Ao longe

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Ao longe a diversão, as férias e os turistas, em êxtase, na embarcação a alta velocidade. E para além daquilo que lhes é proposto, eles nada mais vêem - afinal, é para isso que pagam. Mas aqui, no porto de embarque, onde alguns transeuntes almoçam nos bancos do passeio, alguma coisa disforme flutua. Não é entulho. É uma gaivota- argêntea colocada à superfície numa posição pouco usual, porque está morta. Tem o ventre branco virado para cima, e o pescoço torcido para o dorso. A cabeça está submersa e os olhos apontam para trás. Para completar o desenho, as asas semi-abertas fazem do corpo um coração-de-boi.

A corrente, claro, vai despachar a ave sem vida para fora de vista, ou talvez, para gáudio dos decompositores do lodo, ela se afunde mais depressa do que o esperado. Do peixe pequeno que por ali ronda, não há indícios de que eles possam fazer um festim com a fartura de carne à disposição; é que estão mais entretidos - acreditem - a mordiscar um pedaço de pão. Com a maré pouco baixa, os caranguejos, que já são raros nesta desembocadura, nem sombra deles. Para substituir esta falta de oportunistas à altura, só mesmo o afloramento de uma pedra, junto ao passadiço, que faz lembrar a cabeça de uma tartaruga.

Entretanto, as vozes de entusiasmo vão-se aproximando ao ritmo dos sucessos agoniantes da música hispânica. Ao perto, confirma-se que aquela caravela a motor está mesmo entulhada de gente enfeitada com coletes (de salvação). E não está só de passagem; pelo contrário, abranda e atraca para se esvaziar do peso. Todos abandonam o barco, menos o papagaio acorrentado ao corrimão. Aliás, o capitão foi dos primeiros a saltar borda-fora, e já está a seco a receber a nova remessa. Os passageiros enfileiram-se e são recebidos pela forçada simpatia de quem quer o nosso dinheiro. E os bilhetes são rasgados - tal é a originalidade - por alguém que se faz passar por um pirata das Caraíbas.

No fim, a diversão, as férias e os turistas voltam para longe, até que desaparecem por completo da perspectiva. Tudo o que fica, daquele rebuliço, é a pequena ondulação que afasta a importância do cadáver da gaivota. Enquanto que, ao mesmo tempo, como se do nada surgisse, ganha destaque um buraquinho na fresta da calçada. Está rodeado por um montículo de terra vermelha e alinha-se com mais buraquinhos por onde há pouco pisoteio. No último deles, ao pé do poste da luz, lá está uma das obreiras deste projecto arrojado. Faz de sentinela e não pede contra-senha; prefere antes o odor e a cor esbatida pelo Sol de uma embalagem vazia de Super-Maxi*.


* Um gelado (ou sorvete) clássico da marca Olá (em Portugal). 

Published at : 07-07-2017
Category : Articles and Opinion