Coreano versus indiano

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Em tempos, na cidade onde cresci, havia um coreano perito em aikido. Sinceramente, não faço a mínima ideia se seria oriundo do Norte ou do Sul da Coreia. Conheci esta figura enigmática quando entrei para o judo. Enquanto treinávamos, ele mantinha-se numa área mais remota do tatame. Aquecia sozinho e treinava sozinho. Mas aos poucos, no final das actividades, predispunha-se a ensinar alguns golpes a quem quisesse aprender.

Nesta altura, eu era muito pequeno, nem sei se andava sequer na escola. Duas ou três vezes por semana a minha mãe vestia-me o kimono (um ou dois números acima do meu tamanho, que era para durar), dava-me a mão, e lá íamos nós pela rua. Certo dia, num destes trajectos, um indiano (de cabeleira farta) ao ver o meu traje de luta, aproximou-se e perguntou, em português deturpado, pelo endereço do dojo. Depois de devidamente informado, agradeceu e seguiu viagem. Passado algum tempo, para surpresa minha, eis que há um encontro de titãs: coreano versus indiano. Passo a explicar: as orientações foram bem dadas e o indivíduo, obviamente, deu com o lugar.

Naquele dia, ou melhor, naquele início de noite (é que às dezanove horas no Inverno é noite cerrada), as portas da antiga garagem já estavam fechadas. Só que ninguém arredou pé da rampa de acesso. Um sujeito alto, magro e com pernas de grilo estava frente-a-frente com aquele outro sujeito atarracado, entroncado e com pernas de rã. Comunicavam-se em inglês - o que para mim era chinês. Riam e gesticulavam bastante, enquanto que permaneciam no centro de um círculo de judocas. Estariam, suponho, em conversações para porem à prova as eficácias das suas respectivas artes (marciais).

Além de ser parecido com o Neil Diamond (quando era novo), o hindu, ao que parece, era cinto negro de taekwondo; pelo menos, a avaliar pela demonstração de patanços que aquelas gâmbias exibiram para o ar, tudo leva a crer que sim. O outro - do Extremo-Oriente - tinha não sei quantos dans e não se mexeu; fez apenas algumas vénias respeitosas e sorriu cortesmente (de tal maneira, que os olhos quase fechados mais fechados ficaram). Enfim, não houve propriamente um "grito" de gato para dar início às hostilidades (até porque não estávamos, com o Lee e com o Norris, nas ruínas do Coliseu de Roma). Mas deu-se a partida à mesma.

O candidato da casa mostrou-se defensivo e nunca atacou. Somente pediu para ser atacado. Gerou-se então aquele típico momento do "olha-que-eu-dou" e o "podes-dar-à-vontade"; e a determinado instante a coisa desbloqueou. Um pé (de comprimento quarenta e muitos) precipitou-se a alta velocidade em direcção àquele rosto amarelado. Porém, centímetros antes do embate, o alvo desviou-se harmoniosamente, acompanhou o movimento, e ainda teve tempo para agarrar o calcanhar do atacante. Resultado: uma torção sublime e o Aquiles mergulhou de cabeça.

O que veio a seguir foi pura comédia: cada vez que os nervos dos metatarsos eram comprimidos, havia contorção e dor. E a gargalhada foi geral na plateia inclinada. Mais hilariante (e paradoxal) do que isto, só mesmo o predomínio do Japão (que vestiu a pele da Coreia), e a rendição da Coreia (que vestiu a pele da Índia). É que o aikido é japonês, e o taekwondo é coreano.

Resumindo, estava derrotado o visitante. Ganhamos.

Published at : 17-07-2017
Category : Articles and Opinion