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- Aparências.

Aparências.

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João Bosco contava, agora, setenta e quatro anos. E se refizesse as contas, muito teria do que se orgulhar e do que agradecer, por ter casado com a melhor das companheiras e por ter sido agraciado com três lindas gemas. No entanto, toda uma vida não foi suficiente para remover a mácula que ficou gravada em seu espírito – a dor lancinante da vergonha –, e que impusera o banimento de sua terra natal, há quase cinquenta anos. Mas como estivesse cansado de fugir de si mesmo, e como não quisesse ver o último pôr do sol sem se libertar desse aguilhão, João Bosco resolveu retornar e enfrentar o seu fantasma. Comunicou a decisão à sua família e só não obteve apoio da temporã, que, mais sossegada, aconselhou-o a que desencanasse. Não foi o que aconteceu, porém. Daí que João Bosco aproveitou um feriado prolongado que chegava e, logo pela manhã, partiu com sua esposa rumo à pacata Araçatuba. Como não pretendessem fazer alarido, o que fatalmente ocorreria se buscassem rever de imediato a parentela, preferiram ficar hospedados em um pequeno hotel, e encontraram um bem convidativo, distante a poucas quadras da matriz. E se foi razoavelmente tranquilo transpor os limites da cidade, um aperto assaltou João Bosco quando Marta perguntou se sairiam do hotel para almoçar. Pois foram necessários alguns exercícios de respiração para que tornasse a vestir o capote da coragem e, com isso, concordar com essa hipótese. Se bem que ao derredor uma ou outra edificação parecesse familiar, era visível que a cidade inteira transformara-se nesse meio século de exílio. Esse progresso até que fez bem a João Bosco. Afinal, o embaraço por que passara pressupunha a velha Araçatuba como pano de fundo... Assim, sentindo-se mais confortável, o casal pôs-se a passear, meio sem rumo, e um tanto sem fome. Marta, que por respeito ao passado do marido não arriscava iniciar conversa, sentia, compungida, o comprimir e o relaxar de sua mão, o que denotava momentos de tensão e de calmaria, menos estes do que aqueles. Mesmo assim, seguiram. E enfiaram mais de uma ruela, dobraram mais de uma esquina, e subiram e desceram ladeiras. Até que, sem que tivessem se apercebido, e como que conduzidos por força invencível, chegaram à praça da matriz. João Bosco estacou. Súbito, a pulsação irrompeu; a respiração descompassou-se; e sua mão passou a comprimir a da esposa de tal maneira, que Marta, não se aguentando, teve que pedir que a largasse. É que ele se deparava com o mesmo palco em que fora protagonista de uma tragicomédia. Ali, defronte à igreja, no Restaurante do Macedo, a quem se dedicava como garçom exemplar, João Bosco reviu, de relance, tudo o que acontecera naquela malfadada tarde. O baque foi tamanho, que Marta, pressentindo o esvanecer de suas forças, tratou de ampará-lo como pôde, evitando que o marido tombasse. Por sorte, um banco de alvenaria estava a poucos metros, o que possibilitou ao casal um refúgio assombreado. Marta não precisou de muito esforço para inferir a ligação que havia entre a reação do marido e a visão daquele estabelecimento. E como a preocupação aumentasse, sugeriu que voltassem para o hotel. João Bosco não só recusou, como afirmou que almoçariam naquele local. E mais: Se nesses anos todos a gerência não tivesse mudado a disposição dos lugares, sentariam na mesma mesa que era destinada aos clientes de maior prestígio. Diante dessa sentença, ela, que bem compreendia a luta a que seu marido se entregava, achou prudente não retorquir, e aceitou a sua decisão com a tranquilidade possível. Mas o fez prometer que, caso percebesse um novo mal-estar, adiaria a empreitada para o dia seguinte. Foi a custo que caminharam para a entrada do restaurante. À porta, João Bosco inspirou tão profundamente que chegou a tontear. Mesmo assim, entraram. Como fosse cedo até para os padrões araçatubenses, o Restaurante do Macedo estava às moscas. Isso estremeceu João Bosco, uma vez que, por força da comoção, esquecia-se de que cinquenta anos já se tinham passado. Um garçom surgiu prestimoso, e perguntou onde quereriam sentar. João Bosco relanceou o local sem muita pressa. E se notava que os móveis não eram, por óbvio, os mesmos daquela época, a disposição deles pouco mudara, o que possibilitou encontrar uma mesa substituta no mesmo lugar da original. Sentaram-se, mas com a calma dos que muito escondem. Pediram as bebidas e aceitaram o couvert. Marta nunca levantara um senão quanto aos modos do marido. Para ela, João Bosco sempre foi um gentil-homem. No entanto, como suasse muito, deixou de lado as formalidades, pediu licença à esposa, e foi ele o primeiro a ir ao toalete. Ela estranhou, mas logo compreendeu. João Bosco entrou apressado. Trancou a porta, abriu a torneira sem se preocupar com a volta da crise hídrica, e molhou o rosto várias vezes. Como se sentisse mais calmo, levantou os olhos ao espelho, e só então se lembrou de que a barba respeitável o esconderia de todos quantos pudessem reconhecê-lo. Quando retornou à mesa, Marta já o aguardava, saboreando um pão com manteiga. Feliz com sua “redescoberta”, João Bosco perguntou se ficaria difícil ao antigo maître adivinhar quem ele era por detrás de sua barba, o que não poupou a esposa de um gracejo, uma vez que só por obra da necessidade é que aquele profissional ainda estaria trabalhando, e no mesmo local. Com efeito, um outro maître veio anotar os pedidos, o que deixou João Bosco para lá de descontraído. Dessa forma, fez questão de pedir os mesmos pratos que um dia servira, lamentando, todavia, que a torta de bananas fora retirada do cardápio. Paradoxal que João Bosco, ao mesmo tempo em que queria manter-se no anonimato, sentia uma vontade inexplicável de que alguém perguntasse se, por exemplo, vinham a passeio ou se tinham parentes na cidade. Era como se a chave que o libertaria do passado não estivesse em suas mãos; pelo contrário, precisava de um terceiro para que a fechadura fosse destrancada. Mesmo sentindo-se protegido, disfarçado, o almoço não fluía. Por vezes, as perguntas de Marta ficavam sem respostas; por outras, o garfo espetava o prato, e não o bife. É que ele se lembrava do olhar penetrante do freguês a quem servira, dos pedidos que fizera sem se preocupar com a coluna dos valores, e do momento em que trouxera a conta. - Ele comia sem a menor pressa... - O que foi que disse, querido? Ao ouvir a pergunta da esposa, João Bosco voltou do passado. Pediu desculpas, mas disse que não se sentia bem. Marta achou melhor pedir a conta e voltarem para o hotel. João Bosco ia aceitando, mas recuou e implorou à esposa que o deixasse desabafar, que permitisse contar a pelo menos uma pessoa naquele restaurante o que acontecera naquela maldita tarde. Isso por certo o ajudaria a aliviar-se, e, quiçá, a desembaraçar-se das correntes que o prendiam e o asfixiavam naquele exato momento. Bastante compadecida do esposo, Marta não ousou negar. Assim, quando o maître trouxe os cafezinhos e a dolorosa, João Bosco não titubeou e o elegeu como o seu salvador, o seu catalisador. Como quisesse conquistar o ouvinte, tratou de preparar o terreno, elogiando as instalações, a comida e o atendimento. E quase pediu para ir visitar a cozinha, não fosse um ligeiro chute de Marta, que o manteve nos limites do verossímil. Ao contrário do seu proceder, o orgulho do funcionário não parecia fingido, o que deu a João Bosco a deixa para pedir que ouvisse uma rápida história. Como naquela hora a maioria das mesas ainda não estavam ocupadas, o maître não se importou e foi todo ouvidos. Vale a pena mencioar que João Bosco, uma vez obtida a licença para falar, de tranquilo passou a retraído, pois mal sabia por onde começar. Essa mudança, notaram-na Marta e o maître. Ele, contudo, não se intimidou. E, fechando os olhos, tomou fôlego e procurou refazer aquela desditosa tarde. Achado um fato por onde pudesse começar, João Bosco buscou as primeiras palavras. Neste exato momento, contudo, um homem acabava de entrar no restaurante. Todos para ele se viraram, pois seu aspecto, e mau cheiro, em nada concordavam com a freguesia que ali se encontrava. Era rude, de pele morena e ressecada; tinha olhos encovados e protegidos por sobrancelhas grossas e emaranhadas; sua barba era grisalha, espessa e nada confiada; a cabeleira era basta e desgrenhada; estava mal-ajambrado e segurava, humilde, um chapéu de couro de abas largas. João Bosco percebeu o sinal que fez o maître para um de seus garçons, no claro intuito de que fosse interceptá-lo e o pusesse para fora. Aliás, e isto ele não notou, os poucos fregueses que ali estavam aquiesciam com essa velada determinação, pois que voltavam seus rostos para a comida, e em completo silêncio. E graças a essa ausência de ruídos, todos puderam ouvir que o estranho pedia uma mesa para que pudesse almoçar. O funcionário, porém, respondeu que o restaurante estava lotado, e que, por isso, teria que procurar comida em outro lugar. No entanto, com uma só varrida de olhos, o intruso retrucou que havia várias mesas vazias. Foi quando o garçom, perdendo a compostura e não mais aguentando a morrinha que subia às narinas, disse para que saísse dali, pois que o lugar não era casa de caridade. - Mas, senhor, eu tenho dinheiro pra pagar... – Nem conseguiu terminar a frase, pois era empurrado com a presteza dos que nauseiam. Não houve por parte do escorraçado nenhuma atitude de revolta. E como tudo voltasse ao normal, as conversas recomeçaram, e com o mesmo entusiasmo de antes. Passado esse embaraço, e o maître voltou-se para João Bosco, esperando o reinício da história. O cliente, no entanto, disse que se esquecera do que iria contar, e tratou de oferecer o cartão de crédito. Ao se levantarem, João Bosco, por mera curiosidade, resolveu perguntar o nome do garçom que se livrara do forasteiro. E deu um leve sorriso ao saber que também se chamava João, só que Nogueira. Antes de saírem, João Bosco decidiu pedir dois mistos-quentes para viagem. O maître estranhou o pedido e, demonstrando preocupação, tratou de perguntar se estavam satisfeitos. Mas como ouvisse um conciso sim, e como a resposta vinha acompanhada de um olhar reprovador, o funcionário engoliu a saliva, desviou os olhos, e foi à cozinha ordenar o preparo dos sanduíches. O enjeitado não se tinha afastado muito. João Bosco o avistou sentado no mesmo banco em que há pouco se refugiaram. E para lá se dirigiu o casal. Marta não dizia palavra; nem precisava, pois desde o momento em que ouvira do marido a determinação para viajar, já sabia que ele poderia tomar atitudes, as mais inusitadas possíveis. E acompanhava João Bosco em direção àquela figura repulsiva que, com a cabeça apoiada sobre as mãos, esquecia-se da fome e se perguntava o motivo por que recusaram que entrasse, sentasse, comesse e pagasse. O repelido assustou-se quando ouviu de João Bosco se estava com fome. Rapidamente, buscou secar os olhos nas mangas ensebadas e respondeu, por entre gaguejos, que só estava descansando um pouco para depois seguir viagem. E ia continuar a justificar-se, quando percebeu que no embrulho de papel branco, que carregava o senhor com quem falava, escorria voluptuosa gordura e dele exalava o melhor dos perfumes. O amor-próprio do rejeitado, há pouco espicaçado, ainda respirava, e isso foi suficiente para que desviasse o seu olhar daquele pacote tentador. Não pôde escamotear, contudo, que engolia a salivava a duras penas, o que deixou o casal ainda mais compungido, ao ponto de não se intimidarem com o fedor que respiravam. João Bosco não se fez de rogado e ofereceu a comida com um leve sorriso, expressão essa acompanhada espontaneamente por sua esposa. O expulso percebeu o gesto, volveu a cabeça em direção aos sanduíches, lambeu os lábios ressequidos... Mas o sentimento de dignidade que ainda restava falou mais alto, e ele recusou. Antes que Marta ensaiasse o que dizer, João Bosco antecipou-se e, explicando que ouvira o diálogo que travara no restaurante, sabia que ele, o repudiado, tinha o dinheiro necessário para pagar aquele lanche. Assim, não havia motivos para melindres nem humilhações. Era pegar, pagar e comer; apenas isso. O afugentado sorriu, e sua autoestima agradeceu. E ao mesmo tempo em que procurava com a mão direita o numerário por entre os bolsos do seu casaco roto, levava aos olhos um trapo asqueroso, a fim de secar as lágrimas que teimavam em escorrer. Esse fato, por si só, não incomodaria o benfeitor. No entanto, quando o recusado apresentou um punhado de notas de um real, todas amassadas, muito gastas e engorduradas, um sentimento confuso tomou conta de João Bosco. É que ele jurava que o pobre senhor tivesse muito mais dinheiro, e isso lhe impôs um certo desapontamento. Não obstante esse seu sentimento, o ex-garçom manteve-se insuspeito, e, cumprindo o prometido, perguntou ao desprezado qual o valor daquelas notas. E se a resposta mostrou-se muito aquém do que realmente valiam os sanduíches, nem por isso a transação deixou de acontecer. Daí que o vendedor, muito atento à suscetibilidade do desamparado, fez um ar de surpresa e afirmou, com todo o convencimento possível, que a quantia que recebia era exatamente o valor por que ele, João Bosco, comprara os sanduíches. Seria temerário afirmar que o esfomeado acreditou, de fato, nessa estonteante coincidência. Mas isso pouco ou nada importou, pois tanto ele quanto o casal ficaram muito felizes. Como a refeição acabava, João Bosco sentiu Marta puxar seu braço; era hora de partirem. E como exprimissem uma despedida, o reanimado idoso, percebendo a intenção, correu a chupar os dedos que faltavam, e começou a agradecê-los de uma maneira tão sincera, tão amorosa, que João Bosco e Marta, enternecidos, por um momento até se esqueceram de que queriam ir embora. Interessante, inesperado e, por que não dizer, um tanto vexante foi o fato de que coube ao miserável perguntar os nomes de seus benfeitores. Esses, percebendo o vacilo, responderam meio sem jeito. Curioso, então, foi o interesse do saciado em saber os nomes completos. Eles não recusaram responder, é verdade, mas falaram com um quê de desconfiança. - Pois eu me chamo Aparício de Souza Nogueira, um seu criado. O casal, que já não sabia o que falar, agradeceu com um leve sorriso, arriscou um até breve – que foi logo confirmado por seu Aparício –, e foi andando. Depois de alguma distância, ambos resolveram parar e olhar para trás. Seu Aparício não mais se encontrava onde o tinham deixado. Buscaram-no com os olhos, mas não o avistaram. Marta comentou ser impossível tanta ligeireza àquele idoso, dedução essa a que João Bosco aderiu, e com idêntica estranheza. Mesmo ressabiados, seguiram caminho. Precisavam descansar, refletir sobre o primeiro dia em Araçatuba, e, quem sabe, se as forças ainda permitissem, gostariam de passear na noite interiorana. No quarto do hotel, João Bosco, que se revigorava com uma potente ducha, cansou de dialogar consigo mesmo e puxou conversa com a esposa, que secava os cabelos: - Marta, você também notou aquela estranha coincidência? - Que coincidência? – E desligava o secador. - Ora, aquela, do sobrenome? - Que sobrenome? - Ora, não percebeu que aquele senhor, o mendigo para quem demos os sanduíches, ele tinha o mesmo sobrenome do garçom que o botou para fora, lá no restaurante? - Ah, é?... - É. - Coincidência. - É... Coincidência. O banho a ambos refez, e decidiram sair para passear e jantar. Mas assim que pôs os pés fora do hotel, um levíssimo desconforto teimou em roçar o estômago do septuagenário. No entanto, em nome da decisão que tomara, da liberdade que almejava, e estimulado por terem contribuído para um final feliz quanto ao triste episódio do restaurante, João Bosco elevou o pensamento, suspirou profundamente, e conseguiu reaprumar-se, o que fez com que se sentisse até mais confiante. Marta, que tudo percebia, tratou de encorajar o marido. Entretanto, pediu que, pelo menos nesta noite, não pensasse mais em preocupações; que curtissem o luar, que relembrassem os bons momentos – e foram muitos! –, que, enfim, deixasse para o dia seguinte o motivo por que voltara a Araçatuba. João Bosco relutou, mas não criou obstáculos. Afinal, não seriam algumas horas de descontração que comprometeriam a sua libertação. Resolveram entrar numa pizzaria e não erraram na escolha. Mas como o clima estava para boas recordações, João Bosco lembrou-se de uma sorveteria que adorava ir quando criança. O sabor e a cremosidade do sorvete de coco foram algumas das pouquíssimas coisas que nuca abandonaram sua memória. Marta gostou da ideia; se bem que se calasse quanto à possibilidade de darem com um outro comércio, ante o tempo que passou e às falências que foram decretadas. Fosse por sorte, por excelência na qualidade ou por competência na administração – ou por esses três fatores em conjunto –, o fato é que a Sorveteria Branca de Neve mantivera-se intocável. E como o calor da noite convidava, o local fervilhava. Marta percebeu aquelas faíscas infantis que dos olhos do marido ressurgiam, e teve que se segurar para não deixar transparecerem lágrimas. O que ela desfrutava ia muito além de uma simples noitada; era o seu eterno amor que despertava, revivendo a parte boa da sua meninice. Ambos pediram sorvetes de coco. Ele, na casquinha; ela, no potinho de isopor. Marta se contentou e se deliciou com duas enormes bolas. João Bosco, com três, equilibrando-as uma sobre a outra, como fazia quando criança. E se lambuzaram, e riram, e até arriscaram – e trocaram – um rápido beijo na boca. Marta enrubesceu, mas não se arrependeu um só instante. Quando se lembravam das peripécias que a primogênita fazia quando era bebê, João Bosco viu passar na calçada aquele mesmo garçom que repudiara o pobre do seu Aparício. De certo, pensou consigo, seu turno acabara e ele voltava para casa. Neste exato momento, porém, a figura daquele pedinte apareceu em sua mente, e o seu sobrenome nela ressoou como um trovão! João Bosco tomou um susto. Comentou o quanto e como pôde com Marta, e até fez que ia levantar-se. Mas ela o relembrou do que há pouco concordara, e ele se conteve. Seria desnecessário dizer que João Bosco introduziu na conversa, e por mais de uma vez, esse estranho fato que acabara de acontecer. Mas só se decidiu por enterrá-lo quando notou que Marta já não mais comentava suas hipóteses. Ele teceu mil desculpas, e ela as aceitou. E continuaram a relembrar os bons momentos. Já deitados na cama, marido e mulher tornavam a percorrer caminhos opostos. Marta, que sempre tivera sono pesado, sequer conseguiu terminar a oração; passou do boa-noite ao ronco com a rapidez de um relâmpago. João Bosco, porque toda a vida tivera sono leve, não se intimidou com o cansaço, e pôs-se a rever os acontecimentos no primeiro dia do seu retorno. Sentia-se, por isso, muito estranho. Ora, se o que pretendia era ter contado para alguém o que lhe acontecera há cinquenta anos, como uma forma de autocatarse, não só isso não tinha acontecido, como também se via, agora, completamente desnorteado, uma vez que o acaso impusera a cena patética do almoço. E, revendo-a frase por frase, gesto por gesto, mais desperto ficava. Mas, então, como se livraria das correntes que ainda o prendiam? Teria coragem, ou vontade, de retornar àquele restaurante, agarrar do primeiro com que topasse, e sobre ele entornar a água viscosa e escura que jazia no balde enferrujado do pretérito? Ou seria melhor que fosse, primeiro, reencontrar seus parentes, mostrar-se vivo, e, na medida do possível, refeito e feliz? Será que eles o receberiam? Será que dele se lembrariam?... Essas e muitas outras perguntas fez João Bosco para si, mas nada obteve além do metódico ressonar da esposa e da harmoniosa sinfonia das cigarras. E como não encontrasse resposta, o jeito foi levantar e procurar o que fazer. Foi ao banheiro, ligou a televisão no modo muting, comeu algumas nozes que pegou no frigobar, estimulou-se com uma garrafinha de Whisky, mas dela desistiu, pois que faltava companhia... E só encontrou alívio depois que, remexendo na bolsa de Marta, achou e engoliu um comprimido para dormir. João Bosco sonhava. E por entre as várias e desordenadas cenas a que assistia, uma prendeu sua atenção: Ele se via só, e na mesma praça em que estivera com Marta, assim que saíram à procura de seu Aparício. De repente, o beneficiado surgia. Estava alegre, calmo, feliz; em nada parecido com aquele coitado que, famélico, devorara dois mistos-quentes. Aliás, e como em sonho tudo é possível, se se fixassem no seu entorno, notariam uma aura em expansão, o que imprimia maior simpatia à sua figura. Mesmo atônito, João Bosco não se intimidou, e caminhou em sua direção. Mas quando dele se aproximava, viu, à sua esquerda, que uma outra pessoa aparecia. Era João Nogueira, aquele mesmo garçom que afugentara seu Aparício. Estava desorientado, irrequieto, e um pouco revoltado. E como permanecesse envolto em uma bruma acinzentada, não conseguia distinguir onde se encontrava, o que aumentava a sua própria confusão. Esse “intruso” fez com que João Bosco não só estacasse o passo, como também ficasse calado, e sem a menor ideia do que fazer. Seu Aparício, sem pronunciar palavra, fez sinal a João Bosco. Obtida a sua atenção, sorriu, fechou os olhos, cruzou os braços no próprio peito e pendeu a cabeça para a esquerda, demonstrando, com essa mímica, um profundo carinho para com aquele que o expulsara. Quando João Bosco, muito intrigado, voltava os olhos para o desalmado garçom, notou que seu Aparício sumia. De nada adiantou a João Bosco gesticular e tentar impedir que ele se fosse. E, de igual forma, sequer pôde se dirigir ao garçom João Nogueira, pois este sumia em seguida. João Bosco acordou assustado, suando e arfando. Olhou para Marta e quis contar tudo por que passara. Mas como dormia o sono dos justos – senão, o das pedras –, acabou desistindo, e deixou-se ficar sobre a cama, entregando-se ao lento recuperar de suas forças. E se o cansaço aos poucos se foi, o sono recusou-se a voltar, e ele não mais conseguiu dormir. Contar a novidade para a esposa, portanto, só no dia seguinte. Quando Marta acordou, e percebeu o zum-zum da TV ligada, João Bosco já tinha tomado banho, vestido-se, e assistia a um noticiário para tapear a fome. Ao perceber que a esposa acordara, desligou o aparelho, sentou-se agitado ao seu lado – e que solavanco! –, e começou a despejar o que sonhara. - Calma, João, calma!... Ainda nem acordei. Ele se acalmou; mas não ao ponto de respeitar o delongado toalete da esposa. Foi durante o café da manhã que João Bosco contou todo o sonho que tivera. E, é claro, obteve de Marta o mesmo espanto e idênticas interrogações. De uma coisa, porém, João Bosco estava convicto: Tinha que retornar ao Restaurante do Macedo para conversar com o garçom João Nogueira. - Mas por que, homem de Deus?! – perguntou a esposa, sem encontrar justificativa que bastasse. - Não sei, Marta. Só sei que sinto, que preciso falar com ele. Eu sei que é difícil de explicar, mas... foi como se seu Aparício me quisesse dizer que aquele garçom seria, sim, a chave da minha libertação! Por óbvio que Marta não entendeu patavina. E, pior que isso, teve a leve suspeita de que o marido variava. Afinal, e pelo que se lembrava, João Bosco nunca tivera sonho tão maluco. Fosse como fosse, não seria ela quem o desestimularia a procurar caminhos que o conduzissem à tão sonhada paz, depois dos anos de exílio e das incontáveis máscaras que usara, sempre com o fim de disfarçar e amenizar o sofrimento acarretado pela vergonha escondida em seu âmago. Dessa forma, Marta viu-se na obrigação de apoiar seu eterno companheiro, fazendo-o, porém, sem aquele entusiasmo a que ela própria teria gostado de se entregar. Como percebesse a ansiedade do marido, e como o almoço ainda estava longe de acontecer, Marta sugeriu que fossem passear no parque da cidade, no mesmo local em que João Bosco costumava bater uma bola com seu pai, quando era adolescente. Essa recordação, terna que fosse, encheu o velho peito da boa saudade. Tanto que ele até se animou a ir procurar a família, iniciando a reaproximação por meio de um primo de quem muito gostava, um dos poucos com quem trocou correspondências, sobretudo nos primeiros anos de degredo. - Excelente ideia, meu amor! Vamos passear sem pressa, e depois vamos almoçar no velho teatro do meu passado. - Nossa! Como estamos inspirados! - São seus olhos, meu amor, são seus olhos... Era fato, João Bosco estava mais que otimista. Uma fervente intuição o respaldava e o empurrava para frente, fazendo com que ele antevisse, no encontro com João Nogueira, o final de uma exaustiva fuga, a porta que enfim franquearia a tão sonhada liberdade. O antigo parque da cidade estava apinhado de turistas. Pudera! A primavera embelezava-o de tal maneira que não haveria ninguém, por mais impassível que fosse, que não sorrisse assim que tomasse contato com suas primeiras cores e perfumes. Além do que, os pipilos, chilreios, trinados e gorjeios dos diversos pássaros que ali se amavam, incrementavam-lhe a formosura, e mais convidavam os passantes a se entregarem a uma experiência única, inesquecível! João Bosco e Marta caminhavam de mãos dadas, pouco se importando se alguém questionasse com os olhos a demonstração de carinho. Ora paravam, tomavam de um botão e o sorviam, ora apontavam para um ninho, indagavam dos filhotes e procuravam pelos pais. Até que, achegando-se do lago, decidiram sentar e apreciar a vista; trocariam lembranças, palavras e afagos. Quando deram uma pausa, aconchegando-se um ao outro e deixando os olhos vaguearem, Marta pareceu ver alguém conhecido do outro lado do lago. Apurou a visão e não teve mais dúvida: Era João Nogueira que andava despreocupado; decerto fazia hora até o momento de reassumir o serviço. Ela bem que desejou não o ter reconhecido. Afinal, já fazia um bom tempo que não experimentava tanto aconchego. Ora, pensou, por que antecipar um encontro que ocorreria daí a algumas horas? E ficou calada. No entanto, sua consciência começava a incomodar. E se não sabia bem o porquê, sentia que deveria avisar o marido. E como essa sensação a cutucasse sem tréguas, acabou sucumbindo. Impelido não se sabe por que força interior, João Bosco pediu um tempinho à esposa, que não teve como negar, e se foi ao encontro com o desavisado garçom. João Nogueira tomou um susto ao ser parado pelo idoso xará. - Com licença, meu jovem, lembra-se de mim? - Não... não me lembro do senhor. João Bosco, então, contou que tinha ido almoçar no Restaurante do Macedo no dia anterior e que presenciou aquela cena com aquele indigente. - Pois é, meu senhor, de vez em quando aparece um mendigo lá no restaurante, e a gente é obrigado a botar pra correr. – e, sorrindo, concluía – Tudo pra deixar os clientes mais à vontade. Diante da satisfação de João Nogueira, que cria piamente ter acertado na atitude, João Bosco ficou pasmado, o que o fez, por um momento, esquecer-se do motivo por que lhe queria falar. No entanto, uma forte inspiração veio em seu auxílio, relembrando-o. E João Bosco, endireitando-se, pediu ao garçom alguns poucos minutos de atenção. Como ainda tardava a hora de entrar no trabalho, João Nogueira acabou aceitando. E um banco foi escolhido para conversarem. - Meu jovem, sabia que nasci nesta cidade? - Não sabia, não senhor. - Pois é. Além disso, eu também trabalhei como garçom. - Ah é?... Que coisa, hein? - Pois é... Mas esta vai deixá-lo ainda mais curioso: Sabia que trabalhei como garçom exatamente no Restaurante do Macedo. Fui contratado pelo próprio Macedo, o primeiro dono! João Nogueira passava de ressabiado a bastante curioso, o que deixou João Bosco mais à vontade. - Pois saiba, meu filho... Posso chamá-lo assim, não posso? - Pode, sim senhor. - Pois vou contar a você, meu filho, uma historiazinha que aconteceu comigo, há quase cinquenta anos: Como já disse, naquela época eu trabalhava como garçom no restaurante em que você trabalha agora. Certa tarde, entrou no restaurante um senhor muito malvestido, fedendo a catinga, com barba grossa e emaranhada, de pele morena e enrugada, com unhas encardidas e que mais pareciam garras. – Nesse ponto, o garçom, percebendo a identidade de fatos e achando que fosse ser repreendido, quis cortar a conversa e ir embora. Mas João Bosco o impedia, assim falando, e com a maior sinceridade do mundo: - Calma, meu jovem João Nogueira, que minha intenção é a melhor possível. - Como sabe o meu nome? - Acabei perguntando para o maître. - Pois eu não estou gostando nada dessa prosa. O que é que o senhor quer comigo? João Bosco fez sinal para que ele se acalmasse. E uma vez obtida a concordância, o ex-garçom continou: - Assim que aquele indigente entrou, seu Osório, meu chefe naquela época, mandou que eu fosse perguntar o que ele queria. Perguntei, e ele me respondeu que vinha de fora e queria almoçar. Disse a ele, então, que o local não era casa de caridade, e que não servíamos comida a quem não tivesse dinheiro para pagar. Ele respondeu que tinha, sim, dinheiro, e que, portanto, queria uma mesa. Neste instante, eu me enfureci. E como era bem mais jovem que ele, e bem mais forte, agarrei-o pelos colarinhos e o joguei para fora. João Nogueira admirou-se. O senhor com quem falava, e por cujo aspecto ninguém inferiria brutalidade, fora, sim, tão agressivo quanto ele próprio o tinha sido. E como o peso do seu ato talvez começasse a incomodar, o jovem garçom soltou esta pérola: - Ainda bem que mendigo não vai pra delegacia dar queixa. Senão a gente estava frito! - Antes tivesse feito isso, meu filho, antes tivesse!... - Por quê? - Continua ouvindo e você vai saber o porquê. Bem, lá pelas dezesseis horas, fui atender a um outro cidadão que queria almoçar. Ao contrário dos demais clientes, que eram conduzidos às mesas pelos funcionários, ele já se tinha sentado, e na mesa que seu Macedo reservava para as personalidades da região. Fiquei sabendo disso da boca do nosso maître, que, depois de receber por antecipação uma polpuda gorjeta, disse que aquele visitante fazia questão de se sentar na melhor mesa da casa e de não ser servido por mais ninguém, a não ser por mim. - Ué? Por quê? – João Nogueira definitivamente escutaria até o fim. - Também fiquei com a pulga atrás da orelha. Mas, enfim, o maço de notas que nosso maître tinha guardado fez com que minha curiosidade ficasse bem caladinha. - Eu também ficaria. - Pois então. Bem, esse senhor era em tudo distinto. Cabelos cortados e penteados com apuro; escanhoado à perfeição; bigode impecável; pele morena e muito bem tratada; vestes saídas de um habilidoso alfaiate; chapéu e sapatos que pareciam recém-comprados; unhas as mais bem feitas que já vi; e usava um perfume absolutamente divino. - Devia ser cheio da grana! - Era, sem dúvida. Tanto que esse senhor fez questão de pedir de tudo e do melhor, incluindo o vinho mais caro que nossa casa oferecia. Isso, por óbvio, me deixou com os olhos faiscando, pois a conta seria gigantesca, e, como o próprio seu Osório deixou a entender, se eu o tratasse da maneira a mais educada e diligente possível, ainda teria uma gorjeta que faria inveja a todos os garçons da região. - Ah! se a sorte me desse essa chance!... - Como dizia, ele comeu e bebeu até se fartar. Até as sobremesas não escaparam. Fez questão de experimentar todas. - Pelo visto, esse foi o seu dia de sorte! seu...? - João Bosco. - Pois continue, seu João Bosco. Quero saber o quanto o senhor ganhou. - Nada. - Nada?! Mas, que mão de vaca! - Aquele cliente não era mão de vaca. - Mas?... - Continua escutando: Depois que terminou de comer, ele pediu que eu trouxesse a conta. Assim que a entreguei, ele me perguntou se eu o conhecia. Respondi que não; que, infelizmente, nunca o tinha visto antes. No entanto, ele insistiu, e afirmou que eu já o conhecia, e de algumas horas atrás. - Como assim? - Ele perguntou se eu me lembrava que tinha jogado para fora um pobre velho, perto do meio-dia. Constrangido, tive que dizer que sim. Pois foi aí que ele se levantou, inchou o peito, e afirmou que ele era aquele a quem eu escorraçara. - Ele?! Como assim?! - Já ouviu o ditado “O hábito não faz o monge”? - Não. - Pois ele quis me dar uma tremenda lição. Disse, e em alto e bom som, que não era porque ele se apresentava como alguém sujo e fedorento que não tivesse dinheiro, e muito dinheiro. Era, sim, um grande fazendeiro, riquíssimo! Apenas que nunca dera importância para as aparências. E como eu o tratei daquele jeito, ficou tão ofendido, e tão revoltado, que fez questão de sair, de ir ao barbeiro, de tomar o mais completo banho de sua vida, e de comprar os melhores trajes e o mais delicado dos perfumes que havia em Araçatuba. Daí voltou ao restaurante e me jogou tudo isso na cara. Depois, e eu já não sabia onde me enfiar, chamou seu Osório e os outros garçons, e jogou sobre a mesa um montão de dinheiro, o suficiente para pagar a conta e para distribuir como gorjeta. Mas fez questão de dizer que dava para todos, menos para mim. - Meu Deus! - Se só parasse por aí, meu filho, eu teria seguido com minha vida. Mas esse episódio correu de boca em boca, e não havia uma só pessoa que não me apontasse na rua. Meus “amigos” me abandonaram e seu Macedo, que via sumir a clientela, achou melhor perder um garçom a ter que fechar o restaurante. - Poxa... - E porque não havia um só lugar onde eu não achasse que me apontavam, o jeito foi fugir, me mudar. E fui embora de Araçatuba, para nunca mais voltar. - Mas, por que o senhor voltou? E por que fez questão de ir comer no mesmo lugar e na mesma mesa onde tudo aconteceu? João Bosco tentou explicar que contar essa história para alguém, desabafando, de preferência, com um garçom que trabalhasse no lugar onde tudo aconteceu, além de procurar reviver aquela tarde sentando na “mesma mesa”, tudo isso talvez o ajudasse a se livrar desse invisível e terrível carrasco, que o perseguiu e o torturou por todos esses anos. E, de fato, depois que terminou o relato, sentia-se muito mais leve, sereno, rejuvenescido! Só não pudera prever que reveria, com poucas diferenças, o que lhe acontecera há cinquenta nos. Ora, esse como déjà vu o deixou muito abalado. Daí ter adiado a confissão para o dia seguinte, e saído calado do restaurante. - Mas como precisava fazer alguma coisa – continuou João Bosco –, sobretudo depois que vi aquele mendigo ser expulso, resolvi consolá-lo da maneira que podia, e pedi que preparassem dois sanduíches. João Nogueira não sabia o que falar. E passou a refletir: Tomara a mesma atitude que João Bosco. E se aquele a quem expulsou também fosse um milionário desleixado? E se o falso mendigo quisesse voltar ao restaurante para lhe dar a mesma lição? Ele, João Nogueira, sofreria as mesmas consequências que ouvira de João Bosco? Era casado e tinha dois filhinhos. Eles também seriam forçados a abandonar Araçatuba, visto que, aonde quer que fossem, seriam apontados como a família daquele pai que, de desumano, tornou-se o maior dos humilhados? E ele estremeceu! Para tentar justificar-se, improvisou as seguintes perguntas: - Mas o que é que eu podia fazer? Ou obedecia, ou estava na rua. O senhor também; se não tivesse obedecido naquela época, seria mandado embora. - Sim, é verdade. Eu poderia ter sido despedido. Mas, pelo menos, não teria sido humilhado como fui, e não precisaria ter fugido da cidade onde nasci. Diante desse singelo argumento, não havia mais justificativas plausíveis, e João Nogueira calou-se. O que caberia a ele fazer? Ora, só restava orar e esperar para que o passado não fosse tão repetitivo assim. - Mas que besteira!... – irrompeu João Nogueira, caindo em si – Não é porque o senhor se deu mal, que essa desgraça vai acontecer comigo também. - Não disse que isso irá acontecer, muito menos torço para que isso aconteça. Sei o quanto sofri! Apenas senti que precisava contar a você, pois isso me libertaria desses anos de sofrimento. E, realmente, você não pode imaginar como eu estou me sentido leve agora! Um silêncio se formou. João Bosco olhava compadecido para João Nogueira. E este, fitando o lago, voava em pensamentos. E como quisesse acabar o diálogo um pouco mais animado, o garçom quis saber se ele tinha, pelo menos, conseguido alcançar o velho Aparício e repassado a comida. - Sim, ele simplesmente devorou os sanduíches. Não sobrou uma migalha para contar a história. – E ambos sorriram. - É melhor eu ir... Nunca fui de chegar atrasado no emprego. - É, é melhor. E como quisesse um aval à sua paz, João Nogueira ousou perguntar, torcendo para que a resposta fosse a que ele quereria ouvir: - O senhor não acha que aquele mendigo era um ricaço disfarçado, acha? - Só se um membro distante da família enriqueceu sem que vocês soubessem. - Como assim? - É que, veja que coincidência, o sobrenome daquele pé-rapado era Nogueira; Aparício de Souza Nogueira, para ser mais exato. Neste instante, os olhos do garçom se arregalaram. E um arrepio na espinha vinha intensificar o seu assombro. Essa reação não passou despercebida de João Bosco, que, sem cerimônia, resolveu saber do motivo: - Disse alguma coisa de errado? - É que... Minha mãe sempre me disse que só um dos meus avós estava vivo quando eu nasci. Era o sogro dela. E ele se chamava, justamente, Aparício de Souza Nogueira. Neste momento, João Bosco lembrava-se da demonstração de profundo carinho que seu Aparício fizera em sonho, por meio da mímica. E com um certo engasgo, acabou comentando: - Mas que... coincidência, não? Como essa última novidade fazia pensar, e calar, não havia mais por que continuarem o bate-papo. Despediram-se e partiram, ambos bastante encafifados. João Bosco, de cabeça baixa, relembrava-se ainda do inexplicável sumiço de seu Aparício, quando ele e Marta viraram os rostos para procurá-lo, lá na praça. E perguntava-se: - Meu Deus, isso seria possível?... João Nogueira, que também caminhava olhando para o chão, perguntava-se se aquele pobre diabo poderia ter sido seu avô. E arrepiava-se dessa hipótese! Mesmo assim, conjecturava, se aquele mendigo era mesmo o seu avô paterno, e se ele, sabe lá Deus por qual motivo, tivesse tido a incrível possibilidade de retornar ao mundo dos vivos, com certeza estaria arrependido e muito triste, ante a reprovável recepção que ganhara de seu neto. Dos males, o menor – concluía o garçom –, pois, nesse caso, seu avô, que nunca fora rico, não poderia revelar-se um milionário, como o fizera o fazendeiro de quem João Bosco recebera aquela humilhante lição. - Ou será que poderia?!... – E João Nogueira tremeu nas bases. Por óbvio que Marta também ficou surpresa com a coincidência dos homônimos. Chegou mesmo a aventar para o marido sobre a possibilidade de uma experiência dita sobrenatural. João Bosco, contudo, tratou de afastar essa insinuação. O que passara nesses dois últimos dias tinha sido mais do que suficiente ao seu desgastado coração, e ele se recusava a empilhar mais uma caraminhola em sua vida. Além do que, o que importava mesmo a João Bosco era o fato de que, depois de anos de fuga e martírio, o sofrimento enfim acabava. O fato de ter conseguido regressar a Araçatuba, de ter enfrentado o seu tablado tragicômico, de até ter revisto a cena que o desgraçara, e de ter podido revelá-la a alguém, tudo, enfim, contribuiu para que ele finalmente se libertasse. Agora, pensava consigo, bastava reencontrar seus parentes, reatar o convívio, e tocar a vida adiante. Se tinha pressa? Não. Afinal, acabara de renascer... João Bosco e Marta permaneceram mais dois dias em Araçatuba. E só não ficaram mais – mais de um parente os convidaram a que esticassem o feriado – porque tinham se comprometido com a filha caçula que estariam de volta para o quinto aniversário do netinho. Seu Aparício nunca mais reapareceu, deixando esquecer-se a João Bosco e a João Nogueira. No entanto, João Nogueira foi obrigado a lembrar-se do velho Aparício na semana seguinte, assim que um outro senhor mal-ajambrado entrou no Restaurante do Macedo, à procura de jantar. Esse inconveniente foi, por óbvio, de todos percebido, e mais uma vez João Nogueira era intimado pelo maître a que dele se livrasse, e o mais rápido possível. Só que no intervalo que medeia o repassar da ordem e o início da ação, João Nogueira lembrava-se de tudo por que passara na semana anterior, fosse no episódio com o homônimo de seu avô, fosse na intrigante conversa que tivera com João Bosco, mormente sobre as consequências que teve que suportar ante a sua livre escolha. - Pois então – disse o maître –, vai ficar aí, parado? João Nogueira fixou aquele mal-ajeitado, apertou os lábios ao mesmo tempo em que refletia, e, um pouco trêmulo, respondeu ao seu chefe: - Desculpe, seu Francisco, mas se o senhor quer botar esse sujeito pra fora, é melhor fazer isso sozinho. João Nogueira foi despedido nessa mesma noite, momentos antes de fecharem o caixa. Partia tranquilo, de cabeça erguida e confiante no futuro. Até porque, percebera, e com muita clareza, o quão ofendido e revoltado saíra aquele senhor.

Published at : 25-09-2017
Category : Short story