Notice (8): Undefined index: HTTP_ACCEPT_LANGUAGE [APP/Controller/AppController.php, line 55]
- Ode aos cinquenta.

Ode aos cinquenta.

Crônica

Font Size:

​Ontem retomei a deliciosa A semana I, coletânea de crônicas de Machado de Assis, editada pela Gazeta de Notícias do Rio de Janeiro. E quando lia a de 25 de agosto de 1895, deparei com esta frase: “É o que te sucede, qüinquagenário que ora lês os livros de todos esses rapazes que trabalham, escrevem e publicam.” ​Nesse instante, senti um forte tapa na nuca, o que me fez largar o livro sobre a mesa e me virar para “acariciar” o autor da brincadeira. Só que as carícias tiveram que esperar. Não porque o atrevido fosse maior e mais forte, mas, sim, porque não encontrei ninguém em quem bater! Meu primeiro pensamento foi o de que tivesse esquecido do meu costume – trancar a porta do escritório quando resolvo me entregar à leitura. Isso por certo teria permitido a entrada sorrateira de algum mal-educado. No entanto, depois que verifiquei que a porta continuava trancada, já dá para imaginar que tranquilo não foi propriamente a sensação de que fui tomado... Erraram, no entanto, aqueles que pensaram em um desocupado poltergeist. E faço essa afirmação depois que se passaram os instantes necessários para que recobrasse a lucidez. Na realidade, o susto que levei foi pura consequência da frase que acabara de ler. Já adianto, porém, que nada teve a ver com os sucessos literários dos autores precoces. O que me tapeou mesmo foi o cair a ficha, ou seja, a percepção, ainda que tardia, de que completei meio século de vida! Não sei se os que alcançaram a casa dos cinquenta tiveram reação parecida com a minha. O fato é que a perplexidade permanecia, e precisava fazer algo para sair dessa faixa. Foi aí que me lembrei daquelas piadinhas que relacionam algumas aves com o tempo de vida dos homens. Um pouco de risada vinha bem a calhar. Ora, se na idade do condor (entre setenta e um e oitenta anos) haveria dores aqui e ali, quem sabe o que me aguardaria o pássaro representativo dos cinquentões? Pois que fique bem claro: Discordo, e com veemência, da característica que impuseram ao papagaio! Resolvi continuar lendo. Mas para me resguardar de mais uma desconcertante revelação, pensei em mudar de gênero, se bem que mantivesse o autor. E fui ao conto a Teoria do medalhão, que escolhi ao acaso. Pois não é que esse texto acabou me ensinando que, no comum das vezes, o verdadeiro medalhão começa a se revelar entre quarenta e cinco e cinquenta anos de idade? ​Graças a Deus que estou longe de parecer esse tipo de figurão! ​Por outro lado, também quero render graças ao desenvolvimento científico, sobretudo ao cultivo de bons hábitos, e ao modo Pollyanna de ser. Quanto às primeiras, o fato de ter apagado cinquenta velinhas neste ano em nada me apavora, uma vez que a expectativa de vida só aumenta, o que me permitirá, em tese, alcançar os cem anos com relativa facilidade. Quanto às últimas, digo que é muito melhor olhar para o meu copo da existência e pensar que ainda resta metade do líquido da vida para ser bebido, do que ficar me lamentando por já ter me saciado com a outra metade que não mais existe. E mesmo que olhasse para o passado, nem assim me arrependeria. É que não deixei de fazer o que a sabedoria popular reclama a uma vida plena: sou pai de um lindo casal, escrevi dois livros, um romance urbano e um de gastronomia, e cheguei a comer maçãs de um pé que eu mesmo plantei. Quanto à saúde, posso dizer que nunca abusei. É claro que tive uns e outros problemas... Mas tenho certeza de que cólica renal e infecção urinária não são privilégios dos homens de cinquenta. Agora, receber do meu urologista uma solicitação de colonoscopia, ah! isso é!... Além disso, posso me vangloriar de não ter que levar, aqui e ali, o famoso “kit do idoso”, itens profiláticos que comumente acompanham os da terceira idade, tais como anticongestionantes, colírios, analgésicos, pomadas, etc. Como sei o que compõe esse kit? Bem, voltemos à crônica... E já que estou bem de saúde, da cabeça e das finanças, decidi viajar com minha família neste próximo feriado. Ora, para mim, uma das consequências de a ficha ter caído é que devemos comemorar, e com mais intensidade! E por quê? Ora, não vivem postando nas redes sociais que a vida começa aos cinquenta?

Published at : 14-11-2017
Category : Articles and Opinion