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- À liberdade.

À liberdade.

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- Quem sabe se eu escrever uma carta?... Não. E a quem endereçaria? Que tal um diário? Mas que ideia sem propósito, Paolo! Como se não bastassem os seus cinquenta anos, só as meninas fazem isso. E uma poesia? Sabe melhor do que ninguém que tua veia poética deixa muito a desejar. E que tal?... um conto? E por que não? Sempre gostei desse gênero; deixarei fluir a criatividade e, neste transcorrer, a história surgirá e porei fim à minha angústia. É, é isso mesmo.

- Bom, agora, os personagens... Quem e quantos seriam? Mas que tolice, é só eu tomar emprestado os mesmos que passaram o domingo comigo. Afinal de contas, nada melhor do que me manter fiel aos fatos e, assim, transmitir realismo ao texto.

Dr. Paolo encostou-se no espaldar e, desviando o olhar da tela do computador, mirou além da janela. O jardim, seu orgulho, fazia-o relembrar do domingo anterior, em que comemorou o seu quinquagésimo aniversário, na chácara do falecido pai, no interior do Estado. Começou refazendo as primeiras horas do dia. Achou enfadonho; melhor seria adiantar o relógio.

- Então... Já sei! O conto se inicia quando os convidados começam a chegar. É, é isso mesmo. – E o experiente criminalista deixava-se levar pela memória, excelente parceira e roteirista, sobretudo quando alimentada pela imaginação.

Os ponteiros aproximavam-se das onze horas. Ao céu, límpido e de um azul que extasiava, somavam-se o júbilo do sol e a turquesa das araucárias que, alhures, entregavam-se à dança pausada, acompanhando o vento. O fogo, de preparo tão nobre, ensaiava os primeiros estalidos, quando os parentes mais próximos começaram a chegar, saudosos, sedentos e famélicos.

- Meu gorducho, cadê o meu gorducho? – Foi o que perguntou à esposa, assim que soube que a filha e o genro tinham chegado.

- Meu sogro predileto!... e único. Sei que o presente com que vem sonhando é fazer carinho no seu neto. Por isso, resolvemos economizar e não compramos nada. – A afeição entre ambos era sincera, o que permitia às duas famílias um convívio harmonioso e, dentro do possível, frequente, como sempre desejou.

- Mentira, papai. Espero que goste. – Foi difícil achar uma lembrança que se adequasse à data memorável e ao orçamento apertado. O esforço, no entanto, valeu à pena; até porque, seu genro tinha toda razão.

Não demorou muito para que o restante dos convidados chegasse e se pusessem à vontade. Havia picanha, maminha, costela de boi, linguiça e asinhas de frango à farta, o que impunha responsabilidade ao churrasqueiro e encantava os mais vorazes. A bebida? Acharam que dois barris de chope não seriam suficientes e, com um “aperto no coração”, preferiram garantir-se, encomendando um tonel a mais. Pãezinhos e maionese, não os serviam por hábito; a salada de folhas com tomates-cereja, devoravam-na antes e durante as carnes.

As horas do aniversariante bem que gostariam de se manter preguiçosas. A surpresa e a satisfação em rever a parentela mais remota, as picantes recordações que descavavam nas rodas dos amigos mais fiéis, a alegria infantil que corria despreocupada ao redor da casa sede e a ternura, o carinho e o sorriso incomparáveis do único neto eram os lenitivos ideais para quem não queria ver chegar o fim do dia.

Mas o crepúsculo, inexorável desmancha-prazeres, já intimava os cautelosos a levantar acampamento. E quando o primeiro casal resolveu despedir-se, Seu Lutero, o caseiro de quase três décadas, aproximou-se com toda a família e, orgulhoso, dirigiu-se ao patrão:

- Dr. Paolo... – O patrão se virou e, surpreso, proclamou efusivo:

- Diga a que veio, meu prestimoso e leal escudeiro!

- Eu, mais a Maria, aqui, não temo muito jeito com presente. Então, a gente teve essa ideia, e resolvemo arrumá essa lembrancinha pro senhor. Espero que o senhor goste, porque a gente fez de todo o nosso coração, com muito amor mesmo, por tudo que o senhor fez por nóis. – Não só o anfitrião se sensibilizava. Todos os convivas que estavam ao redor também se comoviam, pois sorviam, irresistíveis, da mesma gratidão que se espargia dos sorrisos do casal e que se materializara naquela humilde lembrança.

Ao estender as mãos, recebendo o regalo, o penalista não teve dificuldade para deduzir-lhe o conteúdo, não obstante o papel colorido que o revestia, perfurado aqui e ali.

- Espero que o dotô goste. – Disse Maria, não escondendo a satisfação, pois ela mesma escolhera a estampa com que embrulhara a gaiola.

- Nossa... eu não sei o que dizer. – Nesse meio tempo, muitos já os tinham circundado, loucos por conhecer qual a espécie aprisionada.

- Ora, não precisa dizer nada, não senhô. É só abrir! – E riram todos, diante desse espontâneo retruque.

Mas antes de rasgar o papel, e todos o acompanhavam em curiosidade, Dr. Paolo notou que seu neto, que se introduzira naquele círculo, fitava-o com as sobrancelhas franzidas. Nesse átimo, toda uma cena se lhe veio à mente... E ao contrário do que vinha demonstrando, sucumbiu à consciência e começou a desfazer o embrulho muito envergonhado; a cada gesto, um arrependimento se somava ao outro.

E não demorou muito para que apreciassem um lindo filhote de maritaca, cuja plumagem verde já se completara e que pouco se debatia, pois que ainda mudo, trêmulo e acuado diante do seu novo destino.

Ao ver o pássaro indefeso, Pedro estremeceu! Tentou arrancar do avô uma resposta... Não a obteve. Refém da máscara que a si mesmo impôs, o matreiro causídico não conseguia retribuir-lhe o olhar; e sucumbia silente diante de um adversário infinitamente superior, imbatível em seus oito aninhos, e a quem jamais um dia pensou enfrentar.

A pobre criança correu desesperada em direção ao seu quarto, revelando a todos os olhos úmidos e o pranto entrecortado pelos soluços.

- Mas o que aconteceu com o Pedro? – Perguntou o caseiro.

- Eu não sei. Mas... Que lindo presente, Lutero! Vou guardá-lo, ou melhor, vou levá-lo para casa. Será como ter vocês dois sempre perto do meu coração. Muito obrigado mesmo. A propósito, ele, ou ela, já tem nome?

- Que é isso, patrão. Essa honra é do senhô.

- Bem, então?... Vou chamá-lo de Pedro. E quem sabe essa pequenina homenagem faça com que meu neto volte a ficar contente. Aliás, e se me dão licença, vou contar a novidade para ele. – Com esse pretexto, o preocupado avô conseguiu desvencilhar-se e foi ao encontro do seu tesouro mais precioso. No entanto, ele mal sabia como começar a falar.

- Bem, até que o introito não foi difícil. Será que devo pular para a conversa que tive com o Anselmo? Well, well?... Não. Prefiro me manter no fio da meada e só depois trazer aquele desabafo para a história. É, é o melhor a fazer. – E Dr. Paolo desencostava a cabeça do espaldar e retomava o teclado do computador.

- Pedro, posso falar com você? – Como a criança não respondia, ele resolveu entrar.

- Por que o meu futuro campeão de vôlei saiu correndo da festa do vovô? Aconteceu alguma coisa? – Foi uma das poucas frases que conseguiu criar nos poucos metros que o separavam do neto.

- Será que o vovô não teria o direito de saber o que houve? – Pedro, que estava deitado de bruços, mas já tinha parado de chorar, virou-se para o avô e, encarando-o com sua pureza, respondeu-lhe à terna voz:

- Vovô, posso perguntar uma coisa?

- Claro! Pode falar. – Descuidando-se do que se lembrara, o experiente advogado abria a guarda mais uma vez, desarmado que era pelo semblante inocente.

- Aquele dia que a gente tava vendo TV, na casa da mamãe, e a gente tava vendo o papagaio, o senhor falou mentira? – Foi como se lhe tirassem o chão dos pés! E foi com um esforço hercúleo que conseguiu retomar o diálogo.

- Pedro, como poderia explicar?... Aquele dia, na casa da sua mãe, em que assistíamos àquele programa na TV, tudo o que eu falei, tudo o que conversamos, foi a mais pura verdade.

- Mas?...

- Calma, deixa o vovô tentar explicar. – Era difícil encarar aqueles olhinhos que lhe pareciam traídos.

- Uma coisa, meu neto, é o que a gente sente, o que está dentro de nós. Outra, bem diferente, é o que a gente precisa demonstrar para as pessoas em determinadas situações.

- Eu não tô entendendo.

- É, eu sei.

- O senhor disse que passarinho na gaiola é uma coisa muito feia.

- É, eu disse. Disse e continuo crendo nisso. Mas...

- Vovô?

- Sim?

- Eu tô muito triste com o senhor. – Dr. Paolo emudeceu. Baixou os olhos envergonhado e ensaiou um perdão. Não teve coragem. O máximo que pôde fazer foi dar-lhe um abraço e um beijo carinhosos, entremeados por um profundo arrependimento.

- Pois é, meu caro Paolo... – Pensava alto, ao mesmo tempo em que se recostava – Acho melhor você trazer o Anselmo para a história antes que as lágrimas te obriguem a deletar tudo isso. Que seja, então.

Não demorou muito para que Cristina fosse à procura de ambos, pois seu marido, o genro igualmente predileto e único, já a impacientara o suficiente com a volta para casa.

A despedida se deu um tanto retraída, o que causou estranheza à avó e aos pais de Pedro.

Na hora de sempre, em plena segunda de trabalho, Dr. Paolo reencontrou o vizinho com quem costumava almoçar. E foi antes que os pratos principais chegassem que este, apercebendo o desassossego do amigo, deixava-o à vontade, e aquele puxava o assunto que lhe interessava:

- Pois é, meu amigo, ontem fiz cinquenta! Não tenho certeza se dizem que é a idade do condor ou de outra ave qualquer. Se bem que, de uns tempos para cá, tenho notado que já não me levanto com a mesma disposição de antes.

- De uns tempos para cá?... Você não quereria dizer: Uma constância que o persegue há vários anos?

- É incrível, Anselmo, como às vezes você demonstra sinceridade com a mesma sutileza de um hipopótamo raivoso. – Ambos riram. Amigos há vinte e cinco anos, os Drs. Anselmo e Paolo eram colegas de profissão, mas militavam em ramos diferentes.

- Lamento não ter podido ir à sua festa. Mas, você sabe, prometi ao meu neto que iria prestigiá-lo no campeonato de judô.

- Eu sei, eu sei... Não precisa se desculpar. O que não fazemos pelos netos, não é mesmo?

- É verdade. Em minha casa, e sei que na sua também, eles mandam mais que as nossas patroas; quero dizer...

- Não tente justificar, Anselmo. Senão, a emenda fica pior que o soneto.

- Tem razão, tem razão... Faz de conta que ninguém ouviu.

- De acordo. E...

- Sim?

- Já que falou nos netos... – Ao contrário do que esse assunto naturalmente inspiraria, Dr. Paolo ficou encabulado, o que foi percebido pelo colega.

- O que foi? Aconteceu alguma coisa com o Pedro?

- Com ele? Não!... Está mais alegre e saudável do que nunca.

- Que bom. Mas, então, o que houve?

- Sabe, Anselmo...

- Fala, homem! Desembucha.

- O que você faria se, de repente, seus valores fossem postos à prova? Já se perguntou isso?

- Ora, quantas vezes já passamos por isso, sobretudo no meio em que atuamos. Você sabe perfeitamente que é preciso uma força moral muito bem solidificada para nos mantermos íntegros diante dos absurdos que nos aparecem de vez em quando. É claro que...

- Sim...? – A sobrancelha direita de Dr. Paolo se levantava.

- Bem, de vez em quando, a gente escorrega um pouquinho aqui, um poucadinho ali. Mas não passam de pecadilhos, digamos assim.

- Não estou me referindo ao axioma “Só contar ao cliente aquilo que cheira, e não o que fede”.

- Não?

- Não. Quero dizer... Quando você se depara com uma situação, hipotética, que fique bem claro...

- Tá bom...

- Bem, como dizia até ser “rudemente interrompido”, com uma situação em que alguém olha para você, esperando uma determinada reação e, naquele átimo, ou você se mantém firme em seus valores, ou...

- Ou...?

- Ou aquele de quem mais gosto tem a maior decepção que seus oito aninhos jamais experimentaram.

- E, por óbvio, é aí que o Pedro entra.

- Ululante.

- Bem, para poder dar um bom conselho, e já que os pratos estão demorando, o melhor é ouvir tudo o que aconteceu. Vamos lá, caro amigo, sou todo ouvidos. – Restavam apenas duas azeitonas de antepasto quando Dr. Paolo começou a rever o fato gerador de todo o seu dissabor:

- Agora, depois que repetimos essa maravilhosa salada de frutas...

- Não esquece o sorvete!

- E das duas bolas de sorvete para cada um, como bem lembrou o meu netinho comilão... – e as risadas infantis, espontâneas e deliciosas, enchiam de alegria o almoço dominical – nós vamos, o que mesmo?...

- “Pegadinhas”! – Foi em uníssono que Pedro e o avô gritaram à mesa, o que gerou risos e comentários de todos.

- Não vai tomar um cafezinho, papai? É só o tempo de passar.

- Aproveita a deferência, meu sogro. O cafezinho em família da Cris costuma vir com raspas de limão e biscoitinhos.

- Olha...

- Ah, vovô...

- Deixa, papai. Eu levo pra você na sala.

- Está bem, minha filha. Fico aguardando. – Pedro e o avô se foram à TV, Cristina e sua mãe começaram a tirar a mesa e Carlos... bem, como de hábito, ficou esperando o café, enquanto folheava o jornal.

- Eu não sei quem foi o mais cara de pau: se você, que se escudou em uma criança, ou seu genro, que sequer pensou em justificativas. – Interrompeu Dr. Anselmo, com ar de gracejo.

- Posso continuar ou tá difícil?

- Fala, Paolo, fala... Opa! Finalmente a comida chegou.

- Caramba, dessa vez demorou, hein Bigode?

- Sabe o que é que é, Dr. Paulo...

- Paolo, Bigode, Paolo!... Quantas vezes eu vou ter que repetir?

- O dotô sabe que o meu ingrês não é tão bom assim, né dotô?

- Tá certo, Bigode, tá certo... – E depois de algumas risadas, partiram ao refestelo. Quando o grosso do apetite já havia sido saciado, Dr. Anselmo retomou o assunto:

- Mas, então, Paolo, você parou no momento em que seu genro lia o jornal e esperava o cafezinho. E aí?

- Ah, é verdade. Bom, ligamos a TV e estavam passando as famosas “Pegadinhas” de domingo. E como sempre, eu e meu neto, mais meu neto do que eu, nós nos divertimos muito com esse quadro.

- “Mais seu neto do que eu”? Claro, claro...

- Continuando... Lá pelas tantas, e no mesmo instante em que conversava com minha filha, que acabava de trazer o cafezinho, Pedro apontou uma cena, e que talvez você até já tenha visto, pois que, de tão inusitada, provavelmente vivem repetindo: Um cinegrafista, creio que amador, filmava da rua a janela de um prédio, que parecia ser do segundo ou do terceiro andar.

- Mais dois chopinhos?

- Pode mandar, Bigode.

- Ainda bem que não temos audiência hoje. – Aquiesceu Dr. Paolo.

- E então?

- Bom, a cena mostrava uma janela protegida por uma rede.

- Como assim?

- Ora, dessas redes que colocam para evitar que crianças caiam das janelas.

- Ah, entendi.

- Acontece que aquela rede não tinha por fim proteger uma criança, mas, sim, evitar que um papagaio, que não estava confinado em uma gaiola, saísse voando por aí.

- De certo que pertencia a uma viúva de idade avançada e que só tinha esse pássaro como bichinho de estimação.

- É provável. Mas o que importa é o seguinte, e daí o inusitado, o singular, o sui generis: Alguns pombos voavam até o parapeito daquela janela atraídos sabe por quê?

- Uma certa compaixão velado-emplumada?

- Olha, se não fosse o motivo verdadeiro, eu até que engoliria essa sua explicação. – Ambos riram.

- Bem, eu não faço a menor ideia.

- Os pombos vinham por causa das bolachas de água e sal!

- Não entendi.

- Pelo que deu pra ver naquela cena, parece que a tal viúva colocava bolachas num pires e em cima do caixilho, para o papagaio poder comer quando bem quisesse. Só que, ao invés disso, ele alimentava os visitantes, entregando as bolachas aos pombos com o bico, através das aberturas da rede!

- Tá brincando?!

- Não estou não. Nem preciso dizer que foi o melhor quadro que vimos no domingo.

- Mas, que coisa louca! Não é à toa que foi parar na televisão.

- Pois é, meu amigo... E tudo seriam flores, se Pedro não tivesse feito uma singela, pura e, por que não dizer, perspicaz pergunta.

- E o que foi que ele disse?

- “Vovô, ele é feliz?”

- Ai, que essa doeu!

- E como!...

- E o que foi que você respondeu?

- O meu “não” se somou ao dele. Disse que um pássaro preso, seja numa gaiola, seja num apartamento, deve ser uma criatura profundamente triste. E, por isso mesmo, ele tem que fazer alguma coisa para compensar a infelicidade e o tempo que não passam. Daí que uns cantam, como os canários, e outros, como aquele papagaio, dão de comer aos amiguinhos que estão livres, mas que vivem com fome.

- E ele?

- “Vovô, passarinho preso é muito triste.”

- E você...?

- Continuei minha lição de moral e afirmei, inclusive, que jamais admitiria que uma ave engaiolada entrasse em minha casa.

- E suas respostas foram sinceras? – Dr. Paolo apertou os lábios e levantou as sobrancelhas:

- Quer a verdade verdadeira ou se contentaria com a “dos autos”?

- Quer um conselho verdadeiro ou se... – Antes que terminasse, seu amigo o atalhava:

- Está bem, está bem... Para dizer a verdade, eu nunca me preocupei com isso. Para mim, tanto faz um pássaro engaiolado, limitado a um apartamento luxuoso ou voando por aí. E para continuar dizendo a verdade, eu até que gosto de ouvir o canto dos canários.

- Mas quando o tema envolveu Pedro, nada melhor do que compartilhar-lhe a opinião, não foi?

- E não é esse o papel de um avô amantíssimo? Fazer todos os gostos do seu único neto?

- Ou será o de um advogado mais que matreiro?

- Lá vem você com o passo do hipopótamo...

- Bom, pelo que deu pra deduzir, aconteceu alguma coisa no seu aniversário que teve a ver com o Pedro e com essa tomada de posição pseudo-ambientalista.

- Na mosca. – Dr. Paolo contou tudo o que tinha ocorrido.

- É, meu amigo, teus valores foram postos à prova. E pelo visto...

- Mas, que droga, o que é que eu podia ter feito?! Recusado o presente que os caseiros prepararam para mim com todo carinho, e na frente dos meus convidados?

- Realmente, Paolo, você ficou numa sinuca de bico. Se tivesse repelido o presente dos seus funcionários, em nome do que dissera a seu neto, eles ficariam eternamente magoados. Por outro lado, Pedro não teria ficado com o coraçãozinho completamente dilacerado. – Ele não falou por mal. Às vezes, porém, seu jeito espontâneo extrapolava.

- Você não está ajudando muito, Anselmo.

- Desculpa, desculpa... Eu só estava pensando alto.

- Pois vê se pensa baixinho e me dá uma ideia para, pelo menos, remediar essa situação, está bem?

- Claro, claro... Que tal?...

- O quê?

- Nada, nada...

- Anselmo!

- Ora, tenha calma. Se a atitude for temerária, e como você bem lembrou, a emenda poderá ficar pior que o soneto.

- É, tem razão.

- Pois, então...

- Sabia que antes de vir almoçar eu liguei pra minha filha, logo pela manhã, só pra saber como o Pedro estava?

- E ele?

- Cristina tentou contemporizar, dizendo que isso era coisa de criança e logo passaria.

- E vai passar.

- Mas quando perguntei se poderia falar com ele, ouvi do outro lado da linha, e ao fundo, um lancinante não.

- Paolo, ela tem razão. Ele é só uma criança. De certo não levará mais que alguns dias para esquecer esse fato.

- Não meu neto. O garoto tem personalidade. Com certeza ficará magoado comigo por um longo tempo.

- Escuta, deixa eu fazer uma pergunta: Trouxe o Pedro para casa?

- Não. Ele voltou com os pais.

- Eu me referia à maritaca.

- Ah, sim. A gaiola está na área de serviço. E o pior é que o bichinho está abatido, acossado... não quer comer, não faz barulho; mal e mal bebe água. Se continuar assim, ou ele morre, ou...

- Ou o quê?

- Ele morre.

- Você não teria coragem, Paolo?!

- Ora, e por que não? Ele é só um passarinho azarado que estava no lugar errado e na hora errada. Além do quê, ele foi o pivô de todo o nosso desentendimento.

- Pensei que tivesse sido a sua reação diante dos caseiros.

- É verdade. A quem estou tentando enganar?

- Além disso, Paolo, vamos supor que a maritaca voasse dessa pra melhor. E se o Pedro descobrisse?

- E quem contaria?

- Bem, eu ainda não consegui quitar uma antiga dívida... – E riram uma vez mais.

À sobremesa seguiu-se o cafezinho; e a esse, a dolorosa. E nenhuma ideia lhes vinha à mente.

- Parece que não fui tão útil quanto você esperava, não é?

- Tudo bem... Fui eu que me meti nessa enrascada; terei que descobrir um jeito de sair dela. Mas até que foi bom almoçarmos juntos. O só fato de eu ter desabafado, já me ajudou muito.

- Mas que droga! Bem que o Anselmo podia ter pensado em alguma coisa! – E largava o teclado; e encostava-se à espalda. Passados alguns minutos, porém, e Marta vinha ter com ele:

- Calma, querido. O sábado logo chegará e poderemos visitar o nosso neto. Quem sabe não seria o caso de convidá-los para um passeio, um almoço em alguma cidade do interior? Por certo que ele ficaria deslumbrado se o avô mais que coruja lhe pagasse uns dois ou três sorvetes.

- Marta, é por isso que não me arrependo de ter casado com você! Cada vez mais noto-lhe a agudeza de espírito, a pertinência no falar.

- Você costumava ser mais romântico.

- Eu sei, meu amor, mas se me deixar levar pelo coração, o lampejo que tive, devidamente inspirado por você, é claro, poderá se perder no esquecimento. Preciso incrementá-lo o mais rápido possível.

- Só vou perdoar por que sei que se trata de Pedro. Mas, afinal, você pensou em quê?

- No devido tempo, Marta, no devido tempo...

Dr. Paolo sentia-se revigorado. Como a agenda era-lhe favorável, resolveu dar-se folga do escritório. Foi para área de serviço, encarou o desditoso pássaro e, esfregando as mãos, apanhou a gaiola. Pedro mal teve forças para se debater.

- Do jeito que está, você não fica. – E foi tão convincente em sua fala que Marta até se espantou:

- O que vai fazer com ele? Você não teria coragem?!

- Lamento, Marta, mas é preciso.

- Paolo, você enlouqueceu? Você não tem coração? E se Pedro descobrir?!

- Já ouvi isso antes... Que eu saiba você não contraiu nenhuma dívida, não foi?

- Mas do que você está falando?

- Marta, fica calma. Como disse o Anselmo, ele vai dessa pra melhor e nossos problemas acabam. Com licença. – E saiu levando a maritaca, sem se preocupar com os protestos da esposa.

No final da tarde, Dr. Paolo voltava só. Fez questão de se manter calado e não deu ouvidos aos resmungos e pedidos de explicação. Tinha tomado a decisão mais acertada e isso lhe bastava. Marta e Pedro haveriam de compreendê-lo e perdoá-lo; era uma questão de tempo. Pelo menos, era com isso que contava.

A semana passava lenta e angustiante ao coração do avô. Os protestos de Marta foram esfriando, esfriando... E na sexta-feira, e isso lá pela tarde, o relacionamento com o marido já estava quase normalizado, a ponto de conversarem sobre as manchetes dos jornais. Quanto à reconciliação com o neto?... Na verdade, se o telefone não soava a negócios, só trazia da filha as saudades costumeiras. Ela bem que tentava tranquilizá-lo, afirmando, sob palavra, que Pedro já o tinha perdoado. Ele, entretanto, ressabiado que era, não se convencia e afirmava para si:

- Calma, ainda não é o momento.

No dia seguinte, a mãe de Cristina acordava sozinha. Ao contrário do habitual, pois que a preguiça de sábado era sagrada, Dr. Paolo já se havia vestido, tomado café e lido o jornal.

- Paolo, aconteceu alguma coisa?

- Não.

- Mas, então, por que você já levantou, e por que já está trocado?

- Ah, é que... eu tenho que dar uma saída, mas volto logo. Só estava enrolando um pouco para não chegar muito cedo. Aliás, já está na minha hora.

- Paolo Marcondes de Oliveira!...

- Ih!... quando o nome vem completo, o copo tende a transbordar. Como dizem os mais jovens: Fui. – E nem se deu ao trabalho de continuar a conversa.

Dona Marta não entendeu a reação do marido. E menos ainda quando, lá pelas dez, sua filha ligava, intrigada:

- Mamãe?

- Ah, oi querida. Tudo bem?

- Tudo. Escuta, o papai está aí?

- Não. Aliás, já faz mais de uma hora que ele saiu apressado e sem dizer para onde ia. Por quê?

- É que um boy acabou de entregar uma carta escrita pelo papai, pedindo que nós três fôssemos encontrar vocês no parque da cidade, na entrada sul e exatamente ao meio-dia. Não é estranho?

- É... Bom, talvez isso tenha a ver com a saída misteriosa de seu pai.

- Saída misteriosa?

- É que ele acordou cedo, se trocou, tomou café e saiu sem dizer para onde ia.

- Então é isso. Quer fazer uma surpresa para o Pedro; contratou um boy para entregar a carta e aproveitou para comprar um presentinho. Esse é o Dr. Marcondes... O que ele não faz pelo neto!

- Mas por que seu pai não me contaria? Fez todo um segredo que até me deixou preocupada.

- Ora, talvez quisesse fazer surpre... Ih! estraguei a surpresa dele.

- É, acho que sim, minha filha.

- Mamãe, finja que não sabe de nada. Assim, o papai não fica chateado, está bem?

- Está certo, querida. Já basta a mágoa que ele teve que carregar por causa daquele passarinho.

- E por falar nele, como está o Pedro?

- Como assim?

- A maritaca, mamãe.

- Ah, sim... ih, minha filha, nem te conto!... – E Dona Marta não se conteve.

- Eu não acredito que o papai teve coragem! E quando o Pedro souber?

- Nem posso imaginar. Fiquei por conta com seu pai, por quase toda a semana.

- Puxa, não pensei que papai fosse tão cruel assim.

- Bem, filha, o bichinho já estava mais pra lá do que pra cá.

- Mas isso não justifica, não é, mamãe?

- Filha, peço que você também finja que não sabe de nada. Senão, seu pai ficará bem com Pedro e sofrerá mais uma semana com tua reprovação.

- Tudo bem. Pelo Pedro, eu faço isso. Mas, depois, eu e o Dr. Marcondes vamos ter uma conversinha.

- Opa! ele acabou de chegar. A buzina do nosso carro é inconfundível. A gente se vê no parque.

- Tá bom; beijos.

- Tchau, minha filha; beijos.

Quando Dona Marta se preparava para abrir a porta, seu marido entrava com um aspecto um tanto diferente. Estava equilibrado e sorridente. E sem lhe dar tempo para soterrá-lo com perguntas, Dr. Paolo levantava as mãos e lhe fazia sinal, pedindo tempo:

- Marta, em nome de todos os nossos anos de casados, do nosso amor, que é eterno, verdadeiro, peço que me ouça primeiro e só depois pergunte, está bem? – Procurando representar da melhor forma que podia, a dedicada esposa fez sinal afirmativo.

- Como quiser, meu misterioso esposo.

- Eu sei que você está muito intrigada com a atitude que tive, pela manhã.

- E mais ainda com sua inexplicável saída.

- Sim, sim... No entanto, tudo tem um porquê.

- Que bom...

- Pois é. Só que, para que eu consiga dar uma explicação realmente satisfatória, é preciso, eu diria, é imperioso que você suba, se troque e saia comigo. Quando chegarmos a um determinado lugar, você saberá de tudo; eu prometo.

- Será que essa explicação é tão complicada assim, que preciso fazer tudo isso, em pleno sábado e quase na hora do almoço?

- Garanto que você não se arrependerá.

- Espero que não. Senão, meu caríssimo esposo, eu somo a crueldade que você cometeu com o indefeso passarinho e, com certeza, alguém vai dormir no sofá, hoje.

- Eu pensei que você tivesse entendido.

- Entendido, sim; perdoado, não. – E virou as costas e se pôs em direção ao quarto.

Eram quase doze horas quando o carro da família Marcondes estacionava ao lado do portão sul. Cristina, César e Pedro já os estavam esperando, fazia uns dez minutos. E dando corda à sua performance, Dona Marta aparentou espanto.

- Então este encontro tem a ver com o Pedro, não tem?...

- Calma, calma... Mas ele não parece muito feliz em me ver, não é? – De fato, quando Pedro avistou o avô, fechou a cara, jogou o sorvete no chão, o que lhe rendeu uma boa repreensão dos pais, e se apegou à mãe. E o coração convalescente reabria-se em feridas.

- Calma, querido. Lembre-se, ele é só uma criança.

- Eu sei, eu sei... – Os cumprimentos, trocaram-nos com pouca alegria.

- Olá, Pedro. Não vai dar um beijo no vovô? – E ele manteve o rosto colado à perna de Cristina.

- E então, meu amantíssimo sogro, quantos Habeas corpus você protocolou nessa semana, hein? – A intenção do genro até que foi boa; ineficaz, é bem verdade, mas boa.

- Querido, acho melhor a gente entrar no parque, passear um pouquinho, tomar mais alguns sorvetes... Que tal, mamãe?

- Seria ótimo, minha filha. Vamos, então? – Era triste reconhecer que, se o dia estava ensolarado, isso pouco reluzia em seus semblantes.

- Não se preocupem. Um advogado ladino como eu, ainda por cima quinquagenário, sempre tem uma última carta para o caso de... Ah! Bem na hora aprazada. – Uma pequenina van se aproximava e, atendendo ao sinal de Dr. Paolo, parou próximo a eles.

- O que é isto, Paolo? – Perguntou Dona Marta, falando por todos.

- É aqui que devo entregar uma encomenda pro senhor... – de propósito, e sorridente, o condutor fazia suspense – Pedro Ribeiro Marcondes de Oliveira?

- Pois é aqui mesmo, meu rapaz! – Retrucou o avô, com otimismo. E, como toda a criança, a curiosidade falava-lhe mais alto; e se desgarrava da mãe.

O entregador abriu a porta e retirou um grande embrulho, cujo formato até Pedro identificou; e estremeceu.

- Papai! Como se não bastasse a desilusão que o menino teve com aquele presente infeliz, e que gerou todo este mal estar entre vocês, e o destino que deu àquele pássaro, o senhor nos fez vir até aqui para repetir o mesmo erro?! O que pensa ganhar com isso? – Cristina não se aguentou e tomou as dores do filho diante de uma outra gaiola, também embrulhada para presente e em cujo papel se viam outras tantas perfurações.

Mas, ao contrário do que esperavam, Dr. Paolo se manteve firme. Pegou a gaiola do motorista, que se constrangia a cada segundo, agachou à frente do neto e disse-lhe, à voz sincera e pausada:

- Pedro, um dia eu lhe afirmei que manter uma passarinho em uma gaiola é um verdadeiro crime; que não há coisa mais triste para esta pobre criaturinha, do que passar uma vida inteira presa a um lugar tão pequeno; que o máximo que ela pode fazer é saltar de haste em haste ou trinar um canto forçado; e que esse canto, que muitos ouvem com tanto prazer, só Deus sabe o quanto carrega de melancolia. – A criança, de olhos fixos, ouvia-o calada, imóvel.

- Papai?... – Mas diante de um gesto, Cristina se calou.

- Por isso, meu neto, é com este presente que me desculpo com você. – E começou a rasgar o embrulho.

Para espanto da filha e da esposa, e graças à intervenção de um veterinário especialista, cliente e amigo de muitos anos, Pedro, a maritaca, estava completamente revitalizada, em que pese ainda assustada, tratada que fora com a dedicação e a competência que o caso exigia.

- Mas você não tinha?... – Foi como Dona Marta e Cristina reagiram, e ao mesmo tempo.

- Toma, meu neto. Abra a porta deste cativeiro e deixa esta criatura de Deus voar, voar para a liberdade, para perto dos seus novos amiguinhos! – Nunca viram em Pedro um sorriso tão gostoso, tão puro, tão agradecido!... E enquanto as mulheres não retinham as lágrimas e César abraçava a esposa, o patriarca apertava os lábios e apenas esperava.

Foi com um beijo no rosto do avô que a criança, ainda muda, demonstrava o seu coração.

E como que guiada pelo instinto, Pedro se libertou. E voou para as árvores, e voou para os seus.

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Published at : 25-07-2017
Category : Short story