Um fenômeno climático

e sua outra atmosfera

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Cedo demais para abrir os olhos, mas a vida é assim. Saindo da cama e afastando-se do aconchego dos cobertores, sentiu aquele frio pequeno, friozinho típico das manhãs mais úmidas. Ouviu os pingos contando segredos ao telhado da casa. Distantes e não tão viris, trovões que eram mais bocejos ou lamúrias. Os poucos carros que passavam na frente da casa faziam ouvir o desmanchar das poças no asfalto. A vida é assim. Chuveiro o mais quente possível. Não cantou. De frente pro espelho o único riso que a manhã permitia: Pareço um urso. Depois o próprio reflexo fez questão de lembrá-la dos desagrados do dia a dia. Os ursos hibernam, por que eu não? Guarda-chuva em mãos, a bolsa, comeu qualquer coisa, deixou escapar (e com direito) aquele suspiro que poupa negativa tão cruel: “não posso voltar pra cama”. Contudo, a vida é assim, o trabalho chama, e o céu nada entende das rotinas humanas. Abriu a porta, e com surpresa, viu que aquela era uma abafada e brilhante manhã de Sol. Não era do lado de fora que chovia.

Published at : 06-07-2017
Category : Poetry and poems