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- Por que nos atraem tanto?

Por que nos atraem tanto?

Crônica

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Muito antes da sonda Curiosity ter pousado em Marte, a curiosidade humana dele já se ocupava, sobretudo quando penso na arte, em seus diversos gêneros e nos mais variados períodos. Citarei três exemplos, que bem ilustram o que afirmei: O primeiro encontra-se na literatura. Machado de Assis, em crônica de 1894, publicada na Gazeta de Notícias do Rio de Janeiro, já perguntava o que pensaria um marciano sobre um incidente que envolveu uma bandeira positivista hasteada na sala das sessões do Conselho, e que estaria espiando cá para baixo com grandes olhos irônicos. O segundo, por óbvio, transborda da sétima arte. Aliás, vale a pena recordar o noticiário veiculado por rádio e narrado por Orson Welles, em 1938, sobre um meteorito que teria caído em uma fazenda em Nova Jersey. Apurado o fato, verificou-se que não se tratava de um meteorito, mas, sim, de uma nave espacial repleta de marcianos armados com um poderoso raio carbonizador, além de máquinas assassinas, e que visavam a destruir a raça humana. Na realidade, tratava-se de uma peça publicitária sobre a adaptação para o cinema do livro A guerra dos mundos (1898), de Herbert George Wells, e que acabou gerando pânico na população. Por fim, e retornando ao Brasil, Elis Regina, em deliciosa canção (1980), fazia uma ligação telefônica para um determinado marciano – caríssima, diga-se de passagem, pois àquela época nem se cogitava de WhatsApp –, e contava que, para variar, o mundo estava em guerra. No entanto, se é verdade que Marte e seus habitantes povoam o imaginário popular, isso não autoriza deduzir que inexistam exceções. Nesse sentido, o conto Micrômegas (1739), do imortal Voltaire, tem como personagens principais um gigante de oito léguas de altura, oriundo da estrela Sírio (o próprio Micrômegas), e um saturniano um pouco mais baixo, medindo mil toesas. Mesmo assim, a regra não deixou de acenar, uma vez que esse planeta foi mencionado pelo narrador; apenas que, por acharem tão pequeno, a dupla de viajantes receou não encontrar pousada, e decidiram seguir viagem rumo à Terra. Mas por que será, ó Bion, que do ser humano transborda tanto interesse por Marte, pelos marcianos? Seria, talvez, por causa de uma inconsciente predileção por uma faceta da cultura italiana? Ora, se é notório que sua superfície é vermelha e que seus habitantes são verdes, dessa combinação poderiam aflorar, por associação, as típicas toalhas enxadrezadas das cantinas do Bixiga, o que remeteria às irresistíveis e voluptuosas massas, aos encorpados e inebriantes vinhos, e à espirituosa e contagiante Tarantela. Quem sabe a causa não estaria na beligerância que, apresentada com habilidade em quadros varonis, continua atraindo os desavisados, seduzindo os incautos e arregimentando as multidões? Afinal, desde Roma antiga que Marte é adorado como o deus da guerra, e, pelo que se infere do bate-papo entre Elis e o marciano, não é porque os Césares deixaram de existir que a sabedoria se multiplicou e se enraizou nas gerações dos que se lhes seguiram. Ou será que a razão estaria na libido? Não por isso que um dos ícones da revista MAD era, justamente, um marcianinho dentuço, orelhudo e de uma só antena, e que, achincalhando muitos maridos, fazia arrepiar o universo feminino... Creio não haver um porquê apenas. Seja como for, Marte e os marcianos causam ainda bastante frisson, o que me permite supor que continuarão alimentando a nossa curiosidade por um bom tempo. De outra parte, fico aqui imaginando se haveria a tal da reciprocidade?... Como assim? Ora, se nós nos interessamos tanto por eles, será que os marcianos também escrevem, noticiam, filmam ou cantam, tendo a Terra e os seres humanos como motes? Bem, se têm ou não, eu não sei. Mas que isso será tema para uma próxima crônica, ah! não tenho dúvidas!

Published at : 19-10-2017
Category : Articles and Opinion