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- Cortados pela metade

Cortados pela metade

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Tenho tido algumas conversas com gente que veio de África (como eu), e que na altura tinham trinta ou quarenta anos de existência (que não é o meu caso). E a sensação que me fica é que foram decepados. Da coisa intacta, com sentido, desprendeu-se uma estranha forma letárgica que deriva, porque a determinada altura algo deixou de ser algo. "Sinto que nunca mais fui eu": é o que lhes sai da boca de vez em quando. E isto não é proferido com ódio - é que já lá foi o tempo da juventude e do sangue que eles tinham na guelra. Estão vencidos e injustiçados - só isso.

Por esta constatação pode-se depreender que a primeira metade da vida é decisiva. Muito dificilmente alguém se adaptará por completo a viver a segunda metade (da vida) noutro lugar. Há excepções individuais (é óbvio), mas em conjunto - num êxodo de grandes proporções - é uma utopia pensar-se em adaptação. Não existe.

Tal como os algarvios são portugueses do Algarve, os Retornados (assim chamados) eram portugueses de África e, por este motivo, propagadores da alma lusa além-mar. Ou seja, sempre houve uma forte (e inegável) ligação (cultural, religiosa e até de costumes) entre os habitantes do antigo império ultramarino e a metrópole. Caso contrário, a integração de meio milhão de pessoas - aquando da Descolonização - não teria acontecido sem grandes sobressaltos.

E mesmo com toda esta afinidade, as pequenas diferenças inter-continentais causaram toda a diferença. No fundo, os portugueses de África já eram outro povo. Com poucos séculos de permanência em outra latitude, e após a miscigenação de hábitos e de raças (nem sempre pacífica, como seria de esperar), o resultado final estava à vista e era positivo, e ameaçador...

Mas, o pior disto tudo é que a destruição de países pelo mundo tem prosseguido (do mesmo modo) ao longo dos anos. Médio Oriente e América do Sul são retratos hoje (com as devidas nuances) do que se passou na África subsariana no século passado. Nada consegue ultrapassar a arte da guerra-fria, da geoestratégia e do petrodólar. Aliás, neste palco são sempre apresentados os melhores protagonistas da actualidade. E o "santificado" apelo à ambição (local) e ao emotivismo ideológico (geral) será sempre o melhor cartaz possível.

Para quem destrói países não há Esquerda nem Direita. Nem democracias nem ditaduras. Há dinheiro, Poder e hegemonia. Sobra o espólio para os que ficam (mas piores do que estavam). E sobra a sobrevivência dos que partem (mas cortados pela metade).

Published at : 09-08-2017
Category : Articles and Opinion