Receita de mim

Font Size:

Eu olhei pro bolo. Olhei pra aquela coisa nojenta. Aquele monte misturado e quente. O bolo sempre ganhava de mim. Eu ganhava das carnes e dos sucos e do queijo. Mas não dele. Aquela coisa odiosa. O bolo. Cheio de farinha, ovo, leite, açúcar e fermento. Tudo misturado como se fosse bom. Pensei na farinha branca e com gosto de papel. Um punhado de pó de trigo, horrível. Pensei no ovo, ah, o ovo saindo da galinha, aquela gema amarela odiosa e toda aquela clara grudenta de cheiro ruim. Pensei no leite, naquele fluido branco engordurado saindo da vaca ou seja lá de qual animal fosse. Todos num estábulo ou numa fábrica, todos sendo sugados. Suco de coisa viva com cálcio. E açúcar, aquele maldito açúcar refinado, aquela coisa estúpida, aquela cana triturada e retriturada e formada em grãos minúsculos e também brancos. Tudo era branco e tudo era odioso. E pra completar, o fermento, um pó químico que sabe se lá de onde tiram e porque diabos decidiram colocar aquilo no meio dessa massa horrível e doce. Aí você enfia no forno e espera, e ele incha como um monstro, o ar escapando e formando bolinhas lá dentro. Você tira antes que a natureza do forno faça seu trabalho e o queime. E joga uma cobertura horrenda e doce e marrom por cima. E diz que isso é comida.

E ali estava o bolo, na minha frente, olhando pra mim. Esse bolo que me encarava mais do que muitos amantes jamais encararam.

Esse grandessíssimo filho da puta. Eu odiava o bolo. E eu tenho certeza que o bolo me odiava também.

Eu olhava o bolo e pensava em como eu preferia receber nutrientes pela veia o resto da minha vida do que comer qualquer alimento outra vez. E o bolo ali. Eu pensava na sua textura horrível, e no bolo alimentar nojento que iria pro meu estômago me dando energia, energia demais, que seria reservada em forma de gordura. Aí o bolo, essa coisa odiosa, essa coisa horrivel e nojenta se tornaria parte de mim. O bolo seria uma parte molenga do meu braço, da minha barriga, da minha coxa. Eu não ia fazer o bolo se desintegrar no ar, acabando com sua energia. Não. O bolo também seria eu. E eu andaria por aí com um pedaço de bolo em mim e não poderia me sentar em bancos porque não caberia o bolo e eu. Na minha calça também não cabe o bolo e eu. Ou é só eu, ou só o bolo. E o bolo sabia. Ele e os outros bolos, eles sabiam. Eles queriam que eu perdesse pra irem aos poucos tomando o meu lugar. E aí eu seria inteira bolo, e de repente eu diria pras pessoas “Sabe o que é? Eu descobri que bolos são a minha paixão.” E eu abriria uma confeitaria e faria mais deles para que eles ganhassem dos outros assim como eles ganham de mim e logo tudo seria dominado por bolos. Eu não comeria esse bolo pra salvar a humanidade. Eu estava ganhando.

E então veio uma garota, da minha idade, e cortou o bolo. Pegou um pedaço e mandou pra dentro. E eu olhei a ação abismada. Ela nem sequer hesitou. Ela chegou, cortou, comeu, e foi embora como se não tivesse cedido um pouco da sua humanidade ali, pro bolo. E eu ainda parada. Olhando pro bolo. E eu já me sentia mais fraca, era o bolo sugando toda a minha força vital. E então eu cortei um pedaço do bolo, e ele já tinha ganhado metade da batalha. E eu comecei a comer, em agonia. O filho da puta era maravilhoso. Era ótimo. Aquela massa cretina e absurdamente boa. Eu me odiava. E continuava comendo e me tornando bolo. E o prazer e o ódio e a culpa por jogar a humanidade e as minhas calças pela janela se misturavam em mim. E agora eu já era mesmo bolo. E eu odiava bolos. E eles sempre venciam.

Published at : 15-07-2017
Category : Short story