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- Tempos Modernos

Tempos Modernos

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A solidão é como a onda do mar, nasce e morre alternadamente. Estava eu no ônibus, voltando do trabalho, depois de um dia exaustivo - daqueles que você só quer chegar em casa, jogar a bolsa no sofá, o sapato na cama, as meias na janela, e dormir -, quando uma mulher mais velha, bonitona, bem arrumada, daquelas que não aparentam a idade que tem, bem enxuta, senta do meu lado e começa a mexer em seu aparelho celular muito freneticamente. Fiquei curioso, como qualquer ser humano que depende do oxigênio para sobreviver fica. Então, resolvi curvar minha cabeça para a esquerda, como quem não quer nada, com o objetivo de saber o que tanto aquela senhora bombardeada com os dedos aqueles teclados do celular. Movendo-me disfarçadamente e estatelando os olhos, matei minha curiosidade. A senhora estava conversando com um rapaz mais novo, num desses aplicativos de paquera que já tinha ouvido falar pelos meus amigos. O nome do aplicativo? ‘CEL’ que significa Correio elegante. Dei uma gargalhada semelhante a um pirralho, colocando a mão na boca, fingindo que de fato havia pigarreado. A senhora pareceu nem ter escutado, tampouco se incomodado com a minha ação. Tendo conseguido ler algumas palavras da conversa dos dois, a mulher estava informado ao rapaz que dentro de alguns pontos iria descer para encontrá-lo, próximo de um barzinho muito famoso perto de uma delegacia. Ele dizia que já a esperava lá, pois havia chegado há cinco minutos. E ela, novamente muito empolgada, digitou a ele rapidamente. Achei aquilo sensacional. Mundo moderno não é? Dois pontos depois a mulher desceu apressadamente e xingando o motorista, pois ele havia passado do ponto e ela nem sequer havia dado sinal, estando distraída. Fui refletindo a viagem toda, até chegar em casa, a respeito desses tipos de aplicativos e o que eu poderia encontrar por lá. Tendo concluído, disse a mim mesmo ‘por que não posso fazer como aquela senhora e baixar aquele aplicativo?’ ‘Quem sabe eu não encontre alguém legal que eu possa conversar e até role algum romance, como os que eu costumo ler nos livro.’ E foi o que eu fiz. Cheguei em casa, tirei a roupa do trabalho, tomei um banho e me joguei no sofá para baixar o aplicativo. Nunca me considerei um cara feio, apesar de não me achar fotogênico, mas até que consegui fazer uma selfie bonita. Coloquei ela de foto de perfil, detalhei minhas características e qualidades, engraçado que ninguém coloca defeitos, pois faz parte de nós também, e fui ver o menu de pessoas que poderia me interessar. O aplicativo, muito eficiente, me oferecia inúmeras iguarias, entretanto foram poucas pessoas que me agradaram. Com o dígito passando em cada perfil, eu poderia ou virar para a direita, querendo dizer que não curti, ou para esquerda dizendo que curti. Eu me sentia num açougue escolhendo uma peça de carne para o almoço do dia seguinte. Já próximo de desistir, de desinstalar o aplicativo, conheci uma pessoa a qual pareceu ter tido afinidade comigo, e passamos a conversar. No inicio, o papo estava muito agradável. Conversamos sobre o que nos agrada e o que não. O que gostávamos de fazer, viagens que fizemos, ex-amores, trabalho, objetivos de vida, família etc. Após isso, pediu meu número de telefone e eu passei. Quando de repente, para minha surpresa, o papo se desvia para sexo. Perguntou o que eu gostava na cama, posições favoritas, se havia transado com mais de uma pessoa, se eu gostava de chupar, se eu tinha fetiche com pés, se eu gostava de apanhar etc. Fiquei boquiaberto, pois nunca havia conversado isso com ninguém, tampouco com uma pessoa desconhecida. E para agravar mais a situação, pediu um nudes meu. Tendo percebido que havia tomado duas taça de vinho, o suficiente para modificar minhas ações e dar habeas corpus para o meu lado libertino adormecido, despi-me e tirei as benditas fotos. Enviei, acompanhado de palavras voluptuosas, e foi recíproco. Fazíamos juras de amor Shakespearianas, detalhávamos arduamente o que poderia ser feito com cada parte do corpo de cada um, estávamos totalmente entregues à Vênus... Quando repentinamente a reciprocidade se deletou. Eu todo animado com a conversa, a ponto de me entregar e dizer o quanto estava me envolvendo, tomei um banho de água fria. Não me respondeu mais. Esperei me ligar, com a esperança de novamente conversarmos e reiniciarmos a nossa conflagração de amor e nada aconteceu depois disso. Aquilo deu um nó gigante na minha cabeça. Será que fiz algo errado? Será que fui infeliz em alguma palavra? Nenhuma resposta obtive. Apesar de tudo, procurei não desanimar. Fui percebendo que as relações atuais tangem o efêmero, a instantaneidade, tudo é muito célebre. Puxei assunto com outras pessoas, na tentativa de achar alguém diferente, mas o ponto final sempre era o mesmo. Então resolvi desinstalar o aplicativo e voltar a minha vida normal. Certo dia, retornando do trabalho para casa, avistei novamente aquela mulher mais velha que sentou ao meu lado no ônibus. Como o ônibus estava cheio e o único banco que estava vago era o meu, sentou-se do meu lado novamente. Com aqueles dedos parecendo máquinas de digitação, escrevia ininterruptamente, como da primeira vez. Com certeza devia estar falando com aquele rapaz do encontro anterior... Que nada! Ao bisbilhotar novamente a conversa dela, percebi que na verdade já era outra pessoa que ela estava falando... Ah, os tempos hodiernos!

Published at : 08-09-2017
Category : Short story