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- Libélula deslocada

Libélula deslocada

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Excluindo o universo dos amores, da família e de algumas amizades, pouco mais se pode esperar dos benefícios da bondade humana. Tem limites e joga com contrapartidas. Aliás, sabemos que, desde que comunicamos, muito se fala (e ainda mais se escreve) sobre o que é certo e errado. E este tipo de parlapié tem obviamente muitas faces e muitas partes. E as partes, portanto, existem em toda a parte, e são para todos os gostos. Porém, o que interessa, à maioria de nós, é só isto: saber de que lado estar; e este é o lado certo de qualquer história.

Esta conversa-de-chacha vem a propósito de uma libélula deslocada. Passo a explicar: deslocada porque não estava no seu habitat natural. Nem riacho, nem pântano e nem água estagnada havia nas imediações. Somente céu, tijoleira e muros. E toda ela era vermelha. Menos os dois pares de asas que, por culpa da transparência, eram da cor daquilo onde se encostassem. Também não era grande. No mínimo, não tão grande como aquelas que eu via, nas valas alagadas (das obras), quando tinha seis anos. Sim, há muito tempo que não me deparava, em meio urbano, com uma antiguidade paleozóica destas. E o meu encantamento pelas anisópteras - podem crer - continua o mesmo. Para mim, será sempre hipnotizante ver o bailar robótico e aquele pairar preciso durante o voo - tipo drone -, com a vantagem de que agora sei que elas não podem picar; só mastigar.

Por isso, quando me dou conta dos índices de popularidade de certa gente, famosa ou não - uma vez que também é possível ser popular no meio de algumas centenas ou até dezenas de pessoas -, já não me espanto e, é claro, penso na libélula deslocada. Basta observar que a opinião separa, que a hipocrisia favorece e que a influência compensa, para que não possamos dizer que não sabíamos (a quantas andávamos). As regras não são assim tão difíceis de aprender. E há, indiscutivelmente, competência naquele que não se deixa sair (ou deslocar) do baralho de interesses próprios.

Não sei o que se passou com a libélula deslocada, muito embora acredite que ela preferisse estar no charco de um jardim a comer mosquitos. Então, o que nos leva a abdicar do conforto das partes para sermos parte de nada? Insanidade? Masoquismo? Necessidade de destaque? Eu, por exemplo, até preferia fazer parte da boa vizinhança do prédio onde moro, mas não consigo, porque a minha vizinha de baixo não se cansa de implicar com o barulho do meu banho diário.

Published at : 10-07-2017
Category : Articles and Opinion