Rosto inalterado de uma memória

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A memória é uma caixa de surpresas incrível. Passado tanto tempo - décadas mesmo - reencontro uma antiga colega da Escola Primária. Reencontro como quem diz avisto. Isto porque ela não me viu. E, provavelmente, nem me reconheceria se me tivesse visto. Não que eu esteja assim tão diferente, e que ela esteja assim tão igual. Acontece que é assim que funciona este processo: às vezes é unilateral. Inexplicavelmente, ao vê-la, algo activou o meu sensor de reconhecimento facial. Achei familiar aquela cara. E o impulso revelou-se de tal maneira profundo, que acabou por chegar às minhas vivências mais recônditas.

O nome dela está na ponta da minha língua. Fomos da mesma turma na 3ª Classe. A professora que tivemos, aliás, foi a minha professora preferida. E não, nunca tive qualquer tipo de paixoneta pela pessoa em questão, mas tive pela minha professora preferida (e que grande paixoneta). Além disso, ainda existia a Ana Catarina - outra colega nossa -, que destruía praticamente todos os corações. Inclusive o meu.

Para ajudar a festa (literalmente), fazemos anos no mesmo dia. Nunca tinha conhecido alguém que partilhasse esta data comigo. Resultado: fiquei muito chateado. Pois pensava que aquele dia fosse só meu. Estava redondamente enganado, é claro. E dividir as atenções e os parabéns (na sala de aulas) traduziu-se, naquele ano, em mais uma boa lição aprendida.

Mas o pior deu-se aquando do regresso de umas férias escolares. Ela estava quase irreconhecível. Tinha uma ferida enorme - em cicatrização - num dos lados do rosto. Ficamos todos impressionados. Havia sido atacada violentamente por um cão. E embora chocante, aquilo para nós - na verdade - não passou de uma sensação pontual. Ou seja, rapidamente deixamos de ver qualquer diferença. O que interessava era que o sino tocasse para o recreio e que fossemos brincar, e pouco mais. Por outro lado, suponho que o incidente nela tivesse deixado traumas perduráveis para toda a vida. Ou talvez não. Fisicamente, pelo menos, não perduraram; e eu sou testemunha disso.

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Published at : 15-07-2017
Category : Articles and Opinion