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- Uma nova era.

Uma nova era.

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O Olimpo voltava ao rebuliço. Era imperioso, sentenciavam, que a alegria fosse novamente semeada sobre a Terra. Afinal, desde Schiller, com Ode an die Freude, e Beethoven, com o último movimento da 9ª Sinfonia, que esse sentimento não se via proclamado. As agonias humanas, porém, fossem ruidosas ou abafadas, subindo dia a dia às excelsas fronteiras, nelas repercutiam como ferros incandescentes, e suplicavam aos deuses uma tomada de posição. Por isso, as sugestões à próxima investida multiplicavam-se, haja vista o entusiasmo que a todos contagiava. Ocorre que toda essa exaltação mais embaraçava que contribuía para a escolha da proposta mais adequada à necessidade do momento, e essa falta de unidade já se fazia ouvir no reino de Hades. Ora, o Deus do Mundo Inferior não se furtou a zombar do seu augusto irmão, comentários esses que depunham contra a sua gloriosa reputação. Daí que Zeus resolveu pôr ordem na casa. Dessa forma, as propostas, que antes se superpunham umas às outras, tiveram que ser expostas para a escolha do onipotente, o que, é bom que se diga, implicou um certo privilégio à ala feminina do Olimpo. Não obstante essa reserva, as inevitáveis discussões que se seguiram tiveram que ser por ele administradas, e encontraram menos nas concessões que nas imposições os limites que pacificam. Interessante mencionar que tanto essas deliberações, porque acaloradas, como as repreensões que as calavam, porque imperiosas, equiparavam-se a verdadeiros trovões que não raro transpunham o portal de nuvens – entrada do Monte Olimpo, vigiada pelas deusas Estações – e acabavam estrondeando no Parnaso, o que deixava Virgílio e Hesíodo de cabelos em pé, os poucos que ainda restavam. É claro que cada divindade pleiteou serem os seus predicados os mais adequados à semeadura da alegria – salvo Melpômene, a Musa da Tragédia, por motivos óbvios –, o que, em princípio, dificultava a procura no mundo de tantos quantos pudessem servir de instrumentos à sua propagação. E como não se chegava a um consenso, coube à Graça Aglae, A brilhante, terminar essas idas e vindas com um toque de genial simplicidade: - Deidades! Repitamos a receita, que nos foquemos em todas as artes! Após alguns segundos de olhares recíprocos, de reflexões e de ilações, a esmagadora maioria dos presentes acabou aderindo a essa sugestão, o que fez com que o supremo juiz a declarasse vencedora. No entanto, ainda se fazia necessário escolher a quem caberia esta ou aquela ação, e mais uma vez a balbúrdia tomou conta da morada dos deuses. - Ó deusa Reia – desabafava Zeus a sua mãe –, ajuda-me neste momento de impaciência, pois que esse vaivém parece interminável! Nesse instante, a Mãe dos Deuses se fazia anunciar, não por meio de trombetas ou pirotecnias que, bem sabia, já se haviam reduzido a lugar-comum, mas, sim, por meio dos tonitruantes rugidos dos dois leões que puxavam a sua magnificentíssima biga. E aterrissava triunfal bem perto de onde o concílio de potestades se reunira. Só que Reia não vinha só. Teia, sua irmã, a acompanhava. E seus semblantes revelavam um misto de preocupação e esperança. Aquela, porque preocupada com tempo que corria; esta, por causa da solução que seria apresentada. Mais que depressa, Zeus se levantou e foi ao encontro das deusas. E se estava saudoso e solícito, não escondia um tanto de espanto e mesmo de desconfiança ante a presteza com que sua mãe atendera ao seu chamamento. Depois de se cumprimentarem – e todos os demais as reverenciarem –, Reia tomou a palavra e passou a dizer a que vinham: - Filho amado, deuses do Olimpo, não fostes vós apenas que ouvistes os rogos de quantos choram sobre a Terra. Nós, as filhas de Urano e Gaia, também nos compungimos de suas dores, e não só aplaudimos a intenção de ressemear a alegria como também nos oferecemos para ajudá-los. - Querida mãe, agradecemos a vossa preocupação. No entanto, falta-me apenas distribuir as tarefas, pois o foco do nosso trabalho já foi delineado. De modo que... – E Reia o cortava: - Não, meu filho, muita coisa mudou desde Schiller e Beethoven. O materialismo, a desesperança, a falta de oportunidades, a ganância que eleva a mediocridade à posição de primor, e tantos outros cânceres vêm contaminando o espírito do artista, carcomendo o seu ideal e destruindo o seu estímulo. Por isso, não mais bastará uma divina inspiração, como outrora vós fizestes. Neste momento histórico, será necessário ir além. - Prossegui, ó veneranda. - Os olhos dos mortais, seus espíritos, se acomodaram nesses últimos séculos. Eles veem, mas não enxergam. E se resignam com as realidades que são apresentadas. - Mas?... – Reia, porém, não o deixou continuar, opondo a palma da mão direita. - É lamentável constatar que esse triste hábito, se assim me posso exprimir, enraizou-se na esmagadora maioria do gênero humano. É preciso, pois, que nos esforcemos por arrancá-lo. Assim, além de descortinar o que cada artista carrega em si mesmo, o que para vós é lugar-comum, será imprescindível que esta realidade seja a ele revelada, a fim de que ele próprio a filtre e a devolva cristalina ao seu entorno. Nesse sentido, as potencialidades, as perfectibilidades, o idealismo a guiar o mundo, tudo, enfim, está adormecido nas profundezas dos seus corações. Descobri-os, revelai-os, encorajai-os, e a alegria transbordará, se autoalimentará, e se disseminará por todo o globo com a força de mil vulcões! Zeus e os demais já entreviam a sagacidade e a beleza da mensagem que a majestosa senhora trazia. E os sorrisos eram a prova desse vislumbre. - Começai, sim, – prosseguia Reia – pelas artes. São as vanguardas naturais, as alavancas que revolvem, os estímulos a serem seguidos; tendes a minha bênção. Mas não vos esqueçais do futuro, quadro este que será por nós apontado no devido momento. - E o que quereis que façamos? - Estais mesmo dispostos a acatar a nossa proposta, ó Rei dos Deuses? - E como ousaria eu superpor meu orgulho e vaidade ao vosso desígnio? Não me canso de lembrar, e de dizer, que se não fosse por vós, por vossa amorável atitude, a de me esconder no Monte Ida, em Creta, assim que nasci, e eu teria por certo a mesma desventura que tiveram meus irmãos – as entranhas de Cronos. - Fico feliz com vossa receptividade. Mas não serei eu quem explicará o nosso plano. Vossa tia é quem tem mais qualificativos para explicar o que os deuses deverão fazer; não por isso que também é conhecida por Deusa da Visão. Quanto à distribuição das tarefas, não duvido de que vós bem sabereis a quem confiá-las. Reia deu a palavra à irmã. Esta dispensou os rapapés e foi logo chamando a atenção: - Trago comigo estes preciosos utensílios. E a um estalar de dedos, um soberbo bornal, filigranado em ouro e cravejado de gemas cintilantes, surgiu por detrás da biga e foi pousar defronte à deusa. A essa altura, todos já se haviam achegado para melhor poderem ver. Teia, então, retirou de dentro do saco um exemplar do que trouxera – óculos por ela mesma criados, de um design sublime e cujas lentes, por possuírem graus mágicos, propiciariam uma auspiciosa releitura da vida. - Como disse – continuava A divina –, será por meio deste instrumento que cada mortal por vós visitado deixará de ver para enxergar. E porque imperceptíveis à grosseria dos sentidos humanos, basta sejam aproximados das frontes para que os óculos a eles se adiram pelo tempo necessário à autotransformação. Depois disso, desaparecerão, reintegrando-se ao cosmo. - Bravo! – A aclamação foi unânime e calorosa, tanto que os aplausos e os hurras se encontroaram por um bom tempo. - Mas como será aos que já usam óculos? – retorquiu Ftono, o Deus da Inveja, com o costumeiro desdém. - Por terem sido elaborados com a quintessência dos elementos, são imanentes às suas cópias terrenas. - Ah... – E calou-se. Passada a euforia, Teia e sua irmã resolveram partir. A missão a que se entregaram fora cumprida a contento, e não estavam dispostas à baderna que sabiam viria a seguir. O primogênito de Reia retomou a palavra: - Como o objetivo é a ressemeadura da alegria, nada mais lógico que as escolhas recaiam sobre as divindades que a ela se liguem, mesmo que de maneira indireta. De outra parte, o mundo é bem vasto, o que suscita a divisão em grupos, visando à otimização. Assim, passo à escalação, e não admitirei apartes, apelos ou choramingos. Zeus resolveu bipartir o mundo. Disso resultaram duas equipes: a das três Cárites ou Graças, a quem Homero descreveu na Odisseia como espíritos adoráveis, jovens e belos, e a das nove Musas, as inventoras de todas as artes, como bem lembrou Voltaire no conto Aventura da memória. Estas comandadas por Apolo, e aquelas, por Afrodite, respectivamente os deuses das belas-artes e da alegria. Os deuses remanescentes permaneceriam no Olimpo, mas de sobreaviso, e desceriam à Terra caso algum dos enviados precisasse de ajuda. De outra parte, é certo que em um lugar de delícias nem tudo é trabalho. E como pré-sabiam as parentas de Zeus, uma comemoração majestosa foi preparada em seu louvor. Dionísio, o Deus das Festas, naturalmente assumiu a chefia, e entregou-se ao trabalho com um capricho inusual – o néctar e a ambrosia foram servidos à saciedade; as cornucópias trabalharam até a exaustão. Mas o mestre de cerimônias não parou por aí, e depois de um concerto de liras, foi a vez de Calíope, a Musa da Eloquência, anunciar, com sua trombeta, o recitar de um poema épico. Houve quem sugerisse Ilíada, mas Eneida sempre foi o preferido do homenageado. E puseram-se em silêncio, e cantou a Bela voz. No dia seguinte, e como acordasse de muito bom humor, Zeus concedeu a Afrodite o privilégio de escolher os Continentes a que sua equipe se dedicaria. E como não temesse novos desafios, mas também levando em consideração a diferença numérica entre os grupos, ela e as Graças ficaram com a América e com a Oceania. Apolo muito se alegrou, pois, se era verdade que teria que vasculhar as populosas Ásia e África, a Europa e o helenismo ainda batiam fundo ao seu coração, e era isso que o estimulava sobremaneira. Resolvida essa última pendência, Zeus achou por bem proferir algumas palavras antes da partida dos enviados; a importância da ocasião o exigia: - Trabalhai com afinco, ó sementeiros da alegria, pois o futuro dos mortais está em vossas mãos. Dessa forma, não abandoneis os desanimados, não desistais dos malsucedidos, não vos afasteis dos iludidos, e não vos envergonheis dos principiantes. Insisti sempre, sem descanso, pois todos devem ser estimulados no que tiverem de aproveitável. Agora, ide à crosta terrestre; eu vos invisto do meu poder! O todo-poderoso ergueu os braços e abriu as mãos. E descargas de raios fulgurantes precipitaram-se de suas palmas e foram envolver os emissários, envolvendo-os em uma espécie de armadura dulcificante, a condição que faltava à plena execução do mandato divino. Os mensageiros celestes desceram ao orbe cheios de vigor, de ânimo e, sobretudo, de otimismo. Era preciso encontrassem terreno fértil entre os mortais a fim de que as sementes que se seriam deitadas pudessem crescer vigorosas, o que, confiavam, proporcionaria uma safra verdejante, o cêntuplo desde a última colheita. Na França, por exemplo, Tália, A festiva, encontrou um escritor que já ganhara vários prêmios literários. Apresentava-se, no entanto, não como uma pessoa satisfeita e bem-disposta, mas, sim, como um farrapo vazio e enfermiço. Procurando as causas, compreendeu que esses estados decorriam do universo temático com que o laureado se harmonizava. – o abuso da violência, do sofrimento, da podridão e do sexo. A Musa não pensou duas vezes. Aproveitando sua nacionalidade, e repleta de compaixão, conduziu-o à biblioteca – leia-se, puxou-o pela orelha –, pousou no seu rosto os óculos de Teia, e, sob o influxo de sua máscara da comédia, o inspirou a abrir determinada obra de Barthélémy. Deste sobreveio o seguinte pensamento, que despontou como um verdadeiro lenimento: “A alegria é a saúde da alma”. Uma como metamorfose se apoderava do íntimo enquanto lia e relia a poderosa frase. As lentes mágicas o faziam enxergar, e com o mais cristalino dos augúrios, que se lutasse por sufocar suas tendências, que se pelejasse por mudar de gostos, que, enfim, outro fosse o regaço em que seu dom se dessedentasse, não só veria curada a sua alma, como também, e por conseguinte, o próprio corpo ficaria são! Tália, então, se perguntou, e com um sorriso jubiloso ante a transformação que testemunhava: - Uma vez restabelecida sua saúde psíquica e física, quantos prosélitos esse novo, agradecido e exultante autor será capaz de arregimentar? E ela mesma respondia: - E por acaso é concebível limites à alegria? Noutra ocasião, em Lisboa, Terpsícore encontrou uma bailarina de uma importante companhia. Analisando-a, a Musa da Dança aquilatou a sua inquebrantável determinação, a sua absoluta dedicação e o primor de sua técnica. Essas conquistas, contudo, que se consubstanciavam na mais sublime leveza, careciam ainda daquele quê enigmático, daquele plus imponderável sem o qual o primeiro lugar ainda parecia inalcançável. Diagnosticada a lacuna no íntimo da adolescente, a recente perda da mãe, A rodopiante não precisou mais que dois segundos para arquitetar um meio por que aumentaria ainda mais a eficácia dos óculos mágicos. Dessa forma, viajou até o lar de Morfeu, uma escura caverna decorada com flores, conforme eternizara Ovídio, em Metamorfoses, expôs a sua ideia com muita propriedade, e dele obteve a mais entusiástica adesão. Ato contínuo, o Deus dos Sonhos, sabedor de que a noite chegava ligeira, largou sobre sua cama de ébano o bilboquê com que costumava se divertir nos momentos de folga, ofereceu o braço à Musa, que de pronto o aceitou, e foram ambos pedir ajuda a Hélio, a personificação do Sol. Com certeza, a sua quadriga era o jeito mais rápido e iluminante de retornarem à capital lusitana. O Titã atendeu-os solícito, e em menos de um segundo alcançavam o quarto da alfacinha, que apenas dormitava. Por sua vez, o filho de Hipnos se preparou para usar sua divina habilidade – a de tomar a forma de qualquer pessoa, e de assim aparecer no sonho de outrem. Antes, porém, que a jovem caísse em um sono profundo, a Musa ajeitava os óculos. Os seus olhos físicos cerravam-se; os espirituais, contudo, começariam a enxergar. Operada a transformação, e a resplandecência que despontava do reencontro entre mãe e filha configurava-se inimitável até para Apolo, caso o líder das Musas pretendesse reproduzi-la em tela. As lágrimas, excelsas e límpidas, faziam-se vozes, e por alguns minutos tudo falaram. O abraço que se seguiu, caricioso e amalgamado, desconstituía a tristeza filial, ao mesmo tempo em que a substituía pela certeza do convívio. Era assim que a bailarina relia o seu presente, tendo a convicção de que nunca mais se sentiria só, e para sempre se confessariam. Como a exultação voltasse a habitar aquele coração florescente, Morfeu dirigiu-se à parceira, num tom que revelava pura ternura: - Quanto tempo esta dançarina rediviva ainda terá que esperar para chegar ao topo da carreira? E com os olhos acumulando lágrimas, Terpsícore respondeu: - Talvez um pouco mais que o necessário para que o âmago de sua arte, a alegria, contagie os milhões de espectadores que passarão a idolatrá-la. Seguiam, assim, Apolo e as Musas, direcionando aptidões, incentivando atributos, soterrando negativismos, multiplicando a alegria em todas as direções. Nenhum recanto, por mais inóspito que parecesse, era esquecido pelas zelosas divindades. De vilarejo em vilarejo, cidade em cidade, país em país, sondavam-se os corações, os talentos, os estilos e os senões. Constatados os pontos que eram dignos de serem aproveitados, e aos eflúvios estimulantes se ajuntavam o poder dos óculos da deusa Teia. E os artistas passavam a enxergar aquilo que antes apenas viam. Por conseguinte, moldavam o belo no que era visto como feio, concebiam o ideal naquilo que achavam inatingível, e retransmitiam bem-estar aos que só sentiam insatisfação. A nova maneira com que percebiam a realidade circundante, faziam-na como as plantas ressequidas que, desiludidas, ressuscitam irreprimíveis ante as primeiras gotas de chuva. A semeação, executavam-na com transcendental esmero; a colheita, nem os armazéns celestiais comportariam a sacaria! Com idênticos euforia e zelo, Afrodite e as Cárites desdobravam-se em seus propósitos, presenteando as Américas do Norte e Central com um rastro fulguroso. Aliás, a receptividade exemplar de seus habitantes muito as impressiou, o que facilitou a sua missão e, por conseguinte, o alastramento da alegria. Não obstante essa venturosa acolhida, foi nas terras do Tio Sam que a líder das Graças se deparou com um terrível obstáculo. Com efeito, ao penetrar o estúdio de uma renomada pintora, cujos quadros já abrilhantaram inúmeros vernissages ao redor do mundo, Afrodite se deparou com uma senhora prostrada, um corpo opaco, quase sem vida. Defronte à artista, e sobre um cavalete, um esboço cinzento refletia o pincel que se exauriu. Ao perquirir o motivo de tanta desventura, a Deusa do Amor descobriu que seu único filho sucumbira no campo de batalha, em uma das últimas campanhas encabeçadas por seu país. E como faz um povo, a filha de Zeus se condoía de tamanha compensação – a pátria perdera um fuzileiro e um herói; a mãe recebeu uma bandeira e uma condecoração. Afrodite continuou a vasculhar os meandros do espírito dessa pobre mortal e acabou descobrindo quem era o seu pintor predileto. Nesse mesmo instante, um dos símbolos por que a deusa é conhecida, a pomba, se materializava no peitoril da janela; decerto fora a onividência de Zeus que a providenciava. À alva visitante coube se fazer notar, e os conhecidos arrulhos somados aos meneios característicos do pescoço foram mais que suficientes. Assim, bastou à perspicaz Deusa da Beleza acomodar os óculos de sua avó naquele semblante derrotado para que, a pouco e pouco, um simples pássaro se transmudasse em mote, e uma nova maneira de enxergar a vida fosse sendo matizada. Dessa forma, e tal como fizera o seu mestre – Pablo Picasso – no início dos anos sessenta, a mãe artista punha-se ao trabalho, aposentando aquele esboço acinzentado e se debruçando sobre uma outra tela, em que a pomba branca da paz voejava fulgurante ao redor de todo o planeta, esclarecendo os equivocados, cativando os indiferentes, e convidando os indecisos a dizerem não ao belicismo, não ao desespero, e não à desolação. E concluía sorridente, de si para si: - Sim ao pacifismo, sim à esperança, sim ao júbilo! - A bruma se dissipava; o dom se via redirecionado. - Qual será o impacto que a arte desta senhora produzirá nas próximas exposições? – perguntava-se Afrodite – Quantos corações contritos se refarão ao se alimentarem do aroma que exala dos seus quadros? Quanta alegria transmitirá às almas sensíveis, e para quantas mais estas a repassarão? E mantendo o sorriso, respondia tranquila: - Só nos cabe aguardar. E os deuses seguiam confiantes, obsequiosos, vigorosos, deitando sementes aqui, semeando-as ali, espalhando-as acolá. Sempre exultantes de sua missão, e, principalmente, da germinação que presenciavam. Isso não quer dizer que tudo acontecia como nas lagoas edênicas, onde a calmaria reina absoluta e beatífica. Por vezes os enviados deparavam-se com um e outro artista que, renitentes, mantinham-se enclausurados em suas ruinosas opiniões. Isso implicava uma nuvem espessa e negra que se amoldava em suas cabeças, e que, fazendo as vezes de um capacete, tapava completamente a visão; e esse fenômeno era suficiente para neutralizar a eficácia dos óculos mágicos. Tudo indicava, portanto, que Hades ali estivera, e os presenteara com seu Elmo da Escuridão. Nesse exato momento, porém, a onividência de Zeus se fazia presente, e Hermes, o Mensageiro dos Deuses, os acudia na velocidade do pensamento. Trazia, das mãos do manquitola Hefesto, o Ferreiro dos Deuses, o seu martelo, o único capaz de despedaçar o elmo das trevas. Daí que, uma vez reconquistada a luz, e o processo de correção visual seguia o seu curso. Ocorre que, sem que nenhum dos mandatários olímpicos suspeitasse, ao Novo Continente estaria reservado o papel decisivo a que a alegria se destinara desde o surgimento de Caos, o mais antigo dos deuses. E seria no Brasil o local onde tudo se passaria. Afrodite e as Cárites sobrevoavam a zona portuária da cidade do Rio de Janeiro, quando Eufrosina sentiu uma vontade incontrolável de investigar uma favela. O desejo era tão forte que ela simplesmente se desgarrou do quarteto e desceu a terra. Ora, como voasse na retaguarda, ninguém deu por sua falta. Quis o destino que ela pousasse exatamente no Morro do Livramento, berço do imortal Machado de Assis, e defronte a uma casa mal-acabada. Do seu interior, vozes infantis, quais trinados demiúrgicos, sobrepujavam o burburinho da ladeira em que a divindade se encontrava e a atraíam como ímãs poderosos. Mas como recobrasse a plenitude das faculdades, a Graça hesitou em ceder ao estranho fascínio, chegando mesmo a dar três passos para trás. Só não partiu apressada em busca de sua equipe porque os donos das risadas, os Ibêjis, entidades crianças sincretizadas com os santos Cosme e Damião, trataram de dissuadi-la, fazendo-se visíveis, enleando-a em eflúvios calmantes e de confiança, e justificando que, entre todos os enviados, somente a Alegria da alma, por sua própria natureza, é que tinha condições de ouvir o chamamento. Em seguida, os orixás gêmeos pediram à Graça que entrasse e subisse à água-frutada, onde o real motivo do convite seria esclarecido. Adiantavam, ademais, que os seres humanos só teriam a agradecer. Mesmo assim, o Sentido da alegria não se deixava convencer, encarando-os em silêncio e esperando um algo a mais. As entidades, então, apreendendo o seu aguardo, conectaram-se às pressas a uma mente distante, e, com idênticos sorrisos, arremataram: - A deusa Reia diz: “Não se esqueçam do futuro!” Foi o suficiente para que a Graça as acompanhasse, e de muito bom grado. Nesse meio tempo, Afrodite, Aglae e Tália, A verdejante, já procuravam por Eufrosina, mas como esta não respondia a nenhuma mensagem telepática, aquelas começaram a se inquietar. Não que com ela se preocupassem, pois, como deusa, sabiam-na inatingível. É que, como é notório, uma Graça jamais se separa de suas irmãs. O sumiço, portanto, era motivo bastante para muitas interrogações. Como os questionamentos persistissem, a líder resolveu apelar: Contactou o oráculo de Delfos e dele obteve a orientação precisa de como chegar ao local onde a caçula se encontrava. E partiram sem demora. O trio se aproximou da casinha um tanto ressabiado. No entanto, e ao contrário do que supunham, tão logo atravessaram a parede chapiscada, as deusas se viram envolvidas por uma vibração amena, aconchegante, em tudo semelhante às emanações espargidas pelos Penates do panteão romano. E à medida que subiam a tosca escada, rumo ao quarto improvisado, a sensação de bem-estar só fazia aumentar. Ao alcançarem o humilde cômodo, Afrodite e as Graças se depararam com uma cena em si mesma corriqueira, mas que, na verdade, compreendia um poder incomensurável. Não por isso que o ambiente revelava-se como que preenchido de uma indizível aurora e tomado por uma intraduzível fragrância. Eufrosina se embevecia com duas crianças que, sentadas na cama, ouviam da avó lindas histórias. A atenção dos pequeninos – um garoto de três e uma menina de dois anos – era tamanha que os olhinhos simplesmente não piscavam! E os sorrisos, ah! os sorrisos... exprimiam todo o deleite que a meiguice, a pureza e a angelitude são capazes de ofertar. Mas antes que alguma das recém-chegadas pensasse em questionar ou mesmo em interromper esse momento sublime, os Ibêjis para elas se dirigiram, apresentaram-se em baixíssimas e uníssonas vozes, e, afáveis, pediram que aguardassem só alguns minutos a mais, pois um convidado ilustre não tardava, e deste encontro, insistiam, o mundo inteiro poderia se beneficiar. Ante a magnitude e utilidade dessa afirmação, as deusas se aquietaram e se puseram a sorver das delícias que, profusas e graciosas, inundavam e aqueciam os corações de todos os que ali se encontravam. Quando notou a presença das irmãs e de Afrodite, a enlevada Graça correu para abraçá-las, ávida por compartilhar de seu contentamento. Nesse ínterim, porém, um espírito luminoso adentrava sorridente. Trazia consigo quatro rosas brancas, vistosas e perfumadas, e que colhera no próprio jardim, localizado na Alameda dos Imortais, na ala norte dos Campos Elísios. As flores, recebiam-nas com um terno sorriso; os cumprimentos, iniciou-os Coelho Neto, O príncipe dos prosadores brasileiros. Em seguida, e como permanecesse a curiosidade, Afrodite tomou a iniciativa de interpelar o fundador da cadeira número 2 da Academia Brasileira de Letras sobre em que esse encontro favoreceria o gênero humano. E ele desta forma respondeu: - Afrodite, ó sagrada por Camões como a protetora dos heróis portugueses, bem sabemos, eu e os que me enviaram, que os deuses para cá se deslocaram porque mais uma vez se compadeceram dos sofrimentos por que passam os mortais. Mas, pergunto eu, de que vale a nós outros já termos alcançado o empíreo se lá permanecermos numa eterna e inútil contemplação? Em que se converteria a solidariedade? E como se justificaria a felicidade perfeita? - Nesse sentido – prosseguia o filho dileto de Caxias –, confabulamos nós também e concluímos por esta estratégia: Atraí-las para este recinto bendito para que, compreendendo a razão mesma desta cena, extraiam dela o adubo divino que permitirá transfigurar o planeta numa só lavoura, expandindo excepcional e irrefreavelmente o cultivo da alegria! Acontecimento inimaginável, fato antológico... Os seres humanos – mesmo que falecidos – e as entidades afro-brasileiras ombreavam com os deuses do Olimpo em prol do bem comum! - Como assim? – questionou Tália. - Certa vez, porque devidamente inspirado, alinhavei um pensamento por meio do qual volta e meia sou lembrado. E creio ser ele o melhor dos esclarecimentos: “A criança é alegria como o raio de sol e estímulo como a esperança.” Alguns entreolhares; muitos sorrisos... E não havia mais o que arguir. Daí que, além de persistirem nas artes, como meio iniciante de propagação da alegria, o leque teria que ser necessária e rapidamente aberto. Assim, fossem ou não pais, mães ou responsáveis, que todo o ser humano recebesse os óculos de Teia para que passasse a enxergar no presente a maneira de se alcançar um futuro glorioso. Só dessa maneira – investindo-se nas crianças, garantindo a sua satisfação física e moral, preservando-as de todos os males, cultivando a sua jovialidade... –, é que o mundo edificará e garantirá para si um Éden imperecível, onde a alcunha, Vale de Lágrimas, ficará para sempre relegada a uma página dobrada no livro da História. Os abraços que se seguiram, entremeados de soluços e fios de lágrimas, coroaram aquele instante bem-aventurado, perpetuando-o nos corações dos privilegiados que o puderam contemplar. E depois dos muitos e recíprocos votos de sucesso, Afrodite e as Graças partiram ao encontro de seus companheiros de tarefa. Reencontrado o outro grupo, e transmitido o ensinamento profundo, Apolo e as Musas se encantaram com o novo rumo que deveriam tomar. No entanto, antes de recomeçarem a jornada, acharam prudente obterem primeiro a bênção de Zeus; não convinha agissem em desacordo com as orientações do detentor da Égide. Assim, replenos de otimismo e de autoconfiança, as duas equipes rumaram para o Monte Olimpo, retorno esse que, é forçoso dizer, pegaria o maioral de surpresa. Amainados os primeiros sobressaltos, e o Deus do Céu era inteirado do sublime contratempo. E como previram, assim se manifestou: - Que projeto maravilhoso, e ambicioso! Digno dos deuses!... E de quem foi essa ideia extraordinária? - Na verdade, ó potestade – antecipou-se Apolo, um tanto temeroso –, nenhum de nós poderá se dar o crédito. As coroas de louros são devidas, sim, aos habitantes do Eliseu. Zeus se contrafez. Como, perguntava-se, um intento dessa magnitude não tinha sido idealizado por nenhum dos seus escolhidos?! O pior é que toda a corte olímpica presenciava o orgulho ferido, e o cognome de Deus das Tempestades ainda se fazia zunir desde a vitória na guerra contra os Titãs. No entanto, e para espanto de todos, seria a magnanimidade do Todo-Poderoso que falaria mais alto: - Quem diria... Mesmo com todos os meus atributos, onividência, oni-isso, oni-aquilo, e, ainda assim, minha mãe e tia descobriram um jeito de me surpreender. Bem, mãos à obra! Que nenhum artista seja esquecido; que nenhum mortal fique sem os óculos mágicos; que a alegria seja disseminada à farta e recubra toda a humanidade! Desta vez, porém, as festividades tiveram que ser adiadas, pois o tempo urgia. Isso deixou Dionísio um tanto melindrado. Mas nada que uma taça de vinho e um solo de cítara não remediassem. E enquanto as duas equipes se retiravam, Zeus levantou-se do seu trono e arrematou com muita disposição: - Ah, já ia me esquecendo: Levem consigo quantos deuses precisarem. Afinal, o trabalho vai aumentar, e muito! A propósito, ainda bem que a deusa Teia já se preparara para este novo desafio. Como confiassem, ela e Reia, que a humanidade toda seria aclarada, tratou de reduplicar a produção dos óculos mágicos e de abarrotá-los nos almoxarifados do Elísio. Realmente, a Terra despertava para uma nova era, onde o enxergar substituirá o ver, onde os bons valores triunfarão, e onde a alegria reinará absoluta.

Published at : 04-12-2017
Category : Short story