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- O último conserto.

O último conserto.

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Não se sabe como tudo começou, mas os mais antigos de Taquaral sempre professaram que Tenório, um ourives de antanho, tinha o poder de tudo consertar. É claro que as muitas décadas e o imaginário popular se encarregaram de aumentar um pouquinho os feitos desse senhor... Certa vez, diziam, quando passeava perto de um bambuzal, sentiu-se muito estranho, espreitado. Mantendo a calma, conseguiu distinguir um capuz vermelho que, indo e vindo, aguardava o melhor momento para pregar um bom susto. Isso só não aconteceu porque o endiabrado do moleque ouviu uma proposta irrecusável: - Queres que eu te devolva a perna que perdeste na capoeira? Pois aparece e promete deixar do pito. – E nunca mais souberam do Saci. De outra vez, quando viajou a Paris, a passeio, foi direto conhecer a catedral de Notre-Dame, um seu velho sonho. Assim que entrou, reconheceu, ao fundo, Quasímodo, que varria o chão. E como o hábito falasse mais forte, não se conteve, e, como num passe de mágica, extirpou a verruga do enjeitado e sumiu com a sua corcunda. Mas o emblemático mesmo foi a questão diplomática que envolveu Brasil e Itália. Os respectivos embaixadores tiveram muito trabalho para convencer Tenório de que a Torre de Pisa deveria, sim, permanecer inclinada. Esses e tantos outros feitos que se perderam na memória da velha-guarda da cidade interessaram muito a Ana Paula, jornalista em ascensão e sempre à procura de uma matéria invulgar, dos quais tomou conhecimento quando navegava na Internet à procura de um destino para descansar. Ora, como chegassem as férias, a jovem não pensou duas vezes: trocaria a balbúrdia da capital pela quietude do interior, não esquecendo, porém, do inseparável laptop. O tempo na terra do enigmático consertador passava devagar, a dia morto. O marasmo só se abalou quando o carro de Ana Paula estacionou defronte ao único hotel da cidade, o Grande Hotel Taquaral, de apenas dois andares. E a novidade, uma forasteira jovem e bela, correu de boca em boca, iniciando-se no armazém de secos e molhados, passando pelos aposentados da praça e desembocando na sacristia, onde o pároco se uniu às beatas em curiosidade. A paulistana ficou com um quarto simples, mas confortável – o melhor das cercanias, garantiu o gerente. Como chegasse a duas horas do jantar, e comesse muita poeira na viagem, decidiu-se por um banho relaxante. Excelente escolha, pois de há muito sonhava com o deleite em uma banheira de ferro esmaltado. Amolecida pela água quente, de olhos fechados, dormentes, com os tímpanos livres dos costumeiros fones, Ana Paula não pensava, escutava. Eram trinados de rouxinóis, melódicos, envolventes, cânticos esquecidos. E um sorriso espontâneo veio coroar o seu bem-estar. E como mais e mais se entregasse à percepção, outros tantos piados vinham revelar-se; e o encanto se alongava. Ana Paula só voltou à realidade quando a fome somou-se ao frescor da água. E um outro sorriso se fez quando notou as muitas rugas nas pontas dos dedos. Há quanto tempo isso não acontecia? Não soube dizer. À mesa, acatou a sugestão do garçom: arroz, feijão, bife a cavalo, fritas e salada; como sobremesa, frutas da estação. Para sua surpresa, e depois de tudo devorar, não se lembrava de ter provado um trivial tão saboroso. Daí que sua natural curiosidade levou-a a investigar. E soube que, salvo o arroz, que vinha de fora, os hortifrutigranjeiros eram todos produzidos sem agrotóxicos, por mãos familiares e em sítios de conhecidos. E porque sem atravessadores, o preço era bem em conta. A carne, o açougue da cidade também garantia a boa qualidade. Mas foi o cafezinho que mais conquistou os seus olfato e paladar. Pudera! procedente de uma fazenda da região, adoçado com açúcar mascavo, e, o mais importante, passado em coador! Como a lua estava cheia, Ana Paula resolveu passear; mas não antes de sondar o gerente do hotel sobre onde e com quem poderia iniciar as entrevistas. A praça central, defronte à igreja, foi o local indicado. Era lá, ora jogando damas, ora, conversa fora, que os anciãos do município se reuniam e viam passar o tempo. Isso, porém, só no dia seguinte, pois a uma hora dessas, ou eles já se recolhiam, ou já estavam dormindo. - Mas não são nem dez horas! – redarguiu, impressionada, e conferindo no relógio. - Moça, os velhinhos daqui de Taquaral dormem cedo e levantam cedo. Os mais jovens, só na cidade vizinha, onde se reúnem na sorveteria para namorar e ouvir música. Agora, se quiser tentar o Bar do Alcebíades... - Bar?... – Não foi com entusiasmo que recebia a sugestão. Mas como o gerente percebesse o receio, arrematou: - Pode ficar tranquila, moça, que o ambiente é respeitoso. Até porque, o delegado costuma passar por lá à noite, pra garantir a ordem pública e trocar dois dedos de prosa. - E onde fica? – Por óbvio que não se precisava de GPS. Bastavam duas ruas. Ao contrário do que oferecia a Pauliceia, o sereno interiorano estava convidativo, paradoxalmente aconchegante. Ana Paula supôs que essa sensação viesse de uma e outra damas-da-noite que temperavam a rua principal. Entretanto, e se fosse possível abstrair do perfume, sentia que algo mais havia; não poderia descrever, apenas intuir. Quando chegou ao botequim, que estava cheio, a moda de viola que tocavam ao conto de súbito estacou. E seria desnecessário dizer que todos para ela se viraram. Ana Paula nunca se sentiu tão constrangida. Mesmo assim, inspirou profundamente, levantou o narizinho, e, sem piscar, dirigiu-se ao balcão a passos firmes. Como percebesse o embaraço da jornalista, D. Leonor, esposa e sócia do proprietário, tratou de remediar a situação. E a um só de seus gestos, os violeiros retornaram à moda e o burburinho recomeçou. - Sinta-se à vontade, moça. E não ligue pra esse povo. O taquaralense é curioso, mas é também hospitaleiro. Em que posso ajudar? Depois de sentir-se à vontade, Ana Paula contou a que veio, o que deixou D. Leonor e o marido, que já se havia aproximado, com um quê de satisfação, pois que não havia comerciante em Taquaral – os poucos que havia – que não sonhasse com as benesses que um dia poderiam auferir, caso a fama de seu Tenório se firmasse para além dos limites da cidade. - Pelo que contava o meu falecido avô – iniciava seu Alcebíades, com ar professoral –, e ele chegou a conviver com o velho ourives... Não é verdade, Leonor? - Sim, é verdade. - Bem, como dizia – o bloquinho e a caneta de Ana Paula já estavam a postos –, seu Tenório era um homem muito bom, prestimoso, e de bem com a vida. E tinha um dom raro: consertava tudo o que estivesse quebrado, fosse a pedido de alguém, fosse a seu próprio juízo. - Lembra que seu avô contava sobre o nariz... – Seu Alcebíades interrompia D. Leonor: - Deixa, mulher, que sou eu que estou contando. - Fala, Alcebíades, fala... - Bem, certa vez meu avô me contou que o tal do Napoleão não foi o primeiro a quebrar o nariz da Esfinge de Gisé, lá no Egito. - Não?... - Não. Antes dele, o nariz já tinha caído pelo menos uma vez, por conta da argamassa de má qualidade. – Ana Paula não conteve o riso, que foi seguido de bom grado pelo casal. - Continua, por favor. – disse a jovem - Bem, seu Tenório foi chamado às pressas e não cobrou nada pelo conserto. Mas quando o nariz foi explodido a canhão por ordem do baixinho, o ourives se recusou a consertar pela segunda vez; sabe como é, o clima estava pesado, de guerra... D. Leonor também se lembrou de um outro feito do orgulho de Taquaral – que soubera pela tia-avó, durante o preparo das inesquecíveis pamonhas –, mas ficou um tanto encabulada, o que não fugiu ao tirocínio da jornalista. - Fala, D. Leonor, não se acanhe. Nesse exato momento, alguns habitués do estabelecimento, cujos ouvidos já se vinham dividindo entre a melodiosa música sertaneja e a interessante conversa com a garota da capital, tiveram nesse pedido a deixa que faltava; e começaram a se achegar do trio. - Deixe-me ver?... Ah, sim. Minha tia sempre contava que, num determinado ano, seu Tenório foi a Paris para passar o Natal. - Foi antes ou depois do episódio com o corcunda de Notre-Dame? - Foi três anos depois. – Intrometeu-se um dos presentes, demonstrando conhecer ambos os fatos. - Prossiga, minha flor. – reconduziu a conversa, o dono do bar. - Bem, quando ele passeava pela ala da Grécia antiga, lá no Museu do Louvre, ele se deparou com a famosa Vênus de Milo. - Já sei – irrompeu a repórter –, ele consertou os braços da estátua. - Ah, minha filha, se fosse só isso!... – Alguns risos se somaram ao comentário de D. Leonor, indicando que já conheciam o final da história. - Fala, D. Leonor, que não me aguento de curiosidade. – Nesse meio tempo, todo o bar se unia àquele bate-papo, incluindo os violeiros. - Seu Tenório ficou tão triste por ver que aquela mulher, que na sua cabeça tinha sido mutilada em um acidente de trabalho, não tinha a menor condição de puxar o vestido e de cobrir o próprio peito nu, que tratou de recolocar os braços, e com as mãos tampando os seios. – A repórter não se conteve: parou de anotar e levantou as sobrancelhas. - Pois é a mais pura verdade – corroborou seu Alcebíades –, pelo menos era o que a gente ouvia quando criança. E quase todos os presentes se uniram àquela conversação, querendo testemunhar, num verdadeiro falatório, os causos que seus parentes tinham contado. Ana Paula agradeceu a espontânea colaboração, mas teve que insistir para que falassem um de cada vez. E como não se decidissem sobre quem seria o próximo, D. Leonor foi obrigada a pedir a ajuda do Dr. Ricardo, o delegado da cidade, que, sentado longe do balcão, era o único que não se aproximara. Quando Ana Paula para ele se virou, um como peteleco a fez redirecionar a atenção: homem bonito, bem posto, de no máximo trinta e dois anos – ela tinha trinta e um –, fora cursar Direito em São Paulo, mas com a promessa aos pais, e à namorada, de retornar como delegado. O juramento, cumpriu-o à risca; o eterno amor, deixara-o pelo caçula de um fazendeiro; e a entrevistadora, bambearam-lhe as pernas. Dr. Ricardo, com toda a sua polidez, não teve dificuldade para organizar uma fila. E um por um foram tomados os depoimentos; um mais extravagante do que o outro. Ana Paula era só sorrisos, menos pela excentricidade das lembranças, contadas, aliás, com requintes de detalhes, do que pelos olhares de esguelha, que vez por outra endereçava ao delegado. Quando a última lembrança foi relatada, seu Alcebíades, que há tempos não via os fregueses tão alvoroçados, a todos convidou para uma rodada de cerveja. A cortesia foi aceita com hurras e louvores à memória do mais insigne dos ourives. - Por certo que a senhora também bebe, pois não? - Alcebíades, tenha compostura! É senhorita. – Ana Paula e Ricardo riram. E a jovem retrucou: - Pois você não teria, aí, algo mais forte? Uma cachaça, por exemplo? – Se examinassem bem as entrelinhas, era a mulher da cidade querendo mostra-se ambientada. - É pra já! – E saía com ares de surpresa e satisfação. - Cuidado! – ponderou o delegado – que a cachaça da nossa terra é tão forte quanto dourada. - Está insinuando que eu não aguentaria beber um gole dessa pinga? – rebateu Ana Paula, já muito sorridente. - Não, claro que não. Apenas que conheço o alambique de onde ela provém; só isso. – E o sorriso era recíproco. Seu Alcebíades distribuiu os copinhos apropriados e encheou-os com a melhor das aguardentes. E, penitenciando-se, dirigiu-se à jornalista com o pronome adequado: - Senhorita Ana Paula, aqui em Taquaral, o primeiro gole tem que ser de uma só vez. Você arrisca? - É claro que sim. – Incrível como todos no bar pararam o que faziam e depressa a encararam. Após o brinde, as goladas. E uma crise de tosse, involuntária e apatetada, foi a confirmação de que se sobrava intimidade com o jornalismo, o contato com o álcool revelava-se absolutamente esporádico. D. Leonor deu algumas batidas em suas costas com a presteza que o momento exigia, mas não deixou de acompanhar todo o bar que, rindo a bom rir, reforçava as boas-vindas. Não demorou muito para que um primeiro bocejo se somasse ao rubor facial. Foi o suficiente para que a anfitriã tampasse a garrafa e pedisse ao delegado que a acompanhasse até o hotel. Este concordou pronta e gentilmente; a repórter, silenciosa e alegremente. Ao contrário do que suporiam uns, Ana Paula e Ricardo não se demonstraram nem um pouco tímidos durante o retorno. Começaram por relembrar as cenas de há pouco, passaram pelo teto límpido e estrelado – coisa extraordinária e deslumbrante para ela –, e terminaram com a coincidência de que ambos gostavam de pipocas. Ao se despedirem – a procura de assunto chegou a pairar por breve tempo –, Ana Paula não deixou por menos: depois que solicitou alguns nomes para recomeçar a sua pesquisa, deu um beijo carinhoso e sem pressa na bochecha esquerda, agradecendo pela companhia agradável, e pedindo que não sumisse. Ao que ele retrucou: - Não sou homem de sumir. – Foi o suficiente para que ambos dormissem os melhores dos sonos. Na manhã seguinte, o largo da Sé estava como no dia anterior, e como em todos os dias: o coreto era um completo deserto; os sinos dobrariam nas horas de sempre; um bando de pombas ora revoava, ora era alimentado por mãos humanas; e cada aposentado disputava ferozmente as tábulas do adversário, sentados ao redor das mesas de alvenaria sobre cujos tampos foram pintados tabuleiros. Quando Ana Paula chegou, o murmurinho começou. Os velhotes estavam ansiosos para contar as suas lembranças, pois toda a cidade já sabia de quem se tratava e o principal motivo de suas férias. Os sorrisos e os acenos foram inevitáveis. - Santa privacidade... – comentou a moça, de si para si, não disfarçando a diversão que pressentia. As entrevistas se sucederam com mais disciplina que na noite anterior; por certo, conquistas da terceira idade... Só que, em meio àquele caldeirão de fantasias, um depoimento fez com que o semblante de Ana Paula se alterasse: Em toda a sua carreira de extraordinários consertos, houve apenas uma única vez em que os dotes sobrenaturais do ourives de Taquaral não surtiram efeito nenhum. O octogenário que mencionou essa exceção, contudo, não se recordava muito bem do que tinha acontecido. - Por favor, seu Joaquim, faça um esforço! Que fato foi esse? – A insistência era inútil. A memória que ali bruxuleava, dispersa, fragmentada, jamais se refaria por completo. Não obstante, dirigiu-se aos outros: - Alguém de vocês já tinha ouvido falar desse episódio? – Mas a resposta foi unânime. - Por que a senhorita não vai à biblioteca pública? – sugeriu o mais novo do grupo, de setenta e dois anos – Talvez encontre algo por lá. - Boa ideia! – E agradeceu-o com um beijo na testa. O problema foi administrar e reverter a nova fila que se formava, sem que sobreviessem melindres. Muitos outros fatos Ana Paula acabou descobrindo naquele pequenino, mas bem conservado recinto, sendo o mais inacreditável o documentado na extinta Gazeta de Taquaral, ainda nos idos de Ruy Barbosa: “UM MILAGRE!” – assim era a chamada – “os cidadãos de Salisbury, pacata cidade localizada no condado de Wiltshire, no sul da Inglaterra, ficaram estupefactos ao verem que Stonehenge, o famoso alinhamento megalítico da Idade do Bronze, tinha sido completamente restaurado. Retornaram todas as pedras azuis (derrubadas no chamado Período III, c 2075 a.C.), bem como o santuário de madeira e a avenida de entrada.” No entanto, nada havia que dissesse sobre aquele hiato na carreira de consertos de seu Tenório. Por isso, sua curiosidade profissional, naturalmente incitável, só fazia crescer e crescer, fermentada que fora pelas mãos do desafio. Terminada a pesquisa, Ana Paula saiu cabisbaixa, sem rumo e ao sabor de suas reflexões. O material que começava a compilar era apaixonante e prometia ser mais que frutuoso. Mas essa lacuna arranhava o seu entusiasmo. E de perguntas em perguntas, acabou alcançando o parque municipal, um recanto verdejante e intocado, onde se distinguiam os vários ipês-amarelos, que estavam cobertos de flores. A par desse espetáculo, e somando-se em plenitude, aqui e ali, pipilos suaves e harmoniosos cativavam os caminhantes, convidando-os a se desligarem do mundo e a se sentarem à sombra das árvores ou à margem dos regatos. Não que ela não frequentasse parques na capital... Esse, porém, revelava-se diferente. Parecia mais humano, mais florido, mais vivo, mais perfumado, mais limpo... Lembrou-se, então, da Canção do exílio, de Gonçalves Dias, e, trocando Portugal por Taquaral, e o Brasil por São Paulo, confessou em pensamento: - Os primores daqui dão de dez a zero nos de lá. - Como foram as entrevistas? – Ela tomou um susto. - Ricardo?... Não pensava te encontrar aqui. - Não disse que não sou homem de sumir? - Fico feliz. Gosto de quem promete e cumpre. E como dominasse os meandros de todo o parque, melhor guia não teria escolhido a jornalista, unindo-se ao prazer da companhia as observações do delegado. Assim, de vereda em vereda, ora sorrindo para os pássaros, ora sorvendo o perfume das flores, mais e mais Ana Paula e Ricardo se conheciam, e se gostavam. Sentados em um banco assombreado, deliciando-se, ela, com a casquinha de creme, e ele, com a de limão, Ricardo resolveu arriscar, e perguntou: - O que pensa do interior? - Como assim? – Ela nunca fora boba... - Ora, como opção de vida? De trocar o tumulto da cidade grande pela tranquilidade do campo. – Ao que ela retrucou: - E o que pensa você da capital? Pelo que sei, a carreira, aqui, não iria para frente. Não tem ambição? - Aqui tenho tudo o que quero: respeito, um salário excelente para os padrões locais, qualidade de vida, paz de espírito, muitos amigos, família... - Ah, quer dizer que nasceu em Taquaral? E por acaso algum de seus parentes não saberia de algo interessante sobre as façanhas de seu Tenório? Ou, o que mais me interessa no momento, sobre a única vez em que ele não conseguiu consertar alguma coisa? – Ricardo prometeu investigar. E retomou o que falava: - Lembra do velho e delicioso fugere urbem, de Horácio, que aprendemos nas aulas de literatura? Pois eu não via a hora de fugir para cá. Até porque, os ilícitos do interior não me dão náuseas, não são as barbaridades que se praticam nos centros urbanos; não vão muito além dos furtos de galinhas. A propósito, já viu como anda a cadeia? - Às moscas? - Prefiro pensar em otium cum dignitate, como diria Cícero. – Ela riu e retrucou: - É chegado ao latinório? - Só quando quero impressionar; e conquistar. – Riram, e se foram aproximando, e se beijaram. Os assuntos migravam ao sabor do vento. Falaram da infância, das profissões, das viagens, dos namoros, dos sonhos... E a cada pausa, uma carícia; a cada sorriso, um olhar vagaroso; a cada toque, um doce arrepio. Ambos sentiam-se felizes. Mas essa sensação era para eles um tanto pesarosa, quase hipócrita, pois bem sabiam que ninguém abriria mão do seu paraíso. Quando deram por si, as aleluias já caíam sobre suas cabeças, atraídas que foram pela luz fluorescente de um poste que jazia atrás do banco em que estavam. E para compensar os chiliques de Ana Paula, que pulava e sacolejava aos gritos, implorando que tirasse aqueles insetos pegajosos dos cabelos, o jeito foi Ricardo convidá-la para jantar em uma genuína pizzaria do interior, a Babbo Alcebíades, cujo dono ela facilmente identificou. Depois de muito rirem – e ela não conseguia erguer o rosto, tamanho o mico por que passara –, partiram para a praça central, onde os aguardavam um cardápio pouco variado, um forno a lenha, pizzas de massa fina e muito saborosas, muitos litros de chope, cremoso e estupidamente gelado, e mais algumas centenas de cupins alados. Três dias se passaram. O material compilado pela jornalista era de fazer inveja a qualquer biógrafo; se bem que, por mais que tivesse pelejado – incluindo, aí, a frustração de constatar que seu Tenório não deixara descendentes –, nada conseguira que suprisse o esquecimento de seu Joaquim. O relacionamento entre o casal estreitava-se cada vez mais, deixando-os ora muito felizes, porque presos ao calor do agora, ora abatidos, porque conscientes de que as férias de Ana Paula chegavam ao fim. Em meio a essa oscilação, Ana Paula concordava com o argumento de Ricardo de que a vida no interior era infinitamente melhor para se criar crianças, que brincam e jogam bola nas ruas, defronte às suas casas, sem medo, alegres e com as bochechas rosadas, sinônimo de saúde. Logo em seguida, porém, mais de um contra era por ela levantado – a escassez de bons colégios, a impossibilidade de ascensão profissional, etc. –, o que impunha ao diálogo um momento de sofrido e lastimoso silêncio. Passado esse estado, e por uma questão de equidade, era Ana Paula quem se esforçava por convencer Ricardo de que as facilidades que em São Paulo havia – teatros, restaurantes, casas de show, cinemas, shoppings, feiras livres, livrarias, escolas, faculdades, supermercados, farmácias, hospitais, maternidades... –, eram indispensáveis, inseparáveis da vida de um casal normal. De sua parte, o delegado contra-argumentava que no interior o ar e as águas são puros, sem poluição; o povo, solidário, confiável e sem afetação; e a expectativa de vida é bem maior, pois se preocupações há, longe estão do estresse a que estão sujeitas as pessoas que moram nas grandes cidades. E terminava perguntando: - Se um dia tivermos netos, gostaria ou não de vê-los chegar à maturidade? – A essa pergunta, Ana Paula preferiu ser espontânea: - Somos tão diferentes... Acho melhor... – Mas a jovem não pôde concluir, pois Ricardo a agarrava e a beijava com ardor. Nos dias seguintes, a pesquisa e os carinhos continuaram. Aquela, sem seus arremates; estes, tão ternos e apaixonados quanto despreocupados. Os amantes não mais tentavam persuadirem-se, pois combinaram, e sem trocarem uma só palavra, que seguiriam adiante como se não houvesse um fim definitivo. Estranha decisão, é verdade, um misto de resignação e covardia, mas que, na falta de outra, era a única possível. - Aposto que sairá na primeira página – disse Ricardo, tentando afrouxar o desconforto que a proximidade do fim de semana infligia. - O quê?... – O pensamento de Ana Paula voara para bem longe, indo ter com a civilização da qual não se desligava. - Quis dizer que, com tudo o que você conseguiu, o seu editor não terá alternativa senão a de estampar o seu artigo na primeira página. - Deus te ouça! – E mais uma pausa se fazia. - Nós... vamos continuar a nos falar? – perguntou o delegado, sem muito entusiasmo. - Ora, para que servem o celular, o WhatsApp, o e-mail, o Facebook e o Skype? Antes, porém, que algo mais se falasse, um garoto surgia esbaforido. - Tiãozinho, o que foi que aconteceu?! - Seu delegado, o seu Joaquim me mandou... – como arfava, mal conseguia concluir a frase. - O que foi que aconteceu com ele?... um acidente?!... foi roubado?! - Não, não aconteceu nada de ruim. É que ele quer muito falar com a moça, quero dizer, com a senhorita Ana Paula. - Será que ele se lembrou de alguma coisa?! – a repórter exultava. - Pois vamos agora mesmo para lá. – sentenciou Ricardo. Quando chegaram à residência de seu Joaquim, foram recebidos pelo próprio patriarca, que, como de costume, assim falou: - Entrem, entrem... A casa é humilde, mas é limpinha. – Ana Paula se esforçou para não rir. - Acho que você já deve estar imaginando o motivo de eu ter te mandado chamar, pois não? - O senhor se lembrou daquele fato?! - A expectativa se multiplicava. - Bem, na verdade, eu mesmo não me lembrei de nada. - Como assim?... – E se desapontava. - A senhorita sabe que a minha memória já não é tão boa; já se vão lá alguns anos... Mas trate de se alegrar, pois sabe o que eu encontrei e que estava esquecido por entre os meus pertences? – e mostrava um cofre muito antigo, empoeirado e enferrujado, e que, por força disso, uma simples alavanca fez abrir. - Um cofrinho?... - Não é apenas um cofrinho. Trata-se de um verdadeiro desabafo que o próprio seu Tenório confidenciou ao meu bisavô. De certo que, com o passar das décadas, as preocupações e as prioridades foram sendo substituídas, e os amigos dele se esqueceram. - Mas, como é que...? – À dúvida do delegado seguiu-se a complementação de seu Joaquim: - Como é que eu sei disso e não me lembro do resto? – Ricardo confirmou um tanto sem jeito. - É simples, eu li o bilhete que está aqui dentro. – e o passava à jornalista. Ana Paula, um pouco trêmula pela curiosidade, desdobrou um papelucho amarelado, escrito a mão e a lápis. E, a pedido de Ricardo, leria em voz alta o seguinte: “Caro Teotônio, bem sei que somos amigos, e de longa data. E é por força dessa verdade que venho desabafar por meio destas linhas. Peço, contudo, o obséquio de guardar esta minha confissão, e que não a revele a ninguém. Certo dia, fui ter com D. Ambrósia, que me pedira ajuda. Como sempre me tivera em alta conta, rogava que a ajudasse, que fizesse perceber à sua neta o erro a que ela e seu noivo se entregavam. Joaquina, era esse o seu nome, casaria com Eusébio, o filho do barbeiro. Amavam-se, é verdade, e o casamento fazia muito gosto a toda parentela. No entanto, as comodidades que ouviam dizer sobre o Rio de Janeiro seduziram os seus espíritos, e, por isso, os apaixonados decidiram que lá criariam raízes. Arriscariam, assim, trocar a simplicidade em que viviam, e que tanto os acalentava, pelas doidices da cidade grande. Pois bem, prezado amigo, tudo fiz para evitar esse equívoco, mas os noivos fecharam para mim os seus ouvidos. Os esponsais passaram, o enlace aconteceu, e faz três meses que moram no Catete. Há poucos dias, porém, recebeu D. Ambrósia uma carta de sua filha. E, como prevíramos, a boa avó e eu, os recém-casados amaldiçoam o dia em que trocaram o céu do interior pelo inferno da capital. As teias, os conchavos, os fingimentos, os apetites desenfreados, tudo o que lá encontraram é motivo de arrependimento. No entanto, mais e mais neles se enredam... Estimado Teotônio, será que algum dia poderei consertar esse triste desacerto?” A escolha, oferecia-lhe o destino; a resposta, esperava-a Ricardo. No domingo, partiu a repórter. Foi-se calada, triste, decidida, e alheia às belezas da estrada. Taquaral amanheceria nublada, e assim permaneceria por dois dias. O coração de Ricardo, contudo, ficaria encoberto por muito mais tempo.

Published at : 30-10-2017
Category : Short story