O caçador

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Na paragem, uma mulher espera com duas crianças pelo autocarro. A menina está sossegada, mas o miúdo, mais pequeno, apanha pedras à pressa e tenta acertar num pombo - que apesar de incomodado não chega a levantar voo. Talvez tenha sido da pouca força dos arremessos, ou do tamanho dos projécteis e, claro, pelo facto de todas as tentativas terem falhado o alvo, que tudo aquilo não passou de uma brincadeira inocente de se ver.

E porque o instinto predatório e manipulador sobre as espécies mais "fracas" deriva da Natureza e da mais completa ausência de moralismo humano; e sem que me apeteça começar a pensar na concepção de "certo" e "errado" e, principalmente, no modo como interagimos - como animais que somos - com os outros animais (que não somos), acho adequado também lembrar-me da minha "não-inocência" nesta história.

Comecei por embarcar formigas em folhas de figueira num canal de rega. Queria ver como elas se saiam quando chegassem aos rápidos e às cataratas - que mais não eram do que pequenos declives do leito, mas que tanto borbulhavam a corrente em alguns troços. Pensei, aliás, ter afogado dezenas destes insectos; até que um dia tive uma agradável surpresa: coloquei uma formiga de cabeça vermelha dentro de um bidão de água, e ela afundou-se lentamente, poisou de patas no fundo, começou a subir pela parede côncava e, por fim, salvou-se da imersão.

Influenciado também pelas peripécias de caça-grossa contadas pelo meu pai e pelo meu avô - que era caçador para sobreviver - quando rasgavam o semi-desértico mato do Sul de Angola, em busca de pacaças e elefantes, houve um tempo em que me vi motivado a caçar - pelo arvoredo do meu bairro - pardais e pintassilgos, e pombos...

Tentei dar início à minha curta actividade cinegética à boa maneira de um bom hominídeo primitivo, ou seja, com toscos utensílios; neste caso, com calhaus e paus. Depois, passei às fisgas e acabei aos tiros de pressão de ar. Acaso ou destino, e mesmo com boa pontaria para as latas, nunca matei ou sequer acertei de raspão num pássaro vivo ou morto. Na verdade, durante o tempo em que andei ao encalço da passarada, somente vi um mocho ferido; atingido, não por mim, mas por quem estava comigo a disparar à vez. E, precisamente, por ter visto o estado daquela pequena ave - magoada, indefesa e com grandes olhos pestanejantes -, é que terminou a minha "inocente" incursão na caça.

Published at : 16-06-2017
Category : Articles and Opinion