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- O lar da intolerância

O lar da intolerância

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Heitor era um menino extrovertido, simpático , educado e inteligente, que brincava nos finais de semana com o meu filho Ulisses num parquinho, próximo a minha residência. Ambos tinham a mesma idade, contavam 8 anos, além de serem muito parecidos quanto as artimanhas e meninices. Contrário a postura de muitos pais que frequentavam ali, eu nunca impedi meu filho de brincar com ele. Isso porque o garoto tinha posturas que eram semelhantes a de uma menina. Ele gostava de dançar, não passar um carro de som que ele começava a se requebrar, adorava imitar pessoas, sobretudo personagens femininos, tinha posturas de bailarino e, desde que eu o conheci, nunca foi habilidoso com a bola, como os demais garotos. Para mim, nada disso era um problema. Meu filho sentia-se feliz na presença dele, então eu ficava feliz também. Certo dia, num sábado ensolarado, decidi levar o Ulisses para esse parquinho, a fim de que ele pudesse sair de casa e abandonar o vício do computador e do video-game. Levei alguns lanches na bolsa, uma cadeira de praia, para ler o meu jornal do dia, uma bola de futebol e demais brinquedos. Quando chegamos lá, Heitor estava num canto sozinho ajoelhado. A princípio achei que estava brincando, mas depois vi que estava aos prantos. Perguntei o que tinha acontecido e porque estava chorando e ele nada me respondeu. Novamente fiz as mesmas perguntas, na tentativa de entender o que estava se passando ali, e o menino nada respondeu. Tentei oferecer um chocolate, o qual ele mais gostava, e ele acabou aceitando. Em seguida, passou a mão entre os olhos e o nariz, para secar as lágrimas, e me disse duas frases "Três meninos me empurrou e um disse que eu sou uma menininha". Aquelas palavras desceram a minha garganta com muita dificuldade. Como os pais que estavam ali não tinham visto isso? Como a sua mãe também não tinha visto isso? Olhei em torno para ver se localizava a mãe e logo a vi no celular tendo altos papos com alguém que parece ligar para ela sempre naquele horário. Então, peguei o garoto, abracei ele e disse que nenhum outro garoto vai empurrá-lo novamente, pois o tio ia protegê-lo. O garoto me abraçou forte de volta e disse "Queria que você fosse o meu pai, tio" e saiu do abraço para brincar com meu filho. Aquilo novamente deu um nó na minha garganta que demorou horas para desatar. Fui em direção a mãe dele e informei à ela que alguns garotos tinham pertubado o seu filho. Ela desconcertada com minha presença, não sei porque motivo, desligou o celular e me disse que não tinha visto, mas que da próxima vez ia ser mais cautelosa. Além disso, perguntei também o porque do pai nunca ter vindo trazer o filho para brincar no parquinho e ela respondeu que ele era um homem muito atarefado e, por conta disso, não tinha tempo para levá-lo até ali. Eu lamentei a situação, balançando a cabeça negativamente, e voltei para minha cadeira para terminar de ler o jornal. Um final de semana depois, encontrei Heitor no parquinho novamente e, para o meu desespero, ele estava todo marcado, desde o pescoço até as pernas, como se tivesse levado uma surra de alguém. Fui direto no responsável, que naquele momento era a babá, e perguntei o que havia acontecido. Ela me disse que ele tinha caído da escada da sala e, por conta disso, estava todo marcado. Claro que não acreditei naquela versão. Então, fui perguntar a ele o que aconteceu e ele nada me respondeu e abaixou a cabeça. Seus olhos transmitiam medo e tristeza ao mesmo tempo. Aquilo cortou meu coração profundamente. Mas, infelizmente, como eu não tinha provas, não havia como fazer algum tipo de denuncia e aquela família não era nada amigável, para tentar conversar pelo menos, segundo o que alguns vizinhos me disseram. No final de semana que se seguiu, cheguei no parquinho com meu filho, por volta de umas dez horas, e o garoto não havia chegado ainda. Como era cedo, não estranhei o fato dele não ter aparecido ali. Tendo passado duas horas, nada de eu avistar o garoto. Tendo chegado a hora do almoço, comecei a suspeitar que algo estava errado, dentro de mim. Achei aquilo muitissímo estranho, pois ele chegava ali sempre por volta das onze horas. Talvez tivessem viajado, eu pensei. Então, recolhi minha cadeira, chamei Ulisses para irmos almoçar e, quando eu coloquei os pés no portão, a vizinha me aborda e pergunta se eu estava sabendo o que tinha acontecido com o Heitor. Eu disse que havia estranhado a não ida dele ao parquinho, pois sempre antes do almoço ou a mãe ou a babá levavam ele até lá. Então, a vizinha me disse que ele estava na UTI, com o corpo completamente surrado, e que suspeitavam que o pai era o responsável por aquilo. Comecei a suar frio, a me tremer todo de nervoso. Pedi ao meu filho que entrasse para dentro de casa, porque o papai ia sair, e fui em direção ao hospital no qual o garoto estava. Chegando lá, perguntei do Heitor na recepção e, para minha profunda tristeza, o menino extrovertido, de animação contagiante, simpático e inteligente, havia falecido há poucos minutos da minha chegada.

Published at : 09-09-2017
Category : Short story