direção ao centro histórico, e, lance absurdo e revoltante, desta vez fazia-se ouvir sem meias-palavras: precisava confirmar se o que entrevira atrás da Fonte da Índia era ou não verdadeiro.

Daí me perguntei, e por três vezes: Como um espeleólogo, pós-graduado, fluente em dois idiomas, leitor assíduo dos principais jornais e revistas deste país, um homem esclarecido, enfim, podia estar profundamente desassossegado com o número de folhas de um reles matinho?! E o pior é que estava!

Retornei àquela fonte munido de uma lanterna, pois entardecia. Com o crepúsculo, a estrada fez-se erma, o que para mim foi conveniente, uma vez que já pagara mico suficiente com aquela micção putativa.

Confesso que estava irrequieto – menos pela vergonha que pela expectativa –; e passei a varrer o local com a luz. Só que ao contrário do que esperava, um aglomerado de trifólios, parecia haver um único e solitário trevo que, sufocado por plantas que lhe eram bem maiores e mais ramificadas, pouco se revelava à minha visão. Decidi abrir caminho com a mão esquerda, mas me guardei da ansiedade, posto que receoso pela fauna em que poderia esbarrar.

Afastados alguns ramos, e o trevo mostrou-se como realmente era: tinha, sim, quatro folhas!

Ante essa “fabulosa” constatação, e como me voltasse o senso do ridículo, só me cabia um singelo comentário, e que dei sob a forma de um tímido sorriso, mescla de satisfação e inutilidade.

Ora, como, a meu ver, desperdiçava tempo precioso – poderia estar desfrutando de outras atrações turísticas, deleitando-me com comida, bebida, ou, até, paquerando alguma linda monte-alegrense –, resolvi, creio que por mero desagravo, que minha carteira merecia uma prenda.

Mas como me viesse a ideia de replantar aquele trevo e de levá-lo comigo para Varginha, onde ostentaria esse raríssimo exemplar aos meus amigos – bem mais às minhas amigas lindas – como um justo troféu à minha perigosíssima e desbravadora expedição noturna em pleno vale do Rio Camanducaia, na Serra da Mantiqueira, tratei de segurar o caulículo com o máximo cuidado, pois teria que arrancar intactas as raízes.

Neste exato momento, e como antecipei no início deste relato, tudo aquilo em que não acreditava, e de que desdenhava, começaria a ruir diante dos meus olhos; se bem que só me conscientizaria disso com o passar dos dias. Explico-me:

Quando comecei a puxar aquele trevo, ouvi, em um português com sotaque, a seguinte ordem:

- Ei! Larga o meu chapéu!

Não preciso dizer que o susto foi suficiente para soltar um vergonhoso grito, abandonar a lanterna à pirueta, trançar os pés à Presidente, estatelar de bruços e comer areia, e debandar para o outro lado da estrada arrastando-me sabe lá Deus com que forças.

Os arbustos e meu rosto disseram-me que atravessara o caminho, o que me fez virar e sentar com as pernas retraídas, em atitude de defesa. Só pensava em ficar quieto; se bem que ofegasse tanto que isso me era impossível. E fixava a lanterna que, ainda acesa, iluminava a esmo.

Como os segundos passavam, e o silêncio permanecia, a descarga de adrenalina foi-se diluindo, o que me permitiu recobrar o autocontrole e relembrar que garotos travessos adoram assustar curiosos desavisados. E essa ideia me deixou furioso.

Levantei altivo, fui até a lanterna, a pé firme, apanhei-a sem pressa, retornei para o meio da rua, e varri o local à procura do safado do gracejador. Não que fosse estrangulá-lo... Mas um cascudo dado com esmero seria a desforra que convinha.

E como retornasse o foco de luz para a fonte, percebi o movimento dos arbustos.

- Ah, moleque, – disse com a maior das espontaneidades – sai daí agora mesmo, se tem amor às orelhas!

- Fica calmo. Não precisa usar de violência. Vou até você.

Num primeiro momento, pensei que a luz refletisse um anãozinho que, desajeitado, tentava vencer o emaranhado de mata nativa que lhe dificultava a locomoção. Mas quando se desfez dos impedimentos, e se postou diante de mim, achei que meus olhos me pregavam uma peça, pois o que via não podia sequer ser verossímil.

Como lhe fixasse ainda mais os olhos, e isso para me convercer do que realmente via, ainda tive que engolir um seu espirituoso motejo:

- Ó, São Tomé, se quiser eu dou três pulinhos.

Não teria mais que trinta centímetros. O cabelo, à negligé, e a barba, à Abraham Lincoln, eram de um vermelho afogueado. O casaco e as calças, que dobravam nos joelhos, eram verde-claros, assim como o chapéu armado, que era adornado por uma faixa preta e uma fivela dourada, adereço este que também compunha o cinto e os sapatos, ambos negros. Já a camisa e as meias eram brancas.

Mesmo ainda não acreditando no que via, ou no que ouvia, arrisquei puxar assunto, mas sem me preocupar com o verbo ou com o complemento:

- Você...?

- Chamo-me Seamus Ó Conaill, um legítimo filho da Irlanda; e um seu criado.

- Você?... é um duende?!

- O correto é leprechaun. – E como minha estupefação apenas iniciava, Seamus replicou, com o mesmo timbre mofador, e meneando a cabeça e a mão direita:

- Pote de ouro?... Final do arco-íris?... Por St. Patrick, homem, nunca leu o conto medieval Echtra Fergus Mac Leti?

E como persistisse o meu silêncio, acrescentou desapontado:

- Nunca assistiu a desenhos animados?

Como posso tentar explicar o que sentia naquele momento?... Hoje, vejo que seria infinitamente mais fácil traduzir, na palavra escrita, a dor do parto ou da cólica renal. Mas o fato é que eu lá estava, imóvel, incrédulo, diante de um folclore irlandês ambulante e gozador, e que, não fazia questão de esconder, bocejava de vez em quando à face do sono interrompido.

Era preciso, pois, que eu tomasse uma atitude, a mais racional e rápida possível. Assim, achei que um bom beliscão me faria acordar e recobrar a já saudosa lucidez. O ai que soltei, contudo, estrepitoso e apatetado, teve o condão de, em mim, confirmar o estado de vigília e de produzir um enraizado e memorável hematoma; e nele, o de arrancar uma risada espontânea e o de gerar um comentário ininteligível, porque em língua céltica.

Ora, como não se encontram leprechauns todos os dias, e me refiro aos que se gabam da função respiratória, custava-me crer – e, ser obrigado a admitir – que esse fato realmente ocorria. Não por isso que ainda fiquei um bom tempo a me questionar, a me testar e a me tapear.

Foi quando Seamus resolveu intervir:

- Ora, por St. Patrick, para com essa descrença! – e eu me estacava – Quero lembrar a você, jovem... Qual é mesmo a sua graça?

- Eduardo; mas – e me contorcia pelo que deixava escapar –, os amigos me chamam de Dudu.

- Pois bem, quero lembrar a você, Dudu, que eu estava dormindo e sonhando com a minha querida Irlanda, quando você, Dudu, me acordou de repente e sem a menor cerimônia. E agora fica aí, dando uma de incréu, e bem debaixo da minha barba.

- É que... - Seamus me cortava:

- Ah, se tivesse seguido o sábio conselho do meu avô!... “Vai conhecer a Patagônia”, disse ele em alto e bom som. Mas, não, quis ser turrão, e escolhi este pedacinho do Brasil, onde, supunha, poderia curtir a natureza, aproveitar de suas águas e revigorar-me com noites de um sono embelezador.

- Mas?... – E me atalhava de novo:

- Bem que eu fiquei cismado quando, na falta da usual labaça, resolvi encantar o meu chapéu, moldando-o à forma de um trevo de quatro folhas. Ah, bairrismo; oh, tola vaidade... Meu propósito era, como sempre, ocultar-me o melhor possível, e, com isso, poder dormir sossegado. Mas, como não me dei ouvidos, eis que fui descoberto, pois se confirma o fato de que nenhum caminheiro deixaria de levar consigo um desses raros espécimes. Ah, Seamus, quantos séculos serão precisos para que você se convença disso?

- Senhor?... – O tagarela não me dava brecha:

- Seja como for, eu pergunto a você, Dudu: Qual seria a melhor forma de você se redimir, ou, dizendo de outro modo, como poderia você me compensar por ter perturbado um momento sagrado das minhas merecidas férias?

- Leprechauns tiram férias?!

Seamus me explicou, e um pouco contrariado ante o desvio da conversa, que, como todos os de sua espécie, exerce o ofício de sapateiro das fadas. Tal ocupação impõe uma árdua jornada – no máximo dois sapatos por ano. Ora, como já fazia quatro séculos que não descansava, e como o sindicato a que está filiado pouco ou nada fez pela classe, o médico o aconselhou a tirar férias, e com a máxima urgência, pois os cacoetes e a queda de cabelo que lhe relatara eram os primeiros sintomas de uma terrível e talvez irreversível sina. Se quisesse, pois, ver crescerem os netos, que viajasse e se desestressasse.

Era, sem dúvida, o fato mais extraordinário a que eu já presenciara em toda minha vida! Lá estava eu, acordado, sóbrio, e na plenitude das minhas faculdades mentais, parado diante de um ser que achava imaginário, mas que, na verdade, era bem real, e que conversava, explicava, justificava, troçava, e, até, exigia de mim uma compensação pelo abuso de que se achava vítima!

O espanto que desde o princípio me dominava já se tinha ido, pois a lábia do baixinho era mais que cativante. Aliás, tão à vontade ficamos que só me faltava sentar e cruzar as pernas para melhor conversarmos. Foi o que fiz, e ele agradeceu, pois que já receava um malfadado torcicolo.

De sua parte, Seamus se assentou numa pedra, retirou o pincenê da algibeira e o ajeitou no nariz, e acendeu o velho e prazeroso cachimbo. Um toque de saudade perpassou-lhe o semblante. É que o inseparável amigo de labuta, o desgastado martelo, ficara na Irlanda sob os cuidados de seu pai.

É de se ver, porém, que não se abafa a cupidez por muito tempo. Daí Seamus retomar aquele tema que há pouco pleiteava: o ressarcimento.

Ocorre que minha mineiridade identificava-lhe a má-fé. E resolvi responder à altura:

- Bem, se for para falarmos de quantias, creio que o susto que levei ao descobrir que você existe, que me fez trançar as pernas e me levou ao chão, e que implicou, além da taquicardia, várias equimoses, escoriações, lesões e fraturas, tudo isso seria suficiente para que, sopesados os danos, você passasse de credor incompassivo a devedor em mora. E já que mencionou aquele pote de ouro, lá no fim do arco-íris...

- Está bem, está bem... – desmascarava-se o gnomo – Não falemos mais em indenizações.

Neste momento, começava a recordar aquelas inexplicáveis sensações que tanto me incomodaram desde que chegara à estância, e, como que constrangedoras, conduziram-me à Fonte da Índia sem que pensasse em oferecer-lhes resistência. E resolvi esclarecê-las.

E como lobrigasse a reação, Seamus passava de fumegante a engasgado, o que me levou a acudi-lo, dando-lhe algumas batidinhas nas costas, levantando-lhe os braços e insistindo para que respirasse profunda e pausadamente.

Em que pese a noite que se ia espessa, a confissão se mostrava clara como o dia, o que me levou a sentar novamente e a esperar que ela apenas fosse sintetizada.

- Pois bem, Dudu, não posso mais me furtar a um esclarecimento. Fui eu que, sem me deixar ver, provoquei o nosso encontro. Precisava de um chamariz e trevo de quatro folhas foi o melhor que me veio à mente. Joguei a isca e fisguei o peixe; só isso.

- E o que você pretende? E por que eu? A propósito, você nunca esteve de férias, não é?

- Não é verdade. Estou de férias sim. Apenas que...

- Que...?

- Resolvi unir o útil ao agradável.

- Explique-se.

Como, porém, o sereno já incomodava, e nossas barrigas roncavam, Seamus se esquivava e pedia para que conversássemos em um lugar mais confortável. A sugestão da pousada foi pronta e categoricamente rechaçada. Eu não queria me arriscar a ter que dar mais de uma explicação. No entanto, graças ao choramingo e à insistência irlandeses, acabei cedendo, mas sob duas reservas: que ele se mantivesse invisível e só falasse quando estivéssemos a sós.

O leprechaun ergueu a mão direita, e, com o semblante galhofeiro, saudou-me à Sr. Spock; e jurou enfaticamente que não me imporia nenhum dissabor. Eu não via os dedos indicador e médio da outra mão que, entrelaçados e escondidos atrás das costas, de forma alguma corroboravam a solene promessa.

Assim que nos pusemos a caminho, Seamus desapareceu, restando-lhe, contudo, a voz inconfundível.

Passo após passo, eu me esforçava para não parecer louco ante as poucas pessoas com quem cruzava, pois uma coisa é você ter o hábito de falar sozinho; todos já vimos e desculpamos esse comportamento. Mas outra, bem diferente, é você ter a convicção de que está conversando com um ser que não se vê, mas que é real, e que deixara os contos de fadas para gozar das férias em uma cidade do interior. E se alguém discorda, que tente se colocar no meu lugar por um só instante, e verá que tenho razão.

Chegamos bem na hora do jantar. A pequena sala onde serviam as refeições estava praticamente lotada, haja vista o aroma e a quantidade de pratos que jaziam à disposição dos hóspedes. Mas como me viesse à mente um certo receio, como que uma advertência lançada não sei de qual recanto da consciência, resolvi atravessar o cômodo como se estivesse vazio e ir direto ao meu quarto, para de lá pedir a refeição, alegando mal-estar.

O problema é que Seamus não concordou com a minha atitude, e quando coloquei o pé direito na escada, pois meu quarto ficava no andar de cima, um assobio estridente, desses que se consegue levando-se os dois mindinhos à boca, teve o condão de não só me refrear, como também o de calar o burburinho e o de representar uma inquietante indagação nos comensais e funcionários, visto que, se convergiram para o foco – um mesa de dois lugares esquecida no canto –, o autor permanecia desconhecido.

Ainda bem que Seamus não gritou chamando o meu nome, nem se fez visível como a melhor me indicar os assentos que sobraram.

Aos poucos, o bulício retomava o ambiente. Fato que sugeria apossar-me daquela mesa antes que um outro sibilo, talvez mais agudo que o anterior, viesse causar debandada geral, ante o dedutível inconformismo de um fantasma mal-humorado.

É desnecessário dizer que mais de um olhar para mim se dirigiu quando lá sentei. Mas fiz que não era comigo e tratei de chamar quem me atendesse.

- Vê se faz um prato bem, mas bem cheio – disse Seamus, a baixa voz, notando o faustoso bufê –, pois posso ser pequenino, mas como feito um urso.

- Fica quieto. – respondi de canto de boca.

- Em que posso ajudá-lo? – perguntou o garçom.

- Eu queria uma cerveja. Ai!... – Era o bico de um sapatinho, duro feito pedra, que veio de encontro à minha canela.

- Algum problema, senhor?

- Não, nada não; foi só uma dorzinha passageira. Por favor, traz uma cerveja, e, um suco de laranja...? – Como adivinhar o gosto de um leprechaun? Os poucos segundos que mediaram o ar expectante do empregado e a incolumidade da minha canela pareceram ser a resposta que aguardava.

- Com ou sem açúcar?

- Sem...? Ai! Com açúcar.

- Com ou sem gelo?

- Com...? Ai! Sem gelo. – E tirava minha perna do alcance dos chutes.

- O senhor não é muito decidido, não é mesmo? – Retrucava o funcionário em tom de brincadeira, crendo que aderia à minha boa disposição.

E como não houvesse mais a esclarecer, pois não se falara em couvert, lá se foi o funcionário; decerto se interrogando sobre a minha excentricidade quanto à bebericação.

- O que foi que nós combinamos, hein? – Perguntei com o mesmo canto da boca.

- Um Ó Conaill jamais descumpre o prometido. Salvo, é claro, se não for bem atendido.

- O quê?! – Ante a minha brusca contrariedade, um e outro dos presentes olharam para mim, desconfiados. E como me faltassem justificativas, um tossido foi ao que pude me apegar; e me abanava como a rematar a encenação.

Chegaram as bebidas, e, por óbvio, tive que esperar o garçom se afastar para recolocá-la defronte a Seamus. Ocorre que algumas questões surgiram em minha mente, e, antes que algo acontecesse, achei necessário formulá-las, sempre buscando disfarçar:

- Só por curiosidade, como é que você vai beber esse suco? E quando o rapaz trouxer a comida, como é que vai ser?

- Como assim?

- Ora, você está invisível, mas o suco e a comida não. Eles flutuarão até a sua boca e desaparecerão dentro dela ou todo mundo verá as goladas e a mastigação? – Alguns segundos se passaram até que Seamus respondesse:

- Sabe que eu nunca pensei nisso? E não faço a menor ideia do que vai acontecer.

Mais que depressa, retirei a taça do seu alcance, e, aperfeiçoando-me na ventriloquia, tentei convencê-lo de que fôssemos jantar no quarto. Prometi levar um prato de titã para saciá-lo, e, se isso não bastasse, mandaria trazer tantos quantos fossem necessários.

O leprechaun recusava-se, pois, dizia, sua fome não sabia esperar. A escamoteada discussão tomava corpo e, por isso, tornava a chamar a atenção. E mais periclitante ficou quando percebi que Seamus segurara o copo e o puxava para si. Foi questão de microssegundos, mas consegui agarrá-lo e lhe opus resistência. Como sou mais forte, venci o cabo de guerra, o que não me valeu nenhum galardão, pois a taça bateu na tulipa e ambos os conteúdos entornaram sobre a minha camisa e short.

Em face do automatismo, da universalidade e do agitamento da reação – afastar-se bruscamente da mesa, levantar-se com rapidez, pegar o guardanapo mais próximo e enxugar-se o máximo possível –, o incidente se tornou de todos conhecido, o que levou a um desconfortante silêncio a sala de jantar. Menos mal que o falatório não demorou a ressurgir.

O mesmo garçom que me atendera veio rapidamente em meu auxílio. E tudo seguiria o seu ritmo, não fosse aquela risadinha abafada e entrecortada que, vinda do outro assento, impunha-nos distintos semblantes: em mim, uma alienação fingida, e que mais a enaltecia; no funcionário, uma paúra crescente, e que menos a desestimulava.

E como previsse o entornar do caldo, tratei de pedir ao garçom que se fosse, visto que, para mim, já estava tudo muito bem limpo. É claro que ele não esperou por minha insistência, e, persignando-se, correu para a cozinha sem se preocupar em repor as bebidas.

Sentei-me devagar; varri o salão com os olhos, buscando quem me observasse. Como não encontrasse ninguém, voltei o rosto para o outro lado da mesa, inspirei profundamente, e, como que inspirado, pronunciei a seguinte frase, e com a devida escamoteação:

- Se não formos, agora, jantar no meu quarto, esqueça a minha ajuda para seja lá o que for.

Houve alguns segundos de mudez, tempo esse que, salvo melhor juízo, foram usados por Seamus para confirmar a minha sinceridade. O leprechaun, então, temperou a garganta, e, com voz submissa, pediu-me que caprichasse nas guloseimas.

Arrumei uma bandeja, atulhei-a de tudo e mais um pouco, incluindo as bebidas, e subimos ao primeiro andar.

Confesso que foi um baque quando Seamus se fez visível de novo. Afinal, não se acostuma com esse tipo de realidade de uma hora para outra.

- E aí? – Perguntei, demonstrando impaciência.

- Em minha terra não tratamos de determinados assuntos com o estômago vazio. Comamos primeiro, falemos depois.

Como também estava com fome, não precisou de outro argumento; e fomos jantar. Na realidade, eu fui me alimentar, porque o que Seamus fazia era, sim, devorar tudo o que lhe estava à frente. E por incrível que pareça, naquela barriguinha coube muito mais comida do que eu podia imaginar, incluindo, aí, duas coxas de frango que originariamente eram minhas.

Interessante mencionar que, depois de se empanzinar, Seamus sacou do casaco um seu nécessaire, dirigiu-se ao banheiro e manteve a porta aberta para que pudéssemos conversar.

Pouco depois, dizia-me, e com a maior naturalidade, que não abria mão dos modernismos após as refeições, o que o levou a retirar o fio dental, a escova e a pasta de dentes sabor menta. E isso me rendeu este singelo questionamento:

- Mas o que ainda me falta ver nesta vida?...

E para não ficar devendo, também fui fazer o toalete, assim que o duende retornou.

Quando voltei, Seamus já me aguardava sentado sobre a cama e com as perninhas balançando para fora do colchão.

Puxei uma cadeira, encarei-o, e perguntei:

- O que eu poderia fazer para ajudar um ilustre representante do povo leprechaun?

- O negócio é o seguinte... – e arrotava involuntariamente – Desculpe-me.

- Fala logo.

- Meu caro Eduardo Gonçalves Filho,...

- Você já sabia o meu nome completo...?

- Ops!...

- Pegou a minha carteira, não foi?! – e apalpava os bolsos.

- Pode ficar tranquilo, Dudu, que não estou com nada que te pertence. É que, antes de nos encontrarmos, tive que fazer uma minuciosa pesquisa sobre tudo o que lhe dizia respeito. Ora, comecei por sua identidade.

- Como dizia minha avó, “Não estou gostando nadica de nada dessa prosa”. Anda, desembucha.

- Importa-se que eu pite? É sempre aprazível depois dos repastos.

- Esteja à vontade; o quarto e seu. – E pegava de um isqueiro apropriado.

Com efeito, o fumo leprechaun era de um olor delicioso, inebriane. O que me fez recordar os almoços de domingo em casa de meus avós. Após o trivial mineiro, D. Amélia se ia ao cafezinho – passado sempre em coador de pano –, e o velho Júlio se punha a pitar do seu cachimbo. É certo que o meu prazer veio daí. Mas só o de sorver a fumaça de cachimbo, pois as dos outros fumos não me agradam nem um pouco.

- Percebo que gosta. Quer pitar também?

- Não, obrigado. Um dia meu avô me ofereceu o cachimbo e a fumaça me queimou a língua, a garganta... Mas me contento em só sentir o aroma.

- Como queira. – E pitava.

Passados alguns segundos, insisti:

- Vai falar ou o quê?

- Soube que é espeleologista.

- Prefiro espeleólogo. E o que mais a sua pesquisa descobriu?

- Que está catalogando as estâncias hidrominerais brasileiras, que é leonino, que não torce por nenhum time, que gosta de bife de fígado acebolado, que...

- Seamus...

- Está bem, está bem... Vou dizer a que vim.

- Sou todo ouvidos.

- O negócio é o seguinte: Está escrito, e não me pergunte onde, quando ou por quem, pois não estou autorizado a responder, que daqui a três dias, uma chuva torrencial virá castigar esta cidade, e perdurará por um bom par de horas. Depois, ela irá diminuir de intensidade, o céu se abrirá em alguns pontos, o sol voltará a brilhar e sua luz se dispersará nas gotículas de água que permanecerão em suspensão. E como todos nós sabemos... – Desta vez era eu quem o atalhava:

- Isso implica o fenômeno do arco-íris.

- Correto. Mas será preciso que fiquemos de olhos bem abertos, pois a extremidade do arco-íris que parecer tocar o solo nos revelará o lugar exato onde se encontra uma caverna, em cujo interior um dia esconderam um mimo muito valioso.

- Como é que é?!

- Ora, será que eu não estou sendo suficientemente claro?

- Está, mas a mim me parece uma história mais que fantasiosa.

- E jantar com um leprechaun é o quê? – E como fosse encurralado, sorri, meneei a cabeça, e, calando-me, fiz sinal para que Seamus continuasse.

- Como dizia, uma vez encontrada a caverna, serão os seus conhecimentos em espeleologia que nos permitirão explorá-la em segurança.

- E a troco de que eu deixaria o bem-bom para ir explorar uma hipotética caverna que, supostamente, estaria no final do arco-íris?

Seamus abaixou o cachimbo, encarou-me em silêncio, e passou a confiar a barba; de certo maquinava o próximo passo. Em seguida, mostrou-me a palma da mão esquerda e lhe bateu com o fornilho para que todo o tabaco se desprendesse. O fumo não mais queimava. Ele, então, pôs-se a assoprá-lo, abrasando-o sabe lá Deus como. Sua mão não ardia, o que, convenhamos, era um fato de pouca monta se comparado aos últimos acontecimentos. Daquela ardência efluía algo a mais que simples fumaça: uma imagem em três dimensões nela se materializava.

- Por certo já viu este objeto? – perguntou o leprechaun, com um toque de malícia.

- É um...

- Continue, está indo bem; vai acertar. – o traço, agora, era de pura zombaria.

- É um pote cheio de moedas de ouro.

- Não, não, você não está vendo direito. Trata-se, na verdade, de um baita pote repleto de ouro. Ou, dizendo de outra maneira, de um pote tamanho-família abarrotado de ouro! É que a imagem deixa muito a desejar.

- Que seja... Mas, e daí?

- Ora, se você me ajudar a encontrá-lo, eu o recompensarei com uma justa quantia.

- Como é que é?!

- Será que você não sabe falar outra coisa? Eu disse que se você me ajudar a encontrar esse tesouro, eu prometo que te pagarei pelo serviço, e regiamente.

Eu emudeci. E pensei em me beliscar novamente. Mas relembrei a dor que experimentara, bem como o ridículo do gesto, e acabei afastando a ideia. Neste instante, um emaranhado de questões inundavam-me o espírito, sendo as mais salientes as que diziam respeito à ambição. Afinal, quantos de nós já não sonhamos em pôr as mãos em um punhado de moedas de ouro? E o mais engraçado de tudo é que essa possibilidade se deslocava das histórias e dos desenhos animados para o mundo real, e era eu quem a estava vivenciando!

- O.k., Seamus, temos um acordo.

- Ótimo! – E selamos o trato com um aperto de mãos.

Os três dias faltantes passariam aflitivos. Afinal, a expectativa da prenunciada tempestade, do arco-íris revelador, de uma caverna jamais catalogada – isso também mexeu com a minha vaidade –, e de um pote enorme apinhado de ouro certamente imprimiriam a qualquer pessoa a mesma angústia que sentia.

Além do mais, a presença constante de Seamus, convívio esse estabelecido fosse pelo seu novo status, o de empregador, fosse pela amizade que entre nós crescia, não me deixava pensar em outra coisa. Eu até que tentei: na tarde do segundo dia do nosso pacto, uma linda morena se hospedou na mesma pousada em que me instalara. Conversa vai, conversa vem, e começamos a nos conhecer. Pois não é que o diabinho resolveu empatar a minha investida? Quando o assunto rumou para o nosso estado civil – queríamos ter certeza de que não avançávamos em terreno movediço –, ele, que estava invisível até para mim, como soubesse do meu calcanhar de aquiles, começou a me torturar por meio de cócegas. Os risos que se seguiram, convulsos, incontroláveis e inexplicáveis para quem não lhes soubesse a causa, deixaram a moça menos embaraçada que assustada, e lhe motivou , inclusive, a mudança para um singelo albergue.

Posso afiançar que foram três as razões pelas quais não estragulei Seamus: 1ª) Não o podia ver. E ele só se tornou visível depois que jurei por St. Patrick que já o tinha perdoado; 2ª) Não seria sensato abrir mão de um punhado de ouro só para ver satisfeita a minha ira; e 3ª) Ficaria eu com remorso se cometesse um “leprechauncídio”?

Na manhã do terceiro dia, o céu era de brigadeiro, fato esse já previsto pela unanimidade dos noticiários na noite anterior. Num primeiro momento, porque imbuído de não sei que certeza, achei que tudo mudaria, e que, quando menos esperasse, o céu se cobriria de nuvens e a tormenta desabaria. Algum tempo depois, porém, concluía que tudo não passara de uma brincadeira de muito mau gosto, dessas que os sacanas inventam apenas pelo prazer de verem os patos grasnarem. E como ficava rouco!...

Lá pelo meio-dia, quando, meneando a cabeça em negativas, já me virava para voltar à pousada e tomar um porre, Seamus apareceu na minha frente, a uma distância de cerca de cinco passos. Mas antes que eu partisse à execução daquela minha intenção assassina, o sapateiro encantado se me opunha a palma da mão direita, e, força incompreensível, refreava-me o primeiro passo. Ato contínuo, recolhia os dedos, menos o indicador, o que me fazia olhar para o alto novamente. A cena que veria, creio que alguns já tiveram a oportunidade de presenciar: o céu, que já se acinzentava, era tomado por incontáveis urubus que, surgindo sabe-se lá de onde, redemoinhavam sobre a cidade a uma altitude considerável. Pouco tempo depois, todos planavam para uma mesma direção, como se não tivessem escolha a não ser a de perseguirem os últimos focos de ar quente, sem os quais não se sustentariam. De repente, e contrariando todas as previsões meteorológicas – se bem que nisso nada há de sobrenatural –, as nuvens fizeram-se derramadeiras, e delas desabou um verdadeiro dilúvio.

Alternativa não tive senão a de chispar para a pousada. E posso garantir que corria feliz, pois que Seamus falara a verdade.

Ao contrário de outros hóspedes que também tinham sido pegos desprevenidos, nem me preocupei em me enxugar ou tomar um banho quente. Subi, sim, mas para pegar um binóculo; era preciso ficar de olhos fixos no céu, pois tão logo a chuva diminuísse, o arco-íris apareceria, e, então, para lá me dirigiria às pressas.

De fato, como previra o leprechaun, a cidade era castigada sem dó nem piedade, e não estaria inventando se dissesse que, de onde estava, podia não só ver um e outro desmoronamentos ocorrerem no monte onde se erguia a estátua do Cristo Redentor, como também o transbordamento do Rio Camanducaia, alagando-a em mais de um ponto.

Por sorte, a pousada que escolhera ficava no alto do morro, o que não me deixou ilhado ao cabo das quatro horas ininterruptas de chuvarada, e me permitiu, com a vista de que desfrutava, encontrar um arco-íris incomum, extraordinariamente nítido, e que se formou para além do município.

Era preciso agir rápido. Assim, tratei de demarcar o ponto que julgava tocar o solo, fosse na memória, fosse imortalizando-o com a câmera que trazia.

Quando entrei no Jipe, Seamus fez-se visível no banco do carona, o que me impôs um susto a mais.

- Viu o arco-íris? – perguntei afoito.

- Teremos que sair da cidade. O problema é o rio que transbordou.

- Não se preocupe. Esta belezinha, aqui, tem tração nas quatro rodas.

- O quê?

- Deixa pra lá. – E saímos cantando pneus.

Transpusemos o portal da cidade em poucos minutos. E, para nossa fortuna, a natureza se compadecia de nós, pois o fenômeno permanecia, e em toda a sua pujança.

- Sai da estrada! – gritou Seamus, indicando-me à frente a porteira aberta de uma fazenda.

- Mas é propriedade particular! Como é que eu...

Nem tive tempo de concluir a frase, pois Seamus agarrou a direção e a virou no momento em que passávamos pela entrada. Por pouco não capotamos; por muito pouco não o arremessei para fora do carro, tão logo consegui retomar o controle.

- Se a porteira estivesse fechada, eu seria o primeiro a respeitar. Mas como estava aberta, tratava-se de um convite tácito a que entrássemos. Ademais, não é hora para brigarmos; daqui a pouco o arco-íris desaparecerá e nunca mais veremos aquele ouro.

Foi o argumento que faltava. Eufórico, engatei a primeira, pisei fundo no acelerador, e saímos espalhando mais terra que mato.

E alternando derrapadas e freadas bruscas, subíamos e descíamos os montículos que, intermináveis, teimavam em se antepor entre nós e o almejado tesouro. De repente, brequei com toda a força. Ainda bem que exigi do carona o mesmo que de mim sempre cobrei – pôr o cinto de segurança. Caso contrário, viria a saber, e de forma positiva, se leprechauns são ou não capazes de fazer as vezes de fantasmas.

Saímos do carro para ver melhor. O arco-íris parecia indicar que tocaria uma dessas ilhas de mata preservada, muito comuns na paisagem das fazendas, e encravada entre colinas.

- É lá, meu amigo – ufanava-se Seamus –, a entrada da caverna fica naquela pequena floresta!

O arco-íris se foi bem mais rápido que o pôr do sol. A nós só restava retornar à cidade ou seguir avante. Esta última hipótese foi a que escolhemos, pois, além de não nos faltarem lanternas e demais apetrechos, um desejo incontrolável de agarrar aquelas moedas fremia em nossas espinhas.

No entanto, a natureza conspirava contra nós, pois a lua estava minguante, os mosquitos, famintos, a mata, impenetrável, e o solo, um verdadeiro alagadiço.

- Quer mesmo continuar? – já demonstrava o desestímulo – Não seria melhor esperar o dia nascer?

- Por sorte o dono da fazenda ainda não nos viu. Quer perder, quiçá, a única oportunidade de entrarmos aqui sem que você seja preso?

- Gostei do eu posso ser preso...

Os minutos transformavam-se em horas, e estas, em mais desânimo.

- Tem certeza que?... – E mais uma vez Seamus me cortava:

- Sim, tenho certeza! Eu só me enganei uma vez em minha vida, e pretendo sair desta sem alterar o placar. Vamos, continua procurando!

- Ora! será que a sua tão poderosa magia não nos ajudaria a encontrar essa droga de entrada?! – Nossos humores já ebuliam.

Seamus pôs as mãos nas ilhargas e franziu o cenho, denotando que retorquiria com ainda mais braveza. No entanto, e como se lhe caísse a ficha, a carranca se transmudou, e ele respondeu sorridente:

- E por que não?... – E repegou o cachimbo.

Depois de proferir algumas palavras em gaélico, deu umas boas baforadas para o alto. Mas ao contrário do que se presumisse, a fumaça não se ia ao sabor da brisa. Acumulava-se acima do seu chapéu e faiscava alhures, ganhando mais e mais brilho à medida que se adensava. Em seguida, outros sortilégios, e toda aquela massa fluídico-luminosa tomava a forma de um cão.

- Depressa – disse o leprechaun –, atrás do nosso guia!

Mas como o nosso condutor parecia ter se corporificado com a psique de um galgo de Diana, tamanha a rapidez ao se embrenhar pela mata, e como as perninhas de Seamus, que estava na minha frente, não nos permitiam segui-lo de perto, alternativa não tive senão a de carregá-lo como se fora uma criança de colo. E o pior é que, mesmo neste momento de tensão, o baixinho não perdia o viés gozador:

- Depois você troca a minha fralda, me dá de mamar e me faz um cafuné?

Não demorou muito para que o nosso perseguidor se detivesse, apontasse o focinho para uma depressão, levantasse a pata dianteira direita e se imobilizasse por completo, tal como faz o perdigueiro ao indicar o lugar onde se oculta a perdiz.

Assim que fixei o facho naquela baixa, visualizamos um buraco de não mais de dez centímetros de diâmetro, protegido por raízes expostas e algumas pedras, destes de que as pessoas se afastam, pois se receiam que neles habitem cobras, aranhas ou ratazanas.

E enquanto o cachorro gania, e se esvanecia, os olhos de Seamus se cristalizavam, sua boca se entreabria e seu coração pulsava a mil.

- É aqui!... – e o punha no chão – Não percamos tempo, cavemos sem parar!

Para o trabalho duro não havia magia, e, com as pequenas pás de que dispúnhamos, nos pusemos alucinados a cavar, a arrancar, a cortar, a desobstruir todo o monturo que se interpunha entre nós e o nosso objetivo. Estávamos envolvidos por aquele mesmo frenesi que experimentam os mineiros quando, sem poderem ver, têm a certeza de estarem a poucos golpes de picareta de suas pepitas.

Não me lembro quanto tempo durou a nossa escavação. Só sei que demoraria alguns minutos menos se estes não tivessem sido gastos em convencer meu parceiro a não se precipitar na abertura, assim que ela se lhe fez suficiente. Sua ânsia se assemelhava à de um náufrago que, enauseado de cocos, se vê diante de uma mesa repleta de assados.

Depois de nos certificarmos de que ali não residia nenhum inquilino indesejado, amarrei uma corda a um tronco próximo, pus o capacete e me muni dos demais acessórios de segurança. Seria supérfluo dizer que, por efeito de mágica, tudo aquilo com que me vestia ganhava em Seamus a sua versão olivácea, e nova.

- Assim você vai arrasar na próxima estação. – disse-lhe sorrindo, tão logo lhe percebi a transformação.

- Gostou? É ton sur ton. – E rimos.

Fomos entrando com o máximo de cuidado. É claro que eu ia à frente, pois, como muito bem justificou o meu perspicaz e corajoso amiguinho, além de já não ter o vigor de antanho, alguém teria que proteger a retaguarda.

Depois de descermos uns bons e exaustivos trinta metros, a passagem, que começara estreita, de um passo se alargou, e uma galeria descomunal se apresentou aos nossos olhos.

- E então, como é que vamos descobrir onde enterraram o tesouro?

Seamus apertou os lábios, pensou por um instante, mas respondeu com meneios negativos.

- E por que você não chama o Rex pra ajudar?

- Ah, boa ideia!

Mas se os procedimentos seriam os mesmos, o resultado se faria um tanto diferente...

- Meu Deus!... O que é isto?!

- Ora, você não pediu a ajuda do Rex?

- Mas eu falava do cachorro, e não de um tiranossauro!

- Relaxa, o bichano é do bem e é um ótimo farejador. Além do que, não pude evitar: os Ó Conaill sempre gostaram de se exibir.

Com efeito, depois de abanar a cauda pedindo carinho, de ganhar umas palmadas na testa e na garganta, Colleen – era uma fêmea – farejava um foco familiar, inconfundível. Seamus percebeu-lhe a reação e se regozijou, mas tratou de tapar os ouvidos. Quando perguntava o porquê dessa atitude, um horrendo e tonitruante urro, no melhor estilo cretáceo, se sobrepunha à minha indagação, o que me fez agachar instintivamente e seguir no gesto o leprechaun.

Em seguida, Colleen partiu em disparada caverna adentro, o que levou meu amigo a indagar, e com a maior desfaçatez:

- Como é, vai me carregar ou não?

E lá fomos nós atrás daquele espécime pré-histórico, esfumaçado e fluorescente. Mas o seguíamos de longe, pois, além do peso extra que transportava, não brincaram quando disseram que esses dinossauros podiam alcançar 50 Km/h!

Não me lembro quantos metros percorremos, mas sei que arfava quando atingimos a outra extremidade da caverna, um paredão liso e úmido.

O monstrengo cheirava com insistência um determinado lugar no paredão, onde, pelo que deduzia, um dia fora encostado o tão cobiçado pote de ouro.

- É aqui, hein, querida?... tem certeza? – E com a boca aberta e a língua derramada, Colleen ora fixava o lugar, ora, Seamus, como a esperar-lhe um novo agrado pelo sucesso da missão.

- Que droga, Seamus – itervim decepcionado e iracundo; mas não tão bravo a ponto de melindrar a mascote –, não há mais nada aqui! Foi tudo uma ilusão, um sonho tolo! Ou, o que é mais provável, alguém esteve aqui antes da gente e levou todo o ouro. E o que sobrou? Nada, absolutamente nada! Ou melhor, perda de tempo e um monte de escoriações formam os nossos prêmios.

Mas enquanto me deixava levar pelas digressões, Seamus se aproximou do paredão, olhou para mim, assobiou, o que me fez calar e olhar para ele, e, com a mão direita fechada, deu uma batida no local indicado. O som que obteve, que juraria abafado, repercutiu vivamente, o que revelava um oco. E o gnomo sorriu glorioso.

- Bravo!... – retorqui com desdém – O seu cãozinho de 65 milhões de anos encontrou uma cavidade na pedra; bela porcaria.

- Sabe qual é o seu problema, Dudu: falta de fé.

- Quê?... Ah! já entendi, você concluiu que tinham escondido o pote de ouro dentro da rocha; daí você vai pegar o seu cachimbo, baforar um pouquinho, recitar outras tantas palavras célticas, e, como num passe de mágica, um vórtice aparecerá e revelará o tesouro. Será que esqueci de alguma coisa?

- Dudu, ó Dudu... Eu bem te conheço; e ironia não faz parte dos teus predicados. Sendo assim, ouso afirmar que, se a regra é gostar de me exibir, por vezes prefiro a simplicidade. Daí eu pergunto: Para que complicar se está em As mil e uma noites a chave que precisamos?

- É o que me faltava, o leprechaun endoidou!

- Como não sou melindrável, vou fingir que não ouvi esse insulto. Assim, e fazendo as vezes do imortal Ali-Babá, sentencio: “Abra-te, sésamo!”

E tal e qual a metáfora do abrir do sésamo para liberar suas sementes, uma fenda surgia e se espaçava sem a mínima pressa. A pouco e pouco, uma luz rutilante, incompreensível, escapava do seu interior, sobrepujava a fluorescência de Colleen e se assenhoreava de quase toda a extensão da galeria.

À medida que o esplendor se diluía, nossos olhos voltavam a se abrir; e víamos surgir, e cada vez mais nítido, não um simples pote, mas, sim, um verdadeiro caldeirão superlotado de moedas de ouro, e que, graças às sobras da vaidade leprechaun, mantinham-se hipnoticamente fulgurantes.

- Seamus, você tinha razão! É puro ouro!... – mal podia me conter.

Sem ter como resistir, caminhei trêmulo em direção ao tesouro com a mesma avidez de um viajante que, perdido no deserto, tem a sorte de encontrar um oásis salvador. Ao me aproximar do caldeirão, um nó me apertava a garganta, tamanha a excitação que de mim se apoderava. Nunca, nem mesmo nos meus mais extravagantes sonhos, nunca pude apreciar tantas moedas, tão grandes e fúlgidas! Meus olhos viam, mas minha razão teimava em não as aceitar. Por fim, toquei-as; a princípio com respeito, mas, depois, com a mesma volúpia dos adolescentes. E erguia as mãos recheadas de ouro, como o ápice dos gestos em minha vida, e as soltava devagar, como a apreciar o ritmo de uma cascata. O soar vibrante, ah! o inexprimível tinir!... embalava-me, embebia-me! Foi quando percebi que meu amigo não se tinha achegado.

Ao me virar, vi Seamus como que petrificado. O olhar perdia-se por entre a descoberta e a vaguidão; os lábios, hirtos, pareciam conter um pungente choro; as mãos, fechadas, tesas, lutavam tenazmente para não cederam à tentação.

Juro que estremeci. Meu primeiro pensamento foi o de que Seamus anularia o nosso contrato verbal e mandaria Colleen saciar a sua fome acumulada. Ao que parece, porém, minha dedução não estava correta, pois o pequenino foi-se recompondo, e a conhecida rabugice voltou a dar o ar de sua graça:

- Como é que é, vamos levar o prêmio ou não vamos? Isso aí não tem nada de pirita, sabia? Seu número atômico é, sim, 79, e o ouro é, sim, de 24 quilates. Quer saber, vai dando licença porque só um toque da boa e velha mágica leprechaun é que será capaz de levantar essa belezura aí.

O caldeirão levitou e foi pousar em uma grande carreta de fumaça previamente adaptada ao formato de Colleen, o que me levou ao seguinte pensamento, que não compartilhei com meu amigo:

- Já vi e ouvi um carro de boi em movimento, mas, de tiranossauro, é a primeira vez.

Por estranho que possa parecer, Seamus não se comportava como um legítimo leprechaun, aquele que, segundo se sabe, adora estar na companhia do seu ouro. Ao contrário de mim, que, maravilhado, já enumerava os desejos que realizaria assim que convertesse a minha parte em moeda sonante, o duende, que se sentara sobre a carroça, seguia calado, pensativo, e com o olhar perdido.

Como íamos a passo de cágado, pois não convinha que o tesouro tombasse, e como a entrada da caverna parecia estar a distância considerável, ficaria por muito tempo falando sozinho se esse “climão” se mantivesse. Ora, como nunca fui dado a monólogos, deixei meu entusiasmo de lado e tratei de puxar conversa:

- Diga-me uma coisa, Seamus, o que você fai fazer com a sua parte do ouro? Esconder na Irlanda, repartir com a família ou incrementar a sapataria?

Depois de um langoroso suspiro, Seamus puxou as rédeas de Colleen, o que também me fez parar, e, olhando fixamente para mim, disse em tom de resignação:

- É tudo seu, Dudu.

- Como? Desculpe, mas acho que não entendi.

- Eu disse que todo este ouro é só seu. Não fico com nada.

- Mas?...

- Acha mesmo que endoidei, não foi? – nem reação para concordar eu tinha – No entanto, creia-me, por mais que isto me doa, abrir mão da minha parte na fortuna é a única coisa correta a fazer.

- Seamus, eu não estou entendendo nada.

- Vou lhe contar uma história, e que, por certo, vai explicar a minha atitude: Nos tempos em que este país ainda era coberto pela mata virgem, quando por aqui viviam os seus antigos donos, os índios, um certo leprechaun resolveu desbravá-lo. Não porque tivesse algum interesse econômico, botânico ou de pura curiosidade, mas, sim, porque fosse avarento e achasse que o esconderijo perfeito para o seu tesouro teria que ficar a léguas de sua terra natal. Ocorre que, depois de esconder as suas moedas, ele saiu a passear, feliz e despreocupado. E, de quebrada em quebrada, acabou encontrando uma linda nativa. Por mais incrível que possa parecer, seu coração, sim, porque nós também temos um, seu vetusto coração pulsou mais forte por aquela índia, mesmo sabendo que essa paixão era física e moralmente impossível. Sei que não é comum um ser encantado se apaixonar por um humano, mas, como dizem, quem comanda o coração? No entanto, e porque tivesse consciência da sua falta de atrativos, e de futuro, não se deixou revelar, contentando-se em apreciá-la e em lhe fazer alguns agrados mágicos, tais como choverem pétalas que ela não sabia de onde provinham.

- E por que ele não se tranformou em humano?

- Por mais incríveis que sejam os nossos poderes, Dudu, eles também têm limites, e um deles é, justamente, o de não podermos nos transformar em seres humanos.

- Entendo.

- Bem, lá pelo final da tarde, aquele compatrício descobriu que o coração da jovem já tinha sido aprisionado, e nem quero relembrar a desolação que sentiu quando a viu entregar-se, de alma e corpo, a um corajoso guerreiro.

- Deve ter sofrido muito.

- Pois é, a grande tristeza que o dominou, e que mágica alguma poderia extirpar, pois para sempre seria um leprechaun, logo se transformou em despeito; depois, em ódio, e foi culminar na elaboração de uma abjeta desafronta.

- Poxa...

- Ora, pensou aquele leprechaun, se ela não seria dele, não seria de mais ninguém. – E eu o atropelava:

- Ele a matou?!

- Dudu, você é que ficou louco.

- Mas?...

- Nós, leprechauns, somos arteiros, sim; não vou negar. Mas jamais atentaríamos contra a vida de alguém. A vida nos é muito cara!

- Mas, então?...

- Explico: Como sua idade era antediluviana, aprendeu da vida inúmeras artimanhas, e, por isso, conseguiu, e sem muito esforço, devo enfatizar, que o seu adversário se enamorasse de uma outra índia, pois, sendo ele o guerreiro mais cobiçado da aldeia, rivais formosas é que não faltavam.

- E o que aconteceu com a pobre índia?

- Foi abandonada sem uma explicação sequer. Chorou, e chorou muito. E implorou a Tupã que eternizasse na Terra a memória de sua dor. – A essa resposta, alguém se me vinha à mente; e perguntei:

- Como se chamava a pobre coitada?

- Obirici.

- A da Fonte da Índia?

- Ela mesma.

- Mas, então, ela existiu mesmo!

- É claro. Apenas que, na lenda, Obirici apaixonara-se pelo sol, e isso na verdade não ocorreu. A propósito, depois de me conhecer, e de ver do que sou capaz, será que você ainda duvida de alguma coisa?

- Não, pode ter certeza.

- Ótimo. Bem, infelizmente essa história ainda não terminou.

- Não?

- Não. Satisfeito com o seu desagravo, o ignóbil leprechaun foi-se embora para a Irlanda, deixando para trás o seu tesouro e três almas entregues à própria sorte. Com o passar do tempo, o laço que unia o nobre Tupi-Guarani àquela concorrente, porque atado com a tenuidade dos encantamentos, rompeu-se com a mesma facilidade com que se tinha feito. Daí que a rival acabou se unindo a um outro índio, e viveram felizes pelo resto de suas vidas. O nosso guerreiro, porém, recobrando a lucidez, buscou por Obirici, que sabia ter-se ido. No entanto, a procura foi em vão, pois Tupã, profundamente condoído, resolvera apaziguar o coração opresso de sua filha, e, depois que lhe ouviu a triste súplica, acolheu-a em seu reino.

- Que história triste.

- Ainda não acabou.

- Não?

- Não. Quando se quer praticar um ato mau, e se o consegue, a primeira sensação que se tem é a de uma deleitosa satisfação, Mas o tempo, que sabe esperar, virá cedo ou tarde cobrar a sua dívida, e a executará com o requinte dos carrascos.

Neste momento, percebi que os olhos do meu amigo marejavam. E me comovi ainda mais com essa narração, deduzindo a quem o remorso mortificara.

- Você era o leprechaun da história, não era?

- Sim, era eu. E você nem pode imaginar o quanto esse ato mesquinho me tem remoído, dia após dia. – e ele começou a chorar.

- Seamus, não sei o que dizer.

- Não se preocupe. – e se recompunha – Chorar reconforta e nos faz seguir adiante.

- Mas, por que você abre mão da sua parte no tesouro?

- Muita coisa aprendi nesses séculos que passaram. Uma delas, que todo o erro tem conserto. O que é preciso é coragem e vontade para tentar remediar o que se fez. E como tive tempo de sobra para arquitetar a minha remição, agora chegou a hora de pagar os juros do sofrimento que causei. Já o principal... Bem, tudo a seu tempo. Assim sendo, e querendo muito que tudo isto acabe logo, cedo de muito bom grado todo o meu ouro a você, ó valoroso guerreiro.

Caí sentado, estupefacto! Eu tinha sido, em uma outra existência, aquele mesmo índio que perdera o seu verdadeiro amor! E o ouro era, pelo menos em parte, a forma que Seamus encontrara de me compensar o sofrimento.

Voltamos e saímos calados da caverna. E se Colleen e o caldeirão ficavam no seu interior – ela se desfez em completo silêncio –, a mágica se encarregava de conduzir todas as moedas para dentro do Jipe.

Saímos da fazenda como entramos, sem sermos molestados. Seamus ficou pelo caminho, e eu segui para a pousada.

É claro que passei a noite em claro, menos por preocupção quanto à segurança do meu tesouro do que por todas as epopeias por que passara até então.

No dia seguinte, levantei meio sem saber o que fazer. Depois de me certificar de que o ouro estivesse seguro, fui me revigorar tomando um bom café da manhã. A toda hora buscava por Seamus, fosse com os olhos, fosse com o pensamento. Mas ele não apareceu. Resolvi, então, sair e ver o estrago que a chuva causara. De fato, e como ele previra, Monte Alegre do Sul estava um verdadeiro caos. Aliás, e pelo que pude sondar, nunca tinham visto na cidade tantos repórteres fazendo externas como nessa manhã, o que fazia da polvorosa uma atração à parte.

Ao voltar à pousada, recebi do gerente uma carta. O envelope tinha a mesma coloração da vestimenta leprechaun, o que me deixou eufórico. E, como sentira, não se tratava de mera coincidência. O conteúdo, porém, bambeou meu bem-estar: Em letra de médico, e em um português superficial, Seamus se despedia e me desejava toda a felicidade do mundo. E finalizava dizendo que regressaria à sua pátria com a consciência praticamente aliviada.

Terminei a leitura sentindo-me estranho. Estava muito triste com a despedida, e nem saberia dizer se tornaria a ver aquele duende tresloucado; efusivo com a reviravolta que a vida me presenteara, pois, além de ser um dos poucos privilegiados na Terra por poder conhecer e me tornar amigo de um leprechaun, voltava para casa recheado de ouro; e, um misto de vazio e incômodo, pois, pelo que percebia do final da carta, Seamus se redimira de sua falta para comigo, mas não para com aquela que um dia me amou.

Terminado o check-out, parti calado e pensativo rumo a Minas Gerais. O que faria com tanto dinheiro? Terminaria meu catálogo antes ou depois de conhecer a Europa? Aplicaria tudo na bolsa, em terras ou em serviços? Oh, tantas dúvidas cruéis e irresolúveis acompanham os novos ricos!...

Hoje, ao relembrar aquele feriado, ainda me pergunto se tudo aquilo por que passei foi ou não um sonho. A resposta, contudo, vem na forma de brado: não sonhei não! Aliás, estou cada vez mais rico, pois soube aplicar corretamente o meu achado e há quem o multiplique para mim a cada dia.

Uma coisa, no entanto, ainda me incomoda profundamente: Tendo Seamus interferido no destino de duas pessoas, por que só uma teria sido recompensada? E Obirici, o que lhe teria acontecido? Nossos destinos se recruzarão ainda nesta vida? “Tudo a seu tempo”, como disse o pestinha.

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Published at : 17-03-2017
Category : Short story