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- A busca.

A busca.

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Muitas crianças em período escolar não gostam da famosa frase “É hora de ir para cama”. Para elas, trocar suas preciosas diversões – TV, joguinhos, brinquedos... – por um quarto escuro é algo impensável. E se a noite for a de domingo, mais chateadas ficam, pois sabem que aquela afirmação representa o fim do bem-bom, o inevitável recomeço das aulas. As que foram acostumadas a uma boa leitura antes de dormir, no entanto, são as que menos reclamam, e, pelo contrário, muitas vezes despedem-se do que faziam ansiosas por mais um capítulo, entregando-se à noite embaladas pelos contos de fadas. Renato teve essa sorte. Na maioria das vezes, era sua mãe quem lia as histórias, o que, de certa forma, até aumentava a expectativa para quando fosse a vez de seu pai. E foi numa dessas noites que o garoto passou a conhecer Monteiro Lobato, e seus eternos personagens. Mas ao contrário do que se poderia presumir, ele não foi apresentado às Reinações de Narizinho, às Caçadas de Pedrinho ou ao Sítio do Picapau Amarelo. Seu pai escolhera Os doze trabalhos de Hércules como obra iniciática, pois achava que deveria despertar no filho a coragem dos heróis. E a cada façanha realizada, mais encantado ficava Renato com a bravura do semideus, e mais curioso se tornava em relação à Emília, ao Pedrinho, e ao Visconde de Sabugosa, o que só fazia aumentar a vontade de continuar a escutar sobre as maravilhosas peripécias dessa turma inesquecível. Quando acabaram de ler todo o livro, sua mãe quis saber qual das proezas mais impressionara ao filho. E quando respondeu que a história da Fênix tinha sido a sua preferida, houve até um certo espanto, pois, pelo que apostaram, as lutas com os terríveis monstros seriam as escolhas mais prováveis. O tempo foi passando, e a criança, crescendo. Até que seus pais não mais liam junto à sua cabeceira. Mas como o plantio tinha sido feito com esmero, a colheita necessariamente teria que ser abundante. Daí que raras eram as vezes em que o adolescente Renato ia dormir sem a companhia de algum texto, fosse romance, conto, crônica ou ensaio. Tamanho foi o gosto pela leitura, que ele, agora homem feito, conquistou uma cultura invejável; se bem que, por modéstia, fazia sempre questão de dizer que estava a anos-luz da erudição. E nesse processo de ampliação do seu universo literário, Renato passou a reparar que a Fênix da sua infância jamais o abandonara. Descobriu-a, por exemplo, em Ovídio, poeta que afirmou que o nome da ave fora dado pelos assírios – e por isso não ficou surpreso, ao ler Ficções, com a afirmação categórica de Jorge Luis Borges de que a origem da seita da Fênix não se iniciara na terra dos faraós –, que se alimentava de incenso e raízes odoríferas, e que, depois de ter vivido quinhentos anos, fazia um ninho à base de nardo, cinamomo e mirra nos ramos de um carvalho, ou no alto de uma palmeira, essências essas que entrariam em combustão e a consumiriam; avistou-a sobrevoando o historiador Tácito, que esclarecia que o primeiro cuidado que a ave tem, logo que se empluma, é o de realizar o funeral do próprio pai, carregando o seu corpo até o altar do Sol, em Heliópolis, no Egito, onde o deposita para ser queimado pelas chamas aromáticas; reviu-a ao lado de Heródoto, que descreveu sua plumagem como sendo metade de ouro, metade carmesim, e cujo formato e tamanho assemelhavam-se aos de uma águia; espantou-se, ao ler A princesa de Babilônia, de Voltaire, não apenas com o fato de que o pássaro renascia de um grande ovo depois que se incinerava, mas também, e sobretudo, com o de que ele podia falar, podia conversar como qualquer ser humano; indignou-se quando leu Erros vulgares, de Sir Thomas Browne, o primeiro escritor a duvidar da crença na existência da Fênix; e se empolgou quando assistiu à sua ave preferida ajudar a salvar Harry Potter, cegando o Basilisco. Infelizmente, porém, instrução vasta e variada não é, por si só, garantia de uma vida equilibrada. E o desaprumo começou a se fazer notar... Como gostasse cada vez mais da Fênix, Renato passou a colecionar tudo o que lhe dissesse respeito. E podem ter certeza de que existem muitos suvenires à venda nos sites especializados! Ele se tornava tão apaixonado pelo pássaro mitológico, que era comum sonhar que corria pelos prados, tentando, desesperado, agarrá-lo em pleno voo. E acordava sempre cansado e frustrado, pois a Fênix nunca se deixava apanhar. Só que a paixão transformou-se em idolatria, e Renato passou a distanciar-se da realidade. De início, esse distanciamento não era tão explícito, como quando via a Fênix ao contemplar as fotos de determinadas aves do paraíso. Mas não demorou muito para que esse desalinho aumentasse em proporções. Assim, em mais de uma vez sua namorada percebeu que Renato fazia questão de trazer o tema Fênix para a roda de amigos. E se algum deles ousasse duvidar de um só de seus atributos, ele o defendia com convicção, como se ela realmente existisse! O ápice desse transtorno aconteceu quando Renato passou a sustentar abertamente que a Fênix habitava a região do Eldorado, conclusão a que chegou levando em consideração a cor dourada de sua plumagem. Ora, como a tivesse “localizado”, o próximo passo seria ir à sua procura. Com isso, o namoro, que já não ia bem, acabou por desandar. Só que o fim do relacionamento fez com que Renato se tornasse ainda mais obstinado. Ele desejava, e a qualquer preço, encontrar o objeto da sua veneração. A busca pela Fênix tornava-se, assim, uma verdadeira obsessão! Por sorte, seus pais intervieram a tempo, e o internaram em uma clínica psiquiátrica, à sua revelia. O tratamento a que se submeteu demorou mais do que o previsto. Mesmo assim, e para a felicidade de todos, surtiu o efeito desejado. Certo dia, um dos tios de Renato chamou-o para passar o feriado da semana santa em sua residência. Ora, como já se sentisse curado, o convite vinha bem a calhar. De carro, Renato levaria seis horas para chegar ao seu destino. Mas como estivesse com uma baita preguiça pela manhã, preferiu pegar a estrada só depois do almoço. A viagem ia sem pressa. Por isso, o sol já se punha quando Renato alcançou os limites da cidade. De repente, a pasmaceira dos últimos quilômetros era interrompida por uma mulher de pouca idade que, saindo de uma quebrada e saltando para o meio da pista, gritava e gesticulava feito louca. Ora, é claro que o motorista não teve outra reação senão a de manobrar de improviso e evitar a colisão; acelerar ao máximo e tentar fugir do que supunha ser um assalto. Mas quando passava pela coitada, e porque a janela do carro estivesse entreaberta, Renato conseguiu distinguir as palavras “fogo!” e “minha casa!”. De fato, ao olhar pelos retrovisores, ele divisou o que pareciam ser uns clarões. O carro, porém, continuava a se afastar. Só que os olhos de Renato conseguiram perceber, ainda, que a mulher deixava-se cair de joelhos, como se o último fio de esperança em que tentara se agarrar acabasse de ser rompido. Por instinto, ele estacou. A cena era por demais sincera para se passar por engodo. Como a estrada estivesse deserta, nem pensou em dar ré. Pisou fundo no acelerador e retornou voando para onde a mulher se encontrava. A desgraçada percebeu que suas preces não tinham sido em vão, e rapidamente se levantou. Quando Renato saiu do carro, a moça mal podia se fazer entender. Gritava, gesticulava, chorava, tossia... Mas conseguiu transmitir que seu bebê e companheiro estavam dentro do barraco. O fogo tomava conta de todo o casebre! – uma vela acesa e mal colada em um pires tombara sobre uma banqueta de madeira – A mãe, histérica, implorava pelos seus! E Renato não sabia o que fazer. Súbito, Renato viu um cobertor estendido no varal. E ao lado, um latão cheio de água. Pois não titubeou. Arrancou o cobertor, mergulhou-o na água, enrolou-se nele e se atirou porta adentro. As labaredas aumentavam rapidamente! A fumaça dentro do barraco era sufocante e impedia qualquer visão! Nesse meio tempo, o companheiro da pobre moça viu de longe o incêndio e acorreu o mais que pôde. – A jovem mãe não o suspeitava, mas porque demorasse tanto lavando roupas no riacho, o rapaz achou melhor levar consigo o bebê, pois precisava ir à cidade comprar mantimentos. Ora, quando ela retornou, o fogo já acontecia! E como não visse ninguém fora do casebre, desesperou-se, supondo o pior aos seus. Mas quando a lavadeira percebeu que seu companheiro chegava, e que trazia o bebê no colo, a coitada dividiu-se entre o júbilo e o desespero, pois corria a agarrar sua cria, ao mesmo tempo em que gritava que um homem estava dentro do barraco, a tentar salvá-los! O moço, então, saiu alucinado à procura de um balde com que pudesse apagar o incêndio, mas todo o casebre já se transformara em uma enorme fogueira, impenetrável e destruidora. Quando os bombeiros chegaram, já não havia mais o que fazer. E até hoje, quando acontece o crepúsculo, há quem diga ver sobrevoando aquelas paragens uma ave incomum, reluzente como o ouro e de um vermelho muito vivo, de canto estridente e tão imponente quanto uma águia. – Renato renascera das cinzas; sua busca terminara.

Published at : 04-09-2017
Category : Short story