Bardo, o Pardo

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Os sons da floresta eram como uma onda interminável de nuances. Vento, folhas, rios e animais orquestravam o coro da natureza. Dentre os sonidos, havia aquele que mais se destacava: o dos pássaros.

Melodias eram cantadas por toda a extensão do parque, com assobios que ecoavam e avisavam aos que ali estivessem que, além de a vida existir, era ainda bela.

Bardo, que vivia naquela floresta, era um pássaro sem cor. Nada nele se destacava. Era pequeno, marrom, com o bico e as garras pretas. De todas as deslumbrantes aves que moravam na região e daquelas que por ali eventualmente se aventuravam em seus voos nas alturas, era o mais sem graça.

Quando pequeno, tinha certeza que sua plumagem apenas demorava mais que o costume para ganhar cor, mas era apenas questão de alguns meses para todo o arco-íris reluzir de seu peito. Ouvia-se do pequeno Bardo coisas do tipo: "sem graça é você, canário, que nasceu na estação passada e continua parecendo um pintinho". Ou quando era atormentado pelo colega imponente: "Quem mandou ter o topete no lugar do cérebro, cacatua?! Por isso é tão burro? Não percebe que minha cor ainda não apareceu”?

Contudo, o argumento minguou quando Bardo constatou que suas penas não iam mesmo florescer e estava destinado a ser o pássaro mais desinteressante da cidade.

O início da temporada de caça aos gravetos que formavam os ninhos de amor foi o mais difícil para nosso amigo, que, frustrado, só restava cantar. E isso sim era algo que fazia Bardo se sobressair. Sua canção era linda e desafiava os grandes maestros com toda a perfeição de sua melodia. Até apareceram aves tenores para competir com ele, mas nenhuma era páreo.

E foi soltando a voz que Bardo atraiu a atenção de uma jovem arara-azul que morava a algumas árvores de distância, logo depois do riacho. Quando ela ouviu a cantoria pela primeira vez, foi logo ver quem era o musicista. Para seu desgosto, era o tal do passarinho que todos diziam ser o mais feio já existente. Ela até gostaria de ouvir aquela música todas as manhãs e, quem sabe, ter a oportunidade de ser mãe do trio musical mais famoso da floresta, mas, pensando bem, o que diriam dela se aceitasse um ninho do Bardo?

Como poderia uma espécie tão bonita quanto a dela se misturar com alguém tão descolorido? Já podia ouvir as amigas dizerem "O quê?! Você está dividindo um tronco com aquilo? Você poderia se casar com uma águia real e viver a vida de princesa que sempre sonhou".

Entretanto, mesmo com toda a pressão, ela não conseguia tirá-lo da cabeça.

Um dia a grande ideia surgiu: iria fazer com que o artista se tornasse um pretendente digno! Na manhã seguinte, quando o sol ainda não apontava no horizonte, a arara se dirigiu à árvore do Bardo e acordou-o com animação:

- Tenho a solução para ficarmos juntos!

A ave, ainda sonolenta - O quê? Quem é você?

- Como assim quem sou eu? A arara-azul que mora depois do rio. Com certeza já me viu por aí!

- Ora, me desculpe senhorita, mas minha memória deve estar falhando, pois realmente não me lembro destas penas azuis. Aliás... - Bardo pareceu despertar e disse surpreso - você disse ficarmos juntos?!

- Sim é claro. Seu canto é o melhor e com minhas reluzentes penas faremos um belo par. Isso, é claro, desde que os camarões funcionem tão bem para você quanto funcionam para os flamingos ali de baixo. Dizem que é deles que vem a cor rosa.

- Espere um pouco! Você está me pedindo em casamento e, ao mesmo tempo, dizendo que só me aceitaria caso eu ficasse vermelho por comer camarões?!

- Isso! E já lhe aviso, essa é a sua melhor chance, pois, além de mim, nenhuma passarinha vai querer ficar com você.

O pardo considerou a proposta por alguns momentos e então disse:

- Sinto lhe dizer, mas sou obrigado a recusar tão nobre oferta. Já me contentei com a vida que tenho levado, sabe?! Pode parecer solitária, mas, na verdade, também é bom ter todo o tempo só para mim, sem ter que me justificar a ninguém. Na verdade, ainda mais com alguém que parece tão mandona como você.

- Que insulto! Neste momento, a arara percebeu que mais alguém estava ali, mas ainda não havia notado sua presença.

- Periquita?! - Era uma de suas colegas de infância e estava tentando sair de fininho. - O que você está fazendo aqui uma hora dessas? Onde está Tucano, seu marido?

- Pois sabe o que é? - Respondeu a ave em desafio. – Você não é a única a notar que o Bardo canta tão bem...


Published at : 18-03-2017
Category : Short story