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- Atualidades Machadianas.

Atualidades Machadianas.

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Há duas semanas foram anunciados os vencedores do espirituoso Prêmio Ig Nobel, a "... paródia do Prêmio Nobel que homenageia as pesquisas que primeiro fazem rir e depois, pensar." (O Estado de São Paulo, REUTERS/Gretchen Ertl, 14 de setembro de 2017). Pois bem, se esse Prêmio tivesse sido criado no século XVI, é provável que Patimau e Languru fossem os agraciados com o troféu destinado à ciência. É o que se denota deste trecho: "Um dia, andando a passeio com Diogo Meireles, nesta mesma cidade Fuchéu, naquele ano de 1552, sucedeu deparar-se-nos um ajuntamento de povo, à esquina de uma rua, em torno a um homem da terra, que discorria com grande abundância de gestos e vozes. O povo, segundo o esmo mais baixo, seria passante de cem pessoas, varões somente, e todos embasbacados. Diogo Meireles, que melhor conhecia a língua da terra, pois ali estivera muitos meses, quando andou com bandeira de veniaga (agora ocupava-se no exercício da medicina, que estudara convenientemente, e em que era exímio) ia-me repetindo pelo nosso idioma o que ouvia ao orador, e que, em resumo, era o seguinte: - Que ele não queria outra cousa mais do que afirmar a origem dos grilos, os quais procediam do ar e das folhas de coqueiro, na conjunção da lua nova; que este descobrimento, impossível a quem não fosse, como ele, matemático, físico e filósofo, era fruto de dilatados anos de aplicação, experiência e estudo, trabalhos e até perigos de vida; mas, enfim, estava feito, e todo redundava em glória do reino de Bungo, e especialmente da cidade de Fuchéu, cujo filho era; e, se por ter aventado tão sublime verdade, fosse necessário aceitar a morte, ele a aceitaria ali mesmo, tão certo era que a ciência valia mais do que a vida e seus deleites. "A multidão, tanto que ele acabou, levantou um tumulto de aclamações, que esteve a ponto de ensurdecer-nos, e alçou nos braços o homem bradando: Patimau, Patimau, viva Patimau, que descobriu a origem dos grilos... "Desandando o caminho, vínhamos nós, Diogo Meireles e eu, falando do singular achado da origem dos grilos, quando, a pouca distância daquele alpendre, obra de seis credos, não mais, achamos outra multidão de gente, em outra esquina, escutando a outro homem. Ficamos espantados com a semelhança do caso, e Diogo Meireles, visto que também este falava apressado, repetiu-me da mesma maneira o teor da oração. E dizia este outro, com grande admiração e aplauso da gente que o cercava, que enfim descobrira o princípio da vida futura, quando a terra houvesse de ser inteiramente destruída, e era nada menos que uma gota de sangue de vaca; daí provinha a excelência da vaca para habitação das almas humanas, e o ardor com que esse distinto animal era procurado por muitos homens à hora de morrer; descobrimento que ele podia afirmar com fé e verdade, por ser obra de experiências repetidas e profunda cogitação... o princípio da vida futura, descoberto por Languru, que assim se chamava o outro." (O Segredo do Bonzo, IN Obras Completas de Machado de Assis, Papéis Avulsos II, São Paulo: Globo, 1997, pp.27 a 29). Ocorreu-me, porém, ir perguntar ao Bruxo do Cosme Velho se ele também concordaria com esses nomes, ou se apostaria em outros, mesmo que e em área diversa. Por meio de uma concisa psicografia, o literato concordou comigo, mas tão só quanto à área científica; até porque, aduziu, naquele século longínquo, seria improvável que viessem a saber da astúcia dos laureados. No entanto, prosseguiu, admitindo-se ser possível a inclusão na premiação destinada à cátedra de psicologia, Machado de Assis transcrevia este trecho, tirado de uma sua crônica de 1892, e com o qual respondia à segunda parte da minha pergunta: "Sempre que entrevejo uma idéia, uma significação oculta em qualquer objeto, fico a tal ponto absorto, que sou capaz de passar uma semana sem comer. Aqui, há anos, estando sentado à porta de casa, a meditar no célebre axioma do Dr. Pangloss - que os narizes fizeram-se para os óculos, e que é por isso que usamos óculos, sucedeu cair-me a vista no chão, exatamente no lugar em que estava uma ferradura velha." (Obras Completas de Machado de Assis, A Semana I, São Paulo: Globo, 1997, p.38).

Published at : 29-09-2017
Category : Articles and Opinion