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- As borlas do chambre.

As borlas do chambre.

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- Por que Machado de Assis praticamente repetiu, em A Causa Secreta, uma frase que escreveu cinco anos antes, em Quincas Borba?

Por veneração, Fabrício decidira aprofundar-se na obra do filho mais dileto do Morro do Livramento. E foi assim que se deparou com aquela tormentosa questão. Para uns, é verdade, isso seria de pouca ou nenhuma valia. Para o quartanista de letras, no entanto, a idolatria que nele se enraizara sofria, agora, um inesperado ataque do fungo da decepção.

Mas quem pensa que é esse tal de Fabrício, dizia para si e em pensamento, que ousa desapontar-se com a arte do maior nome da literatura nacional? E se lhe apoderava o constrangimento... Mas deste a outras indagações, pouco tempo decorria, e desta forma se expressavam: Teria sido esquecimento do autor? É possível. Falta de criatividade? Seria inadmissível. Uma inexplicável fixação por bolotas? Mas que besteira!...

- Maldita hora que comparei aquelas frases! – Exclamou, espontâneo, esquecendo-se de que não estava a sós.

- O que foi que disse?! – perguntou Seu Armando.

- Desculpa, pai. É que faz mais ou menos duas semanas que estou diante de um problema que não consigo resolver.

- Por acaso já pensou em pedir ajuda? – O trejeito do filho, misto de letargia com obviedade, levou riso aos lábios quinquagenários.

- Está certo, meu eterno professor, sua experiência me estocou mais uma vez. – Porque estimulado desde a infância ao edificante hábito da leitura, virtude e gosto que soube repassar ao filho, Seu Armando era dono de vasta cultura, o que o credenciava a ser um excelente tira-dúvidas.

- Pois explique o seu dilema. E vamos ver no que vai dar.

- É o seguinte: Como sabe, decidi ler tudo o que encontrar de Machado de Assis.

- E como já te disse, só posso parabenizá-lo por isso. Quantos há que nem sabem de quem se trata!

- É verdade... mas, quando lia A Causa Secreta... – E seu melhor amigo o cortava:

- O famoso conto do médico sádico?

- Exato. Bom, lá pelo meio da história... Espera um pouco que eu já volto. – Fabrício correu até o quarto e retornou com um livro em cada mão.

- Achou? – e folheava a coletânea.

- Aqui está. Notei esta frase: “Fortunato recebeu-o constrangido, ouviu impaciente as palavras de agradecimento, deu-lhe uma resposta enfastiada e acabou batendo com as borlas do chambre no joelho.”

- E então...?

- Acontece que, revendo Quincas Borba... Aqui: “Rubião suspirou, cruzou as pernas, e bateu com as borlas do chambre sobre os joelhos.” Ora, os finais dessas duas frases não são quase idênticos? Como alguém que influenciou Olavo Bilac, Lima Barreto, Carlos Drummond de Andrade, entre outros, pôde cometer esse deslize? Isso me pareceu inadmissível!

Seu Armando, de fato, achou curiosa a semelhança. Não se espantou, contudo, por meio de quem vinha à tona. Afinal, seu filho sempre foi um detalhista. De qualquer forma, dos segundos ressoavam um pedido de esclarecimento, e, como que inspirado, lembrava-se de alguns exemplos que poderiam ajudar:

- Esse “lapso”, a que você se refere, não me parece tão inquietante assim, sobretudo se pensarmos que a variação sempre esteve às mãos dos grandes compositores. Da mesma forma, as obras de Moacyr Scliar não abordam com frequência a imigração judaica no Brasil? E o que dizer dos incontáveis rechonchudos de Botero?

Fabrício torceu os lábios, frisou as sobrancelhas, inspirou, e não se deixou convencer:

- O problema, aqui, não se refere à repetição da melodia, à temática, ao estilo. Constatei duas frases que só não são totalmente iguais por força de “algumas vírgulas”; esse é o ponto.

Não que Fabrício fosse amigo da turra... Sabia, sim, calar-se quando a lógica lhe falava à razão. Neste incidente, contudo, a cada ponderação paterna uma réplica era oposta, e com veemência, como se seu orgulho, tomado de dores, tivesse sido investido no cargo de defensor perpétuo da perfeição. Assim, dizia para si, a mácula literária precisava ser aclarada.

Depois de uns dez minutos de uma contenda inglória, Seu Armando propôs um armistício, que foi aceito. Mas antes de partir aos seus quefazeres, recomendou ao filho o velho e salutar bom senso, preferindo a beleza do todo ao desdouro das minúcias.

A noite chegara estrelada; e o sono, implacável. E como repelisse o sensato conselho, desperdiçava o voejar que o sonho faculta, limitando-se à cadeira defronte à escrivaninha, pois permanecia preso às frases que lhe ultrajavam o ego.

Bateram à porta. Fabrício não se importou com o horário e convidou a que entrassem. Mas um silêncio se fez, e ele virou o rosto.

- Quem é você?! – O susto foi tamanho que o chão foi-lhe o efeito.

Um homem conservava-se quieto, sisudo. Fabrício não tinha forças para reagir. Era como se a surpresa o petrificasse! Foi, então, que a familiaridade começou a transparecer. O cabelo, a barba e o bigode alvos e crespos; o jaquetão, o colete, a gravata; a tez mulata e o inconfundível pincenê...

- Espantado em me ver?

- Não pode ser! Só posso estar sonhando!

- De fato, é um sonho.

- Mas, por quê?

- Não posso me demorar, pois deixei o tílburi em fila dupla. Então, sejamos objetivos. Soube de um coronel, fonte segura, que dous de meus textos o deixaram, como direi, ultrajado. – Fabrício ensaiou retrucar, mas gaguejou em vergonha. O máximo que pôde exprimir foi um sorriso aparvalhado. Diante da insistência, porém, reuniu as forças que lhe sobravam e tateou uma escapatória:

- Na verdade, acho que tudo não passou de um grande... – E era interrompido:

- Quis dizer uma pândega? Ah, que patusco!... – A saliva, engolia-a a seco. E como o corpo não acordasse, buscou contemporizar:

- Não posso crer que o autor de Memórias Póstumas de Brás Cubas, de Dom Casmurro e de Helena tenha ficado ofendido com um comentário infeliz de um simples estudante. – E como a seriedade voltasse, arrematou: –

- Ficou...?

- Esqueceu de citar todos os nove romances e peças teatrais, os duzentos contos, as cinco coletâneas de poemas e sonetos, e as mais de seiscentas crônicas.

- É... Acho que esqueci...

- Sabe, rapaz, cousas há que nos fazem ver a vida pela janela do otimismo. A literatura, a música, as belas-artes, tudo está aí para nos alegrar, para nos enlevar. Outras, todavia, como se ater às miudezas, fazem-nos prisioneiros da rabuja, deixando-nos amargos, pouco menos estéreis.

- Talvez o senhor não acredite no que vou dizer; está no seu direito. Mas, enfim, juro que fiquei decepcionado. Jamais imaginei que um gênio pudesse repetir, em outra frase, tantas palavras, mesmo que fosse sem querer. – Era verdadeiro o desabafo. E Machado de Assis o captava, e se compungia.

- Agora entendo. – E fitava o quarto à procura de assento.

- Posso ajudar?

- Busco um canapé. Volta e meia citava-o em meus escritos, mas, paradoxo, justo nesta história repetir me foi defeso. – Fabrício apreendeu a brincadeira e sorriram.

- Bem, se o que me resta é pedir perdão, deixarei de vez o detalhismo e prometo reler Quincas Borba e A Causa Secreta com olhos mais dilatados.

- Esses textos... Ambos eles muito me aprouveram, sabia? Ah! Rio de Janeiro, que saudade!

- Voltarei a vê-lo?

- Está me expulsando? – Machado de Assis não o deixou encabular-se, pois riu logo em seguida.

- Sabe de uma coisa, pensando bem, começo a ver com outros olhos os exemplos que meu pai enumerou.

- E quem você acha que lhos inspirou? – E riram.

- Tenho sua amizade?

- Desde que nunca se esqueça desta frase: “Quanto mais nos aproximamos da perfeição, menos a exigimos nos outros.”

- Em que obra você a escreveu?

- Não fui eu. Foi Petit-Senn. – E um abraço fraterno se seguiu aos risos.

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Published at : 03-04-2017
Category : Short story