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- Peixe-porco II - Há um "x" neste mapa

Peixe-porco II - Há um "x" neste mapa

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Olha o peixe-porco outra vez na mira do meu interesse. O animal é raro nestas paragens, só que já vai dando-as-caras com alguma regularidade. É culpa das Mudanças (reais e irreais), e daquilo que aquece e arrefece as marés. Ou como quem diz: o Mar está para alguns peixes, mas não está para outros. E o facto é que este peixe, em particular, insiste em aparecer-me pela frente, ou melhor, por baixo; mais precisamente por debaixo da água. Quando ao longe vejo o que parece ser um saco de plástico azul a chapinhar na ondulação (e contra o substrato rochoso), focalizo a objectiva da minha miopia, e eis que é nítida a imagem: lá está o velho eremita - vindo não sei de onde - em busca de algo entre as pedras (quase secas) desta cidade.

Os pescadores-do-esgoto estão - obviamente - contentes com a imigração (pouco massiva) desta criatura de corpo comprimido e em feitio de diamante. É, realmente, um cristal de escamas (precioso) aquilo que aparece neste recanto aquático urbanístico, e que faz a alegria da ilegalidade dos anzóis. Sendo historieta empolada ou não, os homens-de-cana dizem que eles são muitos, e a chegar todos os dias. Bem, eu ainda só vi dois; e um de cada vez. Acho que depende da hora que ali passo. Vou, por isso, acreditar no exagero.

Enfim, neste meu segundo encontro não houve apresentações (nem intenções); aliás, no primeiro também não houve. Das duas uma: ou ele não sente a minha presença porque não vê a minha sombra; ou então, não se assusta porque não tem medo de ninguém. Arrogância ou ignorância? Talvez bravura e coragem. Seja o que for, o comportamento equidistante (sobre tudo e todos) não faz desta espécie um alvo difícil (nem fácil). Digamos que do cardume não tem a protecção nem a visibilidade. Nem "ai" nem "ui". Ao invés disso, tem a rigidez de um corpo solitário, que ao mesmo tempo se contorce entre vales e montes para chegar às arenosas planícies (subaquáticas?). É resiliente o bicho!

Vejo o peixe-boi (talvez o mesmo, ou talvez outro) sempre no mesmo lugar. E o contacto entre mim e ele tem uma mecânica repetitiva: eu paro e inclino-me; ele cai para o lado direito e mostra-me o olho esquerdo; e, no auge, olhamos olho-no-olho (eu com dois e ele com um). Ele vai embora e afunda-se noutra hipótese de viver; e eu fico na mesma superfície com todas as hipóteses.

Em frente ao nosso ponto-de-convergência (esporádico), ao lado de um banco-de-jardim, jaz um toco de árvore que faz lembrar um pastor-alemão sentado sobre as patas traseiras. Digamos que é o cão que guia aqueles que não querem ver o afloramento do peixe-porco, porque só querem sentir o santuário envolvente. Até porque logo atrás (um pouco desviado) há um poeta algarvio petrificado que assinala (de mão aberta e virada para cima) o ponto exacto das aparições. Há, portanto, um "x" neste mapa.

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Published at : 08-10-2017
Category : Articles and Opinion