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- Incômoda Necessidade de Mudança

Incômoda Necessidade de Mudança

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Meu nobre e querido amigo, venho até você pois o mau que me aflige, me punge e me atormenta, não pode ser vencido por mãos solitárias erguidas a esmo nas calçadas, nem por uma cabeça mirando os céus inutilmente, visto que é falsa a avidez e a segurança que quer demonstrar insistentemente. Sei que ele toma de mim, minhas melhores qualidades. Está enraizado em cada fibra do meu corpo, cada pedaço meu, cada gesto que deveria ser de outro, cada sorriso que deveria ser, também, seu. Como uma ave de agouro em meus umbrais, ele segue como uma sombra permanente e não me deixa em paz. Porém preciso inferir sobre esse último ponto, a certeza de que você está pronto. Pronto para ouvir de minha tão amarga voz, aquilo que para muitos não é motivo de preocupação, mas com certeza é para nós. Sendo meu amigo, um dos poucos, pode entender minha preocupação, nesse tom rouco, o medo de ser mal interpretado por não ser amante ávido das ciências que tratam a psique humana, e ser confundido com um mero espectador, que assiste aturdido a um espetáculo de horror. É provável que se outro ouvisse minhas confissões, não entenderia e nem sequer saberia do que se tratam minhas lamentações. Pensaria, talvez, que não passo, e você também, de um amargurado, mal-amado, indigesto, um homem em protesto sem argumento baseado. Me sinto feliz de ser você a ouvir. Felicidade, aliás, que sinto cada vez menos, a não ser talvez em momentos pequenos. “Me sinto feliz” seja talvez aqui um eufemismo mal encaixado, um sentimento mal interpretado, por mim mesmo dito de modo relaxado e provavelmente subestimado. Assim como alguns, acredito que ninguém é feliz, e sim “está feliz”, pois ser implica em um estado imutável de condições fixas. Todavia, a tristeza segue as mesmas regras... Estou então, triste. E assim sendo... Não estou então, feliz. O motivo de minha infelicidade momentânea é o mesmo de sempre, o mesmo de antes, literalmente o mesmo. Mesmo, aliás, que deriva mesmice, rotina, repetição, imutabilidade, consistência insistente de fatos diários sem nenhuma ou pouca qualidade. Por fim a falta de tudo e de nada. “Se lembra quando a gente, pensou um dia acreditar que tudo era pra sempre, sem saber que o pra sempre, sempre acaba”. Bom, Renato tentou nos avisar, mas não ouvimos não é mesmo? No entanto, como sabiamente disse o poeta uma vez: Um dia a gente aprende. Um dia a gente aprende e entende. Se surpreende com o grau de inteligência necessário para entender a existência até mesmo do mais simplório ser que habita esse mundo. Dos que voam mais alto aos que cavam mais fundo. Dos que não riem de nada e dos que riem de tudo. Dos que “são felizes” independentes de mim e dos que são tristes dependendo de mim. A gente aprende sim, tarde demais talvez, a dizer um simples não. Não que não seja correto dizer não. Não que não seja necessário dizer não. Não que não seja comum dizer não. Dizer um não com propriedade, com segurança, com intimidade e com confiança. Um dia a gente aprende, um dia. Não hoje, não agora. Um dia, que por acaso ou destino, eu sei que demora muito mais para um homem feito que para, como eu, um menino. Por fim, meu caro, escrevo estas linhas, como disse antes, não para falar das minhas tristezas e muito menos das minhas alegrias. Também não é sobre coisas sobrenaturais, mas de coisas que são normais e que fazem da vida, cada vez mais, o que ela é. Um poço sem fundo de desejos largados, de pedidos esquecidos e de agradecimentos atrasados. Que parece sempre injusto, dado o trabalho para tirar dele algum sustento, mas que sem o qual, num deserto arenoso, faz com que o trabalho, antes penoso, transforme o sedento em alguém que acha tudo aquilo maravilhoso.

Published at : 12-11-2017
Category : Short story