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- Cascata estreptocócica

Cascata estreptocócica

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Uns quantos peixes a entrarem pela saída do esgoto que escorre para o rio - nunca tinha visto. E por onde entraram nunca saíram - pelo menos eu não vi. Está provado: afinal, há habitantes nesta cidade que me espantam todos os dias. Se não for da água suja que bebem para respirar é daquilo que fazem para sobreviver. Mas acreditem: são mais do que animais de espinhas atravessadas (da garganta ao rabo). Isso é certo.

Possivelmente, há uma armadilha a montante das descargas e eles não voltam por isso. Ou então, não voltam porque a fartura é muita lá dentro. Quer dizer, voltar é muito provável que voltem sempre. Vivos ou não, mais tarde ou mais cedo, os músculos (e a energia) vão ceder à corrente. E eis que derramados eles serão na confluência como se tivessem vindo de longe. Como se tivessem percorrido a embaraçada rede de opções para chegar ao lugar de onde nunca deveriam ter saído.

Depois, para ajudar, há um polvo-gigante (por cima do portal) que lhes guarda a entrada. Ok, é a sombra de um velho guindaste desactivado, mas que foi estimado para dar abrigo a mais um ninho qualquer. É, portanto, uma presença estática na paisagem: não roda, não sobe e não desce. Também já não levanta cargas - deixou-se disso. Apenas obedece à lei do Sol e tentacula sobre quem se aglomera sedento na pequena cascata-estreptocócica.

Entretanto, sem agrupamentos (e dentro ou fora de coisa que o valha), o que capta mais a atenção é a criatura solitária. Como, por exemplo, aquele outro que se isolou e que se pôs a olhar para uma ostra-caminhante. Ei, esperem lá! As ostras não andam! Aquilo era um caranguejo - maior e muito mais claro do que o costume. Estava bem camuflado. Só não enganou a curiosidade do peixe, que volta-e-meia encostava os beiços à carapaça do pobre coitado.

Enfim, e o que dizer dos que não entram e nada fazem? Sim, daqueles que ficam por ali a circundar o rebordo do cano (tanto do esgoto como da arma) e a cheirar o perigo. E que, vendo bem, é a maioria, porque só os corajosos se aventuram pela estranha-maré. Bem, talvez os medrosos não sejam assim tão medrosos, e talvez até façam parte de um grande plano. E aquilo que lhes sai pela retaguarda talvez não seja do medo (ou uma mera necessidade comum). Quem sabe se o rasto serpenteado (e de cor acastanhada), que eles vão deixando pelo caminho, sirva somente para proteger os companheiros e demarcar uma posição.

Published at : 31-07-2017
Category : Articles and Opinion