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- A renúncia.

A renúncia.

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A renúncia. Idealizado por um pequeno grupo de maestros, a que logo aderiu a classe musicista, o I Concurso Nacional de Música Erudita - Solistas de Piano, que contara com o total apoio dos órgãos públicos e da iniciativa privada, já estava prestes a anunciar os finalistas. Por quase oitos meses os acordes ressoaram, preencheram e deliciaram inúmeras almas afortunadas que, privilegiadas pelo sentimento, deixaram-se enlevar por jovens solistas de variadas camadas sociais. Unidos, tão só, pelo ideal e dom refinados, os melhores de todos Estados da Federação fizeram-se representar, e uma das mais belas expressões artísticas ecoava sem precedentes. Porque a ideia nascera na capital paulista, a Sala São Paulo, a maior e mais moderna sala de concertos da América Latina, foi o local escolhido para a apoteose. Não por isso que, em menos de quarenta minutos a contar do instante em que se iniciaram as vendas, a esmagadora maioria dos assentos disponíveis já haviam sido adquiridos, lotando-se o Piso Térreo, o Mezanino e o Piso Superior, incluindo-se os quinze lugares reservados aos cadeirantes, e os quarenta e oito, aos cativos. Diante de tamanha repercussão, e da consequente pressão, os candidatos que permaneciam no certame procuravam isolar-se da melhor maneira que podiam, recusando-se uns, até, a receber a imprensa. Toda a concentração era-lhes imperiosa e muitos levaram a sério o ideal do fugere urbem. Esta opção, no entanto, distanciava-se anos-luz de Wesley, filho de Paraisópolis, a segunda maior favela da capital e encravada no bairro nobre do Morumbi. Mas se era verdade que a falta de recursos não lhe permitia fugir para o campo, nem por isso o jovem de dezessete anos entregava-se menos ao estudo da música. Na verdade, seu pai, homem de pouca instrução, mas de muita visão, poupara-lhe a rudeza do trabalho e iniciara-o no mundo das sonoridades desde os quatro anos de idade, matriculando-o em um instituto similar ao idealizado pelo grande maestro Silvio Baccarelli – na comunidade irmã de Heliópolis –, e localizado a apenas três ruas do barraco onde moravam. Assim, se Wesley crescia rodeado pelos infortúnios, hauria dos clássicos as forças indispensáveis ao pleno desenvolvimento do seu espírito. No início pensou no violino. Mas foi no piano que pôde extravasar todo o seu potencial, o que logo foi notado e estimulado por seu professor e amigo, o regente Mathias. - Você ainda voará muito longe, meu filho! – dizia, com orgulho, o maestro aposentado – Você tem um dom incomum! E, de fato, se logo no início Wesley e o velho piano de armário – por sinal, o único daquela comunidade – cresceram siameses, em poucos anos tornaram-se um só ente, tamanha a afinidade que entre eles se estabeleceu. Paraisópolis orgulhava-se dos seus músicos; e, em especial, daquelas mãos mulatas, daquele dedilhar incomparável. Quando soube que graças à exímia execução de A Prole do Bebê, de Heitor Villa-Lobos, conseguiu classificar-se para a semifinal, Wesley ficou tão eufórico que a afonia foi a primeira a parabenizá-lo. Era um sonho que, por absoluta dedicação, corporificava-se pouco a pouco; todo um esforço que, por fim, florescia aos próprios olhos. Seus pais, irmãos, o regente Mathias, ninguém se aguentou: abraçaram-se, gritaram de alegria! – sua mãe, como de hábito, debulho-se em lágrimas – Começavam, enfim, a saborear fruto dulcíssimo e mais que meritório. - Calma, calma... É só mais uma etapa. Não ganhei ainda. - Não ganhou, mas vai ganhar! – Retrucava o pai orgulhoso, crente que a vitória era uma mera questão de tempo. Mas se era verdade que Wesley passou a respeitar-se muito mais, seu professor bem notou-lhe um certo senão. Na verdade, o jovem solista tinha, agora, duas preocupações: a primeira, e de imediato a mais angustiante, era ver o seu nome incluído entre os classificados. - Não confia em si mesmo? – Perguntou Mathias. - Confio, sim, professor. – respondeu com firmeza – É que são os votos dos jurados que estão me preocupando. - Ora, ora... Todos ouvimos a sua última apresentação; garanto que o próprio Villa-Lobos se orgulhou muito dela. A segunda, contudo, parecia cutucar-lhe bem fundo o coração: - Mas... - Fala, garoto. Desabafa com este seu velho professor. - O senhor ouviu a execução do representante de Santa Catarina? – Mathias levantou a sobrancelha direita. - Sim, ouvi. - Ele não foi?... - Soberbo...? - O quê? - Quis dizer esplêndido, magnífico. - Poxa, professor, de que lado o senhor está? – A pergunta foi feita com um misto de humildade e desapontamento. - O fato de ser seu mestre e, insisto, de torcer por você, não significa que não possa admirar outros músicos, sobretudo quando são muito talentosos. - Eu sei, eu sei... - A propósito – um ar provocativo permeava esta pergunta –, você tem lido como a imprensa está chamando esse catarinense? - Não. E tenho até medo de perguntar. - Os jornais o apelidaram de o “Paganini do piano”. – Wesley demorou um pouco à ilação e retrucou: - Se tocasse violino, então, qual seria o apelido?! - Boa pergunta... De qualquer forma, e já que você está mais preocupado em saber se o Marcelo passará para a final, do que com a sua própria classificação... – Wesley o interrompia: - O senhor até guardou o nome dele! - É um nome comum; fácil de guardar. Ora, vê se para com o ciúme e me escuta, está bem? – E com o respeito de sempre, o jovem pianista respondeu: - Pode falar, professor, eu sei que o senhor está do meu lado. - Pois, então, ouça bem estes dois conselhos que vou te passar: o primeiro vem sob a forma de uma história real que aconteceu em 1708, e que envolveu ninguém menos que Haendel e Domenico Scarlatti. - Scarlatti, o que tocava cravo? - Não. Scarlatti, o virtuose cravista. – Wesley trejeitou resignação. - Pois bem, em Roma, Haendel e Scarlatti foram convidados pelo cardeal Pietro Ottoboni a participarem de uma reunião na Accademie-Musicali, cujos encontros eram semanais. Bajulações aqui, rapapés ali, e, de uma hora pra outra, o cardeal propôs que ambos duelassem na música, para que se soubesse quem era o melhor solista. - Gente fina, esse Ottoboni, hein? - Quero morrer amigo dele. – riram um pouco mais – Mas, como dizia, diante das circunstâncias, com toda a nobreza esperando uma reposta deles, o melhor que puderam fazer foi aceitar o desafio. Como eram amigos, acabaram competindo amigavelmente, sem maiores problemas, numa boa. - E quem ganhou? - Calma. Ainda falta um pouco de suspense. – Wesley engolia a curiosidade – Como dizia, as armas escolhidas para esse duelo foram, num primeiro momento, o cravo. - Ih, Scarlatti arrebentou. - Posso continuar ou você irá interromper a cada palavra? - Pode continuar, professor. - A segunda arma, e que seria usada caso não chegassem a uma maioria de votos, seria o órgão. - Aquele formado de vários tubos? - Exato. Bem, polifonias aqui, trinados ali... mas tanto Ottoboni quanto os demais convidados não chegaram a um resultado unânime; se bem que, como dizem os livros, e como você também deduziu, Haendel se viu obrigado a confessar a superioridade de Scarlatti no cravo. - Não falei? Mas, para mim, queriam mesmo é continuar a ouvir sem pagar. - Também concordo. Seja como for, o fato é que ambos foram obrigados ao desempate. E aí, meu caro pupilo, foi Scarlatti quem foi eclipsado pelos acordes que Haendel arrancou daqueles tubos. - Mas, então...? Empataram? Quem ganhou? - Adoro suspense. - Vai, professor! - Pois bem, nesse instante, em que todos se maravilharam com as possibilidades alcançadas por Haendel, e antes mesmo que alguém se atrevesse a iniciar uma votação, Scarlatti deu um passo à frente e, com voz firme e pausada, elogiou a virtuosismo do amigo e proclamou-o vencedor. - Ele fez isso?! Não esperou que votassem; e abriu mão?! - Exatamente. Mas o mais interessante disso tudo, e é aonde eu queria chegar, é que essa atitude de Scarlatti acabou fortalecendo ainda mais a amizade entre ambos. Longe de se sentir humilhado, Scarlatti demonstrou para todos a grandeza de sua alma, a humildade que não se detém diante da superioridade artística de outrem. Ou, se você preferir, o saber competir, o competir pelo prazer de competir, pela só beleza da música, e não o competir porque se tem que ganhar, haja o que houver. – Wesley entendia o recado. - E o segundo conselho? - Toque com o sentimento, com o coração! – O estudante sorriu levemente. Se comparada à anterior, essa sugestão era pequena na forma. Mas, sem nenhuma dúvida, ultrapassava-a muito em conteúdo. Extinguia-se, assim, a semente da inveja, reforçava-se o sublime da missão musical, e aquietava-se o espírito com um calor aconchegante. Passados dois dias e o resultado foi publicado. Wesley classificava-se como finalista. Nem se precisaria dizer que muitos outros gritos – e bem mais estentóricos – foram dados, fortíssimos abraços foram trocados e, desta vez, as lágrimas paternas acompanharam as maternas. - Você já ganhou, meu filho! Esse caneco é teu! – Bradava o pai, mais inchado do que nunca. - Calma, pai, ainda falta a final. Mas, como disse o maestro Mathias, eu já posso me considerar um vencedor. - Que nada!... Você é um vencedor por que você já ganhou. Ponha isso na sua cabeça, meu filho: nesse concurso, não tem pra ninguém! Paraisópolis inteira festejava. Os principais meios de comunicação dirigiram-se apressados para o ilustre casebre – onde mal cabiam todos os sete membros da família Silva – e, assemelhando-se a uma cabeça-de-praia, aguardaram o melhor momento para prosseguirem nas operações e iniciarem a entrevista. Quando Wesley tomou coragem e abriu a porta, quase foi soterrado! Mas bem que se deliciou com o rosário de perguntas. Os curiosos? Havia mais gente do que em show de dupla sertaneja. E se tudo não chegou a uma hora, para o adolescente prodígio e sua família pareceu uma eternidade! - Depois dessa fama toda, como você está se sentindo? – Perguntou o maestro Mathias, na calmaria do pequenino conservatório. - Eu nunca passei por isso antes. Não sei nem o que dizer. - Compreendo. Mas o que importa é não perder o foco. Até por que... – E Wesley se sobrepunha: - O “Paganini do piano” também se classificou. - Bem, não era isso o que eu falar. - Desculpa, professor, parece que eu esqueci o seu conselho. - Não diria que esqueceu; apenas que ainda não o incorporou o quanto devia. - Vou tentar não perder o foco, e isso, sem me preocupar com os outros. - É assim que se fala. Mas, já decidiu quem e o que vai tocar? - Pensei em Schubert, Schumann, Haydn. - Pois é bom você se decidir logo; falta só um mês para a final. - Eu sei, eu sei... - Anda lá, garoto, vai se sentar ao piano e põe a alma para escolher. A tarde passou vagarosa diante daquelas partituras. Wesley folheava-as sem nenhuma concentração; como se nunca soubera qual o compositor com que mais se identificava; como se longe estivesse do final de um concurso de âmbito nacional. Mathias observava-o de longe. Não se atrevia a opinar e, muito menos, a reclamar outra postura. O momento e a responsabilidade eram todos do jovem pianista e ninguém poderia substituí-lo. Os ponteiros já beiravam as dezoito horas quando Wesley, num lampejo de inspiração, comemorou em voz alta o acerto na escolha: - Achei! Será Mozart, com a Sonata em Lá menor, K. 310. – O entusiasmo rendeu um bom susto ao pobre regente, que não ousara deixá-lo a sós e adormecera sobre um banquinho, encostado na parede. - Bravo! – E se levantava, procurando escamotear a queda. – Allegro maestoso; Andante cantabile con espressione; e Presto. Excelente escolha, Wesley. Agora é só pôr a mão na massa e tocá-la com a mesma excelência com que até agora você nos brindou. Mas só a partir de amanhã; já está na hora de irmos dormir. - Está certo, professor. Eu já vou. Tenha uma boa noite, o senhor merece. – Deram-se a um terno abraço, que bem refletia o carinho recíproco, e se foram às suas casas. Como a peça que escolhera não lhe era completamente estranha, em exatos vinte e três dias Wesley a executava com extrema maestria, o que rendeu rasgados elogios por parte de seu mestre. Ao que diziam, tudo caminhava para uma vitória arrasadora, e nunca o viram tão confiante. Aliás, boa parte dessa segurança íntima fora construída com o apoio da comunidade; tanto que, como arremate de carinho, Paraisópolis inteira enfeitou-se desde o amanhecer, e as faixas de boa sorte acompanhariam a sua cria por todas as ruelas por onde deveria passar. A noite de gala finalmente chegou e o maestro Mathias fez questão de presentear o seu mais brilhante aluno com um novo fraque. – Na verdade, era o primeiro aluguel. Ao chegarem à Sala São Paulo, Wesley estremeceu. Não que já não a tivesse frequentado... Agora, porém, fazia-o na condição de estrela do grande palco, e com direito a ser julgado por todos os ouvidos que lá compareceriam. - Ele parece bem tranquilo. – Pensou consigo, assim que divisou o seu maior oponente. - Algum problema? - Não, nada não, professor. – E se ele tentou disfarçar, pode-se afirmar que não conseguiu. - Pois faça o favor de se concentrar, e esperar ser anunciado. – Depois de um longo suspiro, o aprendiz retrucou: - Eu vou fazer isso, professor, pode apostar. - Ótimo. Agora, vou encontrar seus pais. Estamos todos na terceira fila do Piso Térreo. Boa sorte. Ah, e não se esqueça dos meus conselhos, está bem? – E se deram a um outro abraço. Desta vez, contudo, Wesley sentiu de seu melhor amigo a vibração de encorajamento de que tanto carecia. Quando o maestro se afastava, o “Paganini do piano” saudou-o de longe. Mathias, então, retribuiu com um singelo sorriso e um balançar de cabeça. Wesley achou estranho, mas creditou esse fato à notoriedade do regente. Seis seriam os finalistas que abrilhantariam a noite paulistana. E todos, sem exceção, honravam os Estados em que nasceram e faziam valer o renome do concurso. Mas apenas o primeiro colocado embolsaria o estimulante prêmio de duzentos mil reais, e levaria para casa o não menos cobiçado troféu, um piano estilizado e banhado a ouro, verdadeira obra de arte assinada por um renomado design. Os segundo e terceiro lugares seriam agraciados, respectivamente, com cem e cinquenta mil reais, além de dois outros pianos, só que em prata e em bronze. Esses lauréis, sem nenhuma dúvida, trariam muita alegria aos que fizessem por merecê-los. Mas nada, absolutamente nada se compararia à glória de ser aclamado como o melhor solista de piano de todo o Brasil. E não seria leviandade afirmar que, este sim, era o galardão que todos cobiçavam. Não se sabe se por obra do destino ou se por capricho do acaso, o fato é que Marcelo e Wesley seriam os últimos a se apresentarem; sendo que este, só depois daquele. E assim se sucedeu. Os concorrentes que os antecederam foram primorosos em suas execuções, arrancando numerosos aplausos, tanto da plateia quanto dos exigentes jurados. A técnica, perfeita; a interpretação, palpitante! E se tudo caminhava para um dificílimo desempate, em que as frações fariam a diferença, os ouvintes enfim seriam esclarecidos dos porquês dos jornais apelidarem o catarinense de o “Paganini do piano”. Marcelo escolhera o Impromptu, Nº 4, Op. 66, em Dó menor, “Fantasia”, de Chopin, e por mais que os adversários se tivessem superado, nenhum deles conseguiu comparar-se à emoção e à virtuosidade que se enlevaram dessa peça. - Meu Deus!... – Foi o que Wesley conseguiu balbuciar, quando terminou a apresentação do rival. A casa explodiu em ovações! E muitos olhos, incluindo os do maestro Mathias, encheram-se de lágrimas. Estas, que de princípio caíam como gotas amargas, ao passar dos milésimos transmudaram-se em regatos penosos e, ao depois, em torrentes avassaladoras que enxurravam a encosta erosiva em que ainda se sustinha a aspiração juvenil do orgulho de Paraisópolis. Neste comenos, reaparecia, na mente de Wesley, o primeiro conselho que recebera de seu professor. Não se apresentava, porém, com o cerne à mostra – o competir pelo prazer de competir –, mas, sim, truncado, manquitola, pois apenas a atitude que o cravista napolitano tomara – a renúncia – é que se apresentava como a saída possível. E Wesley levantou-se... Passados dois segundos, porém, o último candidato era anunciado; foi como um bofetão; bastante, todavia, para despertá-lo e brecar a sua intenção. Não que os espectadores ou os jurados já não se tivessem decidido... O respeito devido ao derradeiro solo, entretanto, fez com que não só o silêncio voltasse a ser sepulcral, como também todos os rostos se voltassem para aquele garoto impúbere, pobre e de carapinha bem tosada, que adentrava a passos receosos e que mais parecia um pinguim esquelético e desajeitado. Os aplausos foram rápidos; mais pró-forma do que encorajadores propriamente. Wesley sentou-se ao piano. Perdera a chance de rejeitar o desafio; abdicara do direito de entregar as cobiçadas láureas àquele que fizera chorar boa parte da plateia, incluindo o seu mentor. Fechou os olhos. Um futuro brilhante, bonançoso, recheado de bênçãos tremeluzia ao longe. Como agarrá-lo, merecê-lo? Teria se dedicado o suficiente para pertencer àquele seleto grupo ou tudo se resumia a uma ilusão, que, ao acordar, só traria desgosto, revolta, vergonha? Cassificara-se à custa do próprio talento ou tudo não passara de um teatro, em cujo elenco o miserável favelado agradecia pela esmola da figuração? Não, seus pais não se privaram à custa de uma quimera; não beijaram a sua testa e o abençoaram todas as noites para que jogasse ao vento quiçá a única oportunidade que o bom Deus lhe concedia para fazer-se alguém, realizar-se, retribuir-lhes o carinho, a esperança, a dedicação! Era Wesley, sim; era Silva, sim; e era pianista, solista, o melhor entre os melhores deste país!... Sentia-se assim, e teria que ao menos tentar. E ele inspirou. Uma total surdez veio em seu auxílio, como se só existissem ele, o piano e o nada. Ademais, toda a Sonata se desenvolveu em seu cérebro em uma fração de segundo, e ele teve a certeza de que a executaria com uma perícia invejável. Suas mãos, que até então descansavam ao sabor da gravidade, começaram a buscar o teclado. Neste exato momento, porém, o segundo conselho que haurira do regente Mathias irrompeu ao som de timbales: “Toque com o sentimento, com o coração!...” E no átimo que medeia o tocar das teclas e o iniciar da Sonata, toda uma inusitada poesia preenchia a sua alma, reviravolteando-a, concitando-o a debelar-se, a entregar-se à composição! Wesley confiava-se à mais pura e delicada improvisação! O maestro Mathias engasgou, arregalou os olhos e não podia crer no que ouvia! Não que Wesley já não tivesse improvisado antes... Sua capacidade, ao contrário, sempre fora ressaltada e encorajada. No entanto, seu aluno simplesmente desprezava semanas de devotamento, para, agora, aventurar-se ao sabor de si mesmo, e isso em plena final de um concurso de tamanha magnitude! Não obstante, a cada nota, as frases de majestosa musicalidade iam-se construindo, e transmitiam a todos os seus dizeres. A sensibilidade que delas emanava, e a emoção que provocavam, difundiam-se pelos quatro cantos daquele recinto respeitoso, e arrebatavam todas as almas que a elas se entregavam. Era como se o próprio Bach viesse emprestar o melodioso segundo andamento da Suíte Nº. 3, em Ré maior, BWV 1068; como se Vivaldi, em pessoa, estivesse transmitindo a quietude experimentada quando compôs o largo, do Inverno, de As Quatro Estações; como se Haendel jazesse ao seu lado, assoprando o amor que incrustrara na ária Ombra Mai Fù, da ópera Xerxes; ou como se o gênio de Mozart derramasse ao seu coração a paz conquistada com o adagio do Concerto para Clarineta, em Lá maior, K 622. Harmonioso amálgama, célica combinação... cândida sonoridade a fluir do âmago sonhador de um jovem que, não fosse pela música, poderia perder-se no consumo das drogas. Esse era Wesley; esta, a sua arte! Ao final do último acorde, a incerteza do acerto, a soledade da espera. Então, à medida que Wesley abria os olhos úmidos, deixando a respiração acalmar-se, afrouxando os lábios hirtos, o público punha-se em pé, extravasava-se em hurras, e presenteava-o com os aplausos mais atroadores que um dia já se fizeram retinir naquela majestosa sala de concertos! Wesley sorria, e chorava. E muito mais chorou quando, levantando pela força da aclamação, viu nos olhos dos que mais amava o pranto a verter copioso. Beijava e retribuía, assim, o suporte e a confiança que recebera de seus pais; abraçava e agradecia, dessa forma, a amizade e o devotamente que de seu mestre merecera. A escolha, no entanto, ainda estava por vir; a sagração, destarte, teria que aguardar mais alguns minutos. Os seis finalistas foram perfilados sobre o palco e, como de costume, o mestre de cerimônias aguardaria os eternos segundos antes de abrir o envelope com o resultado dos jurados, tempo mais que suficiente para que o primeiro escalão dos Executivos municipal e estadual a eles se juntasse. Nesse meio tempo, porém, uma cena, a mais singular possível, faria história nos anais dos concursos nacionais de música erudita: Marcelo, que não se aguentava de ansiedade e sempre desdenhara das formalidades, como que sintetizando dos outros competidores a mais recôndita das confissões, saiu do seu lugar, agarrou o troféu e o ofereceu a Wesley, no que foi seguido em aprovação não só pelos demais solistas, como também por todo o público, pelos jurados e pelos políticos que a eles já se achegavam. O premiado, que não sabia o que fazer, pois que se petrificara com tal atitude, até pensou em gaguejar. A mão direita do “Paganini do Piano”, entretanto, refreava o seu desejo. Foi, então, que o virtuose de Santa Catarina lhe segredou, em voz pausada e repleta de contentamento: - O maestro Mathias não morou sempre em São Paulo, sabia? E você não foi o único que ouviu sobre o encontro entre Scarlatti e Haendel. – E se fora diverso o fato de que os expoentes do Barroco já eram amigos antes de duelarem, idêntica seria a amizade que ora nascia, pois que sincera, recíproca e imorredoura!

Published at : 07-08-2017
Category : Short story