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- Tramontino, o fogão de 4 bocas

Tramontino, o fogão de 4 bocas

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A receita é simples: 1 litro de água fervente, 1 barra de chocolate ao leite, meio limão bem azedo, 2 folhas de mostarda, e sal a gosto. Caso você queira deixar mais light pode substituir o chocolate por estévia, no meu caso foi chocolate meio amargo. Misture todos os ingredientes em uma panela e a poção para dar vida a qualquer objeto estará pronta! Sim, é verdade mesmo, ela dá vida a qualquer objeto! Se fosse mentira, um fogão de 4 bocas não poderia escrever tais palavras, não é mesmo? Agora... como o meu pai descobriu essa poção, eu não faço ideia, porém se não fosse ele descobrir isso, não sei quem poderia ser, afinal, quem em sã consciência trocaria chocolate por estévia?

Como disse antes, sou um fogão. E a poção descrita foi feita em cima de mim! Eu que esquentei a água e tals... Puro chef! Minha primeira lembrança foi acordar com uma panela em minha cabeça e meu pai na minha frente com sua feição normalmente estranha como todo bom cientista maluco possui. E como todo bom cientista maluco, ele misturava a poção todo estabanado e acabou derrubando uma parte em mim, e assim, eu nasci! Acontece que nasci somente para mim, meu pai nunca soube disso, na verdade ninguém nunca soube. Às vezes penso se o mesmo ocorreu com a panela ou a colher, mas nunca descobri.

No começo foi um pouco estranho, o fogo saindo pela minha cabeça enquanto passava um gás dentro de mim. Confesso que aquela mangueira enfiada em mim soltando gás não era nada agradável, assim quando esqueciam a comida dentro do meu forno e ficava tossindo o dia todo com a fumaça... Eca! Mas o final era sempre recompensador, aquele cheirinho de comida caseira e o sorriso das pessoas quando viam meu trabalho sendo feito era minha maior alegria.

Lembro-me do meu primeiro Natal. A família toda do meu pai estava em casa, irmãos, tios, primos, os sobrinhos e claro, não podia faltar a comandante: alguns a chamavam de vó, outros de mãe, eu a chamava de chef. Na verdade, era: Sim, chef! Engraçado que a vi somente nos 2 primeiros Natais, depois ela nunca mais apareceu. Era ela que mandava na cozinha, se alguém queria entrar, tinha que pedir sua permissão. E AI de quem perguntasse: Já tá pronto?!

Nesse Natal, estava assando o peru. Era uma bela ave. Recheada com miúdos e envolta de cebolas e batatas. O molho parecia divino. Como ninguém podia perguntar se já estava pronto, todos acendiam minhas luzinhas para babar na frente do espetáculo ali sendo preparado. Foi só a vovó me abrir para pegar o peru que se ouviu um grande alvoroço dos famintos. Todos se sentaram em volta da mesa de jantar e se deliciaram com a comida. Foi um belo show que durou não mais que 30 minutos e todos já estavam de pratos vazios, satisfeitos e felizes. E eu, bom eu os observei. Se todos estavam felizes então porque eu não ficaria?

Apesar de ter passado algum pouco tempo de vida, estava acostumado e já tinha percebido que meu pai não sabia da vida que havia me dado. Apesar disso era revigorante saber que fazia parte da vida daquela família. Todos os dias cozinhava suas comidas, café da manhã, almoço e janta. Todos os dias. Às 7 horas fazia o café. Às 12 horas o arroz, feijão e o bife. Às 18 horas era a vez da sopa. Às vezes me pegava pensando no Natal, no dia dos Pais... amanhã é aniversário do meu pai. E semana que vem é o meu. Faço 7 anos já! 7 anos de café, almoço e janta... 7 anos de arroz com feijão e bife... 7 Natais com peru e batatas... 7 anos de café com estévia... 7 anos no canto direito da cozinha ao lado da pia e na frente dos azulejos brancos que mais estavam amarelados... 7 anos bem aproveitados pela família do meu pai... 7 anos de sobrevivência... pelo menos nesse aniversário ganhei um irmãozinho que apesar de mais novo parece ser muito mais velho, tem 6 bocas até! Está todo empacotado ainda, coitado.

Às vezes fico imaginando o que aquela panela e a colher acham de ter uma vida, ter consciência. Às vezes fico imaginando por que nosso pai criou uma poção para dar vida a objetos. Que tipo de vida ele queria nos dar? Às vezes fico imaginando como seria se eu tivesse uma vida.

Published at : 18-04-2017
Category : Short story