Velhos com brinco na orelha que parecem corsários

Font Size:

Já é o segundo velho que vejo com um brinco, ou com um brinquinho - como se costuma dizer. Para não falar em estereótipos ou em fenótipos, prefiro dizer que o modelo corporal, e comportamental, que estes personagens carregam, é quase sempre o mesmo. Parecem, de facto, velhos; ou então, estão envelhecidos por inúmeras razões. Pelas vestes e pela pele queimada, eu diria que até trabalham ao ar-livre o dia inteiro. O cabelo, de um modo geral, é encaracolado, seboso e ligeiramente comprido na parte de trás. A barba esbranquiçada cheia de peladas é sempre de três dias - tipo sabujo. A voz é enrouquecida pelos cigarros que fumam sem parar, e também das cervejas anestesiantes que emborcam pelos cafés.

O primeiro exemplar que vi parecia pedreiro, ou ajudante de pedreiro, ou arrumador de carros. Faltavam-lhe, infelizmente, todos os dedos de uma mão. Tinha braços finos e a pele descaída nos tríceps. Vestia uma t-shirt meia-cava alargada pelo uso. Estava de calções, chinelos, e o bonezinho carcomido da praxe enfiado até aos olhos. E, é claro, ao lado de uma das hastes dos óculos graduados, um pequeno crucifixo pendurado na orelha.

O segundo parecia pescador, ou ajudante de pescador, ou arrumador de carros. Tinha calças de fato-de-treino arregaçadas até ao joelho, sapatilhas sem meias e uma camisola de lã escura sobre o Sol escaldante de Junho. E, é claro, um brinco luzidio espetado num dos lóbulos do ouvido externo.

Mesmo que aparentem muito mais idade, eu diria que estes biscateiros rondarão a casa dos cinquenta e poucos anos. Teriam, portanto, nos saudosos anos oitenta, as suas vinte e poucas primaveras. Precisamente, na altura em que qualquer rapaz - que quisesse ser moderno - nem levantaria a questão de não ostentar o seu precioso brinco. Estava em voga; conferia um ar rebelde; atentava os progenitores; e apesar de ainda estar conotado com a comunidade gay e com a toxicodependência, até ficava bem aos olhos do sexo oposto.

Em 1985 - por exemplo - um adolescente, ou um pós-adolescente, com um adorno auricular a brilhar para toda a gente ver, fazia parte de uma revolução Pop. Hoje, no meio de tanta diversidade, é estupidamente banal que tais peças de cara ou barata joalharia - os agora denominados "piercings" -, tanto se agarrem como carrapatos, não só nos abanadores como em qualquer parte do corpo.

O que é bizarro é ver um velho ultrapassado e sobrevivente, quiçá de um passado pouco digno - e provavelmente pioneiro desta vaga de furos iniciada há trinta anos atrás -, ainda carregar este modernismo-de-outrora num cansado e gasto corpo em 2017. O que é bizarro é que a maior onda de intransigência contra o avanço do brinco sempre esteve localizada na classe operária; principalmente entre pessoas do sexo masculino e de meia idade. Exactamente onde estão estes indivíduos neste momento - parados no tempo como cópias exteriores (e perfeitas) dos seus antecessores (e opositores) -, só que de brinco e com outra mentalidade - menos conservadora, suponho.

Porém, estas figuras esdrúxulas que salpicam o nosso meio sócio-laboral, também dão toda graça ao tecido enfadonho e criterioso de gente que se quer, à viva força, bem-sucedida perante a regra. Aliás, estes velhos com brinco na orelha parecem corsários, mas de espírito apenas mais ou menos livre, e com pouco ou nenhum tesouro saqueado. São, pelo menos, autênticos monumentos de desprezo à fastidiosa vida de lógica patenteada, e sempre ao serviço de quem lhes dá mais.

Published at : 26-06-2017
Category : Articles and Opinion